Deus em três Pessoas: A Trindade

Deus em três Pessoas: A Trindade
Como Deus pode ser três pessoas, porém um só Deus?
Podemos definir a doutrina da Trindade do seguinte modo: Deus existe eternamente como três pessoas - Pai, Filho e Espírito Santo - e cada pessoa é plenamente Deus, e existe só um Deus.
A. A DOUTRINA DA TRINDADE REVELA-SE PROGRESSIVAMENE NAS ESCRITURAS.
1. A revelação parcial no Antigo Testamento.
A palavra Trindade não se encontra na Bíblia, embora a idéia representada pela palavra seja ensinada em muitos trechos. Trindade significa "tri-unidade" ou "três-em-unidade". É usada para resumir o ensinamento bíblico de que Deus é três pessoas, porém um só Deus.
Às vezes se pensa que a doutrina da Trindade se encontra somente no Novo Testamento, e não no Antigo. Se Deus existe eternamente como três pessoas, seria surpreendente não encontrar indicações disso no Antigo testamento. Embora a doutrina da Trindade não se ache explicitamente no Antigo Testamento, várias passagens dão a entender ou até implicam que Deus existe como mais de uma pessoa.
Por exemplo, segundo Gn 1.26, Deus disse: "Façamos o homens à nossa imagem, conforme a nossa semelhança". O que significa o verbo ("façamos") e o pronome ("nossa"), ambos na primeira pessoa do plural? Alguns já afirmaram tratar-se de plurais majestáticos, forma de falar que um rei usaria ao dizer, por exemplo: "Temos o prazer de atender-lhe o pedido". Porém, no Antigo Testamento hebraico, não se encontram outros exemplos em que um monarca use verbos no plural ou pronomes plurais para referir-se a si mesmo nessa forma de "plural majestático"; portanto, essa sugestão não tem evidências que a sustentem. Outra sugestão é que Deus esteja aqui falando com anjos. Mas os anjos não participaram da criação do homem, nem foi o homem criado à imagem e semelhança de anjos; por isso a sugestão não é convincente. A melhor explicação é que já nos primeiros capítulos de Gênesis temos uma indicação da pluralidade de pessoas no próprio deus. Não sabemos quantas são as pessoas, e nada temos que se aproxime de uma doutrina completa da Trindade, mas implica-se que há mais de uma pessoa. O mesmo se pode dizer de Gn 3.22 ("Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal"), Gn 11.7 ("Vinde, desçamos e confundamos ali a sua linguagem") e Is 6.8 ("A quem enviarei, e quem há de ir por nós?"). (Repare a combinação de singular e plural na mesma oração na última passagem.)
Além disso, em determinadas passagens uma pessoa é chamada "Deus" ou "Senhor" e distinguida de outra pessoa também chamada de Deus. Em Salmo 45.6-7(NIV), diz o salmista: "O teu trono, ó Deus, perdurará para todo o sempre. [...] Tua amas a justiça e odeia a iniqüidade; portanto, Deus, o teu Deus, te estabeleceu acima dos teus companheiros ungindo-te com o óleo da alegria". Aqui o salmo vai além de descrever algo que poderia valer para um rei terreno, e chama o rei de "Deus" (v. 6), cujo trono perdurara "para todo o sempre". Mas então, ainda falando da pessoa chama "Deus", o autor diz que Deus, o teu Deus, te estabeleceu acima dos teus companheiros" (v. 7). Então duas pessoas distintas são denominadas "Deus" (heb. 'Elõhîm). No Novo Testamento, o autor de Hebreus cita essa passagem e a aplica a Cristo: "O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre" (Hb 1.8)
Do mesmo modo, em Salmo 110.1, fala Davi: "DIsse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha mão direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés". Jesus corretamente entende que Davi se refere a duas pessoas distintas como "Senhor" (Mt 22.41-46), mas quem é o "Senhor" de Davi senão o próprio Deus? E quem poderia dizer a Deus "Assenta-te à minha direita", exceto alguém que também seja plenamente Deus? Do ponto de vista do Novo Testamento, podemos parafrasear assim esse versículo: "Deus Pai disse a Deus Filho:"Assenta-te à minha direita". Mas mesmo sem o ensinamento do Novo Testamento sobre a Trindade, parece claro que Davi estava ciente de um pluralidade de pessoas num só Deus. Jesus, é claro, compreendo a isso, mas quando pediu aos fariseus uma explicação dessa passagem, "E ninguém podia responder-lhe uma palavra; nem desde aquele dia ousou mais alguém interrogá-lo."(Mt 22.46). A menos que se disponham a admitir a pluralidade de pessoas num só Deus, os intérpretes judeus das Escrituras, mesmo hoje, não terão explicação mais satisfatória de Salmo 110.1 ( ou Gn 1.26, ou das outras passagens analisadas há pouco) do que aquela que circulava no tempo de Jesus.
Isaías 63.10 diz sobre o povo de Deus que "eles foram rebeldes e contestaram o seu Espírito Santo", dando a entender, aparentemente, tanto que o Espírito Santo é distinto do próprio Deus (é "seu Espírito Santo") quanto que esse Espírito Santo pode-se "contristar", entristecer-se, aventando assim capacidade emocionais características de uma pessoa distinta. (Is 61.1 também distingue "O Espírito do SENHOR Deus" do "SENHOR", ainda que não se atribuam qualidade pessoais ao Espírito Senhor nesse versículo.
Evidências semelhantes encontram-se em Malaquias, em que diz o Senhor: "Eis que eu envio o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim; e de repente virá ao seu templo o Senhor, a quem vós buscais; e o mensageiro da aliança, a quem vós desejais, eis que ele vem, diz o Senhor dos Exércitos. Mas quem suportará o dia da sua vinda? E quem subsistirá, quando ele aparecer? Porque ele será como o fogo do ourives e como o sabão dos lavandeiros." (Ml 3.1-2). Aqui, novamente, aquele que fala (o SENHOR dos Exércitos") distingue-se do "Senhor, a quem vós buscais", sugerindo duas pessoas separas, que podem ambas ser chamadas "Senhor".
Em Oséias 1.7, o Senhor fala da casa de Judá: E os salvarei pelo Senhor, seu Deus", novamente sugerindo que mais da uma pessoa pode ser chamada "Senhor" (heb. Yahweh) e "Deus" ( 'Elõhîm).
E em Isaías 18.16, aquele que fala (aparentemente o servo do Senhor) diz: "Agora, o Senhor Deus me enviou a mim e o seu Espírito". Aqui o Espírito do Senhor, como o servo do Senhor, foi "enviado" pelo Senhor Deus para uma missão particular. O paralelismo entre os dois objetos de enviar ("mim" e "o seu Espírito") é compatível com a interpretação de que são pessoas distintas: parece significar mais do que meramente "o Senhor enviou a mim e o seu poder". De fato, do ponto de vista do Novo Testamento (que reconhece Jesus, o Messias, como o verdadeiro Servo do Senhor predito nas profecias de Isaías), Isaías 18.16 carrega implicações trinitárias: "Agora, o Senhor Deus me enviou a mim e o seu Espírito", se dito por Jesus, o Filho de deus, menciona as três pessoas da Trindade.
Além do mais, diversas passagens do Antigo testamento sobre o "Anjo do Senhor" subentendem uma pluralidade de pessoas em Deus. A palavra traduzida "anjo" (heb. mal'ak) significa simplesmente "mensageiro". Se esse anjo do Senhor é um "mensageiro" do Senhor, ele pe então distinto do próprio Senhor. Porém, em algumas passagens o anjo do Senhor é chamado "Deus" ou "Senhor" (ver Gn 16.13; Êx 3.2-6; 23.20-22 [repare "nele está o meu nome" no v. 21]; Nm 22.35 com 38; Jz 2.1-2; 6.11 com 14). Em outros trechos no Antigo Testamento "o Anjo do Senhor" simplesmente se refere a um anjo criado, mas pelo menos nesses textos o anjo (ou "mensageiro") especial do Senhor parece ser uma pessoa distinta e plenamente divina.
Um dos textos mais polêmicos do Antigo Testamento que poderia revelar personalidades distintas para mais de uma pessoa está em Provérbios 8.22-31. Embora a parte anterior do capitulo possa ser compreendida como meramente uma personificação da "sabedoria", com vistas a um efeito literário, mostrando a sabedoria a chamar os simples e a convidá-los a aprender, é possível argumentar que os vv. 22-31 dizem coisas sobre a "sabedoria" que parecem ir além da mera personificação. Falando do tempo em que Deus criou a terra, diz a sabedoria: "... então, eu estava com ele e era arquiteto, dia após dia, eu era as suas delícias, folgando perante ele em todo o tempo; regozijando-me no seu mundo habitável e achando as minhas delícias com os filhos dos homens (Pv 8.30-31). Atuar como "arquiteto" junto de Deus na criação indica em si mesmo a idéia de uma pessoas distinta, e as frases seguintes talvez sejam ainda mais convincentes, pois apenas pessoas reais podem "dia após dia [ser] as suas delícias" e também se alegrar no mundo e se deleitar com os filhos dos homens.
Mas se decidimos que "sabedoria" aqui se refere de fato ao Filho de Deus antes de ele se tornar homem, há uma dificuldade. Os versículos de 22-25 parecem falar da criação dessa pessoa chamada "sabedoria":
O Senhor me possuiu no princípio de seus caminhos, desde então, e antes de suas obras. Desde a eternidade fui ungida, desde o princípio, antes do começo da terra. Quando ainda não havia abismos, fui gerada, quando ainda não havia fontes carregadas de águas. Antes que os montes se houvessem assentado, antes dos outeiros, eu fui gerada.
Porventura não indica isso que tal "sabedoria" foi criada?Na verdade, não. A palavra hebraica que geralmente significa "criar" (bãrã') não é usada no versículo 22; a palavra é qãnãh, que ocorre oitenta e quatro vezes no Antigo Testamento e quase sempre significa "obter, adquirir". A Almeida Revista e Atualizada é mais clara aqui: "O Senhor me possuía no início de sua obra" (Semelhante Á Versão King James; repare esse sentido da palavra em Gn 39.1; Ex 21.2; Pv 4.5, 7; 23.23; Ec 2.7; Is 1.3["possuidor"]. trata-se de um sentido legítimo e, se a sabedoria for compreendida como uma pessoa real, significaria apenas que Deus Pai começou a dirigir e a fazer uso da potente ação criadora de Deus Filho no momento do início da Criação: o Pai convocou o Filho a trabalhar com ele na obra da criação. A palavra "gerado" nos versículos 24 e 25 é um termo diferente, mas poderia carregar significado semelhante: o Pai começa a dirigir e a fazer uso da potente ação criadora do Filho na criação do universo.
2. A revelação mais completa da Trindade no Novo Testamento.
Quando começa o Novo Testamento, entramos na história da vinda do Filho de Deus à terra. Era de esperar que esse grande acontecimento se fizesse acompanhar de ensinamentos mais explícitos sobre a natureza trinitária de Deus, e de fato é isso que encontramos. Antes analisar a questão com pormenores, podemos simplesmente listar várias passagens em que as três pessoas da Trindade são mencionadas juntas.
Quando do batismo de Jesus, " ... e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba e vindo sobre ele. E eis que uma voz dos céus dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo" (Mt 3.16-17). Aqui, ao mesmo tempo, temos os três membros da Trindade realizando três ações distintas. Deus Pai fala de lá do céu; Deus Filho é batizado e depois ouve a voz de Deus Pai vinda do céu, e o Espírito Santo desse do céu para pousar sobre Jesus e dar-lhe poder para o seu ministério.
Ao final do seu ministério terreno, Jesus diz aos discípulos que eles devem ir e fazer "discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo" (Mt 28.19). Os próprios nomes "Pai" e "Filho", baseados na família e mais comum das instituições humanas, indicam com muita força a distinção das pessoas do Pai e do Filho. E se o "Espírito Santo" é inserido na mesma frase e no mesmo nível das outras duas pessoas. difícil é evitar a conclusão de que o Espírito Santo é também, tido como pessoa e de posição igual ao do Pai e do Filho.
Quando nos damos conta de que os autores do Novo Testamento geralmente usam o nome "Deus" (gr. theos) para se referir a Deus Pai e o nome "Senhor" (gr. Kyrios) para se referir a Deus Filho, fica claro que há outro termo trinitário em 1 Coríntios 12.4-6 "Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. E há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos."
Igualmente, o último versículo de 2 Coríntios é trinitário na sua expressão: "A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo seja com todos vós. Amém." (2 Co 13.13 ou 14). Verificamos também as três pessoas mencionadas separadamente em Efésios 4. 4-6:"Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação; Um só Senhor, uma só fé, um só batismo; Um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos e em todos vós."
As três pessoas da Trindade são mencionadas juntas na primeira frase de 1 Pedro: "Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo..." (1 Pe 1.2). E em Judas 20-21, lemos: "Mas vós, amados, edificando-vos a vós mesmos sobre a vossa santíssima fé, orando no Espírito Santo, Conservai-vos a vós mesmos no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna."
Todavia, a tradução (dentro de colchetes, significando que o texto em questão não tem apoio dos melhores manuscritos que a ARA dá de 1 Jo 5.7 não deve ser usada com esse fim. Lê-se: "Pois são três os que dão testemunho no céu: O Pai, a Palavra e o Espírito Santo; e esses três são um".
O problema dessa tradução é que ele se baseia num número muito pequeno de manuscritos gregos pouco confiáveis, sendo o mais antigo desses do século XIV d.C.. As melhores versões não incluem esse trecho, mas o omitem, como o faz a grande maioria dos manuscritos gregos de todas as traduções textuais de monta, inclusive vários manuscritos bastante confiáveis dos séculos IV e C d.C., e também citações dos pais da igreja, como Ireneu (m.c. 212 d.C.), Tertuliano (m. depois de 220d.C.) e o grande defensor da Trindade, Atanásio (m. 373 d.C.).
B. TRÊS DECLARAÇÕES QUE RESUMEM O ENSINO BÍLICO
Em certo sentido a doutrina da trindade é um mistério que jamais seremos capazes de entender plenamente. Podemos, todavia, compreender parte de sua verdade resumindo o ensinamento da Escrituras em três declarações:
1. Deus é três pessoas.
2. Cada pessoa é plenamente Deus.
3. Há só um Deus
A seção seguintes desenvolverá mais detalhadamente cada uma dessas declarações.
1. Deus é três pessoas.
O fato de ser Deus três pessoas significa que o Pai não é o Filho; são pessoas distintas. Significa também que o Pai não é o Espírito Santo, mas são pessoas distintas. E significa que o Filho não é o Espírito Santo. Essas distinções se mostram em várias das passagens citadas na seção anterior, bem como em muitas outras passagens do Novo Testamento.
Jo 1.1-2 nos diz: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus.". O fato de o "Verbo" (que se revela Cristo nos v. 9-18) estar "com" Deus prova que ele é distinto de Deus Pai. Em João17.24, Jesus fala a Deus Pai da "minha glória que me conferiste, porque me amaste antes da fundação do mundo", revelando assim distinção de pessoas, compartilhamento de glória e uma relação de amor entre o Pai e o Filho antes que o mundo fosse criado.
Lemos que Jesus continua agindo como nosso Sumo Sacerdote e Advogado perante Deus Pai: "Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não pequeis; e, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo." (1 Jo 2.1). Cristo é aquele que "pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles."(Hb 7.25). Porém, a fim de interceder por nós perante Deus Pai, é necessário que Cristo seja um pessoa distinta do Pai.
Além disso, o Pai não é o Espírito, tampouco o Filho é o Espírito Santo. Distinguem-se em vários versículos. Diz Jesus: "Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito" (Jo 14.26). O Espírito Santo também ora ou "intercede" por nós (Rm 8.27), indicando uma distinção entre o Espírito Santo e Deus Pai, a quem se faz a intercessão.
Finalmente, o fato de o Filho não ser o espírito Santo também está indicado em várias passagens trinitárias mencionadas anteriormente, como a Grande Comissão (Mt 28.19), e em passagens que indicam que Cristo voltou ao céu e então enviou o Espírito Santo à igreja. Disse Jesus: "Todavia digo-vos a verdade, que vos convém que eu vá; porque, se eu não for, o Consolador não virá a vós; mas, quando eu for, vo-lo enviarei." (Jo 16.7).
Alguns já questionaram se o espírito Santo é de fato uma pessoa distinta, e não simplesmente o "poder" ou a "força" de Deus em ação no mundo. Mas as evidências do Novo Testamento são bem claras e fortes. Primeiro há os diversos versículos mencionados acima, em que o Espírito Santo é revelado em coordenada relação com o Pai e o Filho ( Mt 28.19; 2 Co 12.4-6; 2 Co 13.13ou14; Ef 4.4-6; 1 Pe 1.2): como o Pai e o Filho são ambos pessoas, a expressão coordenada indica fortemente que o Espírito Santo também é uma pessoa. Depois há trechos em que o pronome masculino ele(gr. ekeinos) se refere ao Espírito Santo (Jp 14.26; 15.26; 16.13-14), o que não seria de esperar em face das regras da gramática grega, pois a palavra "espírito"(gr. pneuma) é neutra, não masculina, e a ela normalmente se alude com o pronome neutro ekeino. Além do mais, o nome consolador ou confortador (gr. parakeltos) é um termo comumente usado para falar de uma pessoa que ajuda ou dá consolo ou conselho a outra pessoa ou pessoas, mas se refere ao Espírito Santo no evangelho de João (Jo 14.16, 26; 15.23; 16.7).
Outras atividades pessoais são atribuídas ao Espírito Santo, como ensinar (Jo 14.26), dar testemunho (Jo 15.26; Rm 8.16), interceder ou orar em nome de outros (Rm 8.26-27), sondar as profundezas de Deus (1 Co 2.10), conhecer os pensamentos de Deus (2 Co 2.11), decidir conceder dons para alguns, e outros para outros (1 Co 12.11), proibir ou não permitir determinadas atividades (At 16.6-7), falar (At 8.29; 13.2; e muitas vezes no Antigo como no Novo Testamento), avaliar e aprovar um proceder sábio (At15.28) e se entristecer diante do pecado dos cristãos (Ef 4.30).
Por fim, se o Espírito Santo é interpretado meramente como o poder de Deus, e não como pessoa distinta, então várias passagens simplesmente não fariam sentido, pois nelas se mencionam tanto o Espírito Santo quanto o seu poder, ou o poder de Deus. Por exemplo, Lucas 4.14 ("Então, Jesus, no poder, regressou para Galiléia") significaria então "Jesus, no poder do poder, regressou para a Galiléia". E atos 10.38 ("Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder") significaria "Deus ungiu a Jesus com o poder de Deus e com poder" (ver também Rm 15.13; 1 Co 2.4).
Embora tantas passagens distingam claramente o Espírito Santo dos outros membros da Trindade, 2 Coríntios 3.17 se revela um versículo desconcertante: "Ora, o Senhor é Espírito; e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade.". Os interpretes muitas vezes supõem que "Senhor" aqui só pode ser Cristo, pois Paulo usa freqüentemente "Senhor" para referir a Cristo. Mas provavelmente não é esse o caso aqui, pois a gramática e o contexto nos fornecem bons argumentos para dizer que esse versículo tem melhor tradução com o Espírito Santo o sujeito: "Ora, o Espírito é o Senhor ...". Nesse caso, Paulo estaria dizendo que o Espírito Santo é também "Jave" (ou "Jeová), o Senhor do Antigo Testamento (repare o claro pano de fundo do Antigo Testamento que se revela nesse contexto, a partir do v. 7). Teologicamente, isso seria aceitável, pois sem dúvida se pode dizer qua assem como Deus Pai é "Senhor" e Deus Filho é "Senhor" (no pleno sentido de "Senhor" no Antigo Testamento como nome de Deus), também o Espírito Santo é chamado "Senhor" no Antigo Testamento - e é o Espírito Santo que nos manifesta especialmente a presença do Senhor na era da nova aliança.
2. Cada pessoa é plenamente Deus.
Além do fato de serem as três pessoas distintas as Escrituras dão farto testemunho de cada pessoa é plenamente Deus.
Primeiro, Deus Pai é claramente Deus. Isso se evidencia desde o primeiro versículo da Bíblia no qual Deus cria o céu e a terra. É evidente em todo o Antigo e Novo Testamento, no quais Deus Pai é retratado nitidamente como Senhor soberano de tudo e onde Jesus orar ao seu Pai celeste.
Também, o Filho é plenamente Deus. Embora esse ponto seja desenvolvido com mais por menores no capítulo 26 [da Teologia Sistemática deste autor, donde tiramos este estudo] ("A Pessoa de Cristo"), podemos aqui mencionar de passagem vários trechos explícitos. João 1.1-4 afirma claramente a plena divindade de Cristo:
No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens.
Aqui, Cristo é o "Verbo", e João diz que ele estava "com Deus" e também que ele "era Deus". O texto grego repete as palavras iniciais de Gênesis 1.1 ("No princípio...") e nos lembra de que João está falando de algo que já era verdade antes que o mundo fosse criado. Deus Filho sempre foi plenamente Deus.
A tradução "o Verbo era Deus" foi contestada pelas testemunhas-de-jeová, que vertem "o Verbo era um deus", implicando que o Verbo era simplesmente um ser celestial, mas não plenamente divino. Eles justificam essa tradução salientando que o artigo definido (gr. ho, "o") não aparece antes da palavra grega theos ("Deus). Dizendo que theos deve ser traduzido como "um deus". Porém, tal interpretação nunca foi acatada por nenhum estudioso grego de lugar algum, pois é sabido que a frase segue uma regra normal da gramática grega, e ausência do artigo definido indica meramente que "Deus" é o predicado, e não o sujeito da frase. (Uma publicação recente das testemunhas-de-jeová reconhece hoje essa relevante gramatical, mas assim mesmo persiste na sua posição a respeito de João 1.1).
A incoerência da posição das testemunhas-de-jeová pode ser vista na tradução que dão ao restante do capítulo. Por diversas outras razões gramaticais, a palavra theos também dispensa o artigo definido em outros pontos do capítulo, como no versículo 6 (Houve um homem enviado por Deus"), no versículo 12 ("poder de serem feitos filhos de Deus"), no versículo 13 ("mas de Deus") e no versículo 18 ("Ninguém jamais viu a Deus"). Se as testemunhas-de-jeová fossem coerentes no seu argumento sobre a ausências do artigo definido, teriam de traduzir todos esses versículos com a expressão "um deus",mas usaram "Deus" em todos eles.
João 20.28, no seu contexto, também é uma sólida prova em favor da divindade de Cristo. Tomé duvidava do relatos dos outros discípulos, de que haviam visto Jesus ressuscitado, e disse que não acreditaria se não visse as marcas dos cravos nas mãos de Jesus e não lhe tocasse com a mão na ferida do lado (jo 20.25). Então Jesus apareceu novamente aos discípulos, estando agora Tomé com eles. Disse a Tomé: "Põe aqui o dedo e vê as minhas mãos; chega também a mão e põe no me lado; não seja incrédulo, mas crente"" (Jo 20.28). Aqui Tomé chama Jesus de "Deus meu". A narrativa mostra que tanto João no modo com escreveu o seu evangelho quanto o próprio Jesus aprovam o que Tomé disse e incentivam todos os que ouvirem falar de Tomé a crer nas mesmas coisas em que Tomé creu. Jesus imediatamente disse a Tomé: "Porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram" (Jo 20.29). Quanto a João, esse é o momento dramático mais forte do evangelho, pois ele logo a seguir diz ao leitor - já no versículo seguinte - que esta é a razão pela qual ele o escreveu:
"Jesus, pois, operou também em presença de seus discípulos muitos outros sinais, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome. "(Jo 20.30-31)
Jesus fala daqueles que, mesmo sem o ver crerão, e João logo diz ao leitor que ele registrou os acontecimentos no evangelho para que todos também creiam assim, imitando Tomé na sua confissão de fé. Em outras palavras, todo o evangelho foi escrito para convencer as pessoas a imitar Tomé, que sinceramente chamou Jesus de "Senhor meu e Deus meu". Como esse é o motivo exposto por João como propósito do seu evangelho, a afirmação se reveste de autoridade.
Outras passagens afirmam a plena divindade de Jesus, como Hebreus 1, onde diz que Cristo é a "expressão exata" (gr. charakter, "reprodução exata") da natureza ou ser (gr. hypostasis) de Deus - significando que Deus Filho reproduzia o ser ou a natureza de Deus Pai em todos os aspectos: todos os atributos ou poderes que Deus Pai tem, Deus Filho também os tem. O autor ainda se refere ao Filho como "Deus" no versículo 8 ("Mas acerca do Filho: O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre") e atribui a criação dos céus a Cristo ao dizer dele: "No princípio, Senhor, lançaste os fundamentos da terra, e os céus são obras das tuas mãos" (Hb 1.10; citando Sl 102.25). Tito 2.13 refere-se ao "nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus" e 2 Pedro 1.1 fala da "justiça de nosso Deus e Salvador Jesus Cristo". Romanos 9.5, falando do povo judeu, diz: "Deles são os patriarcas, e a partir deles se traça a linhagem humana de Cristo, que é Deus acima de tudo, bendito para sempre! Amém" (NVI).
No Antigo Testamento, Isaías 9.6 profetiza:
Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte ...
Aplicando a Cristo, essa profecia refere-se a ele como "Deus Forte". Observe aplicação semelhante dos títulos "Senhor" e "Deus" na profecias da vinda do Messias em Isaías 40.3: "Preparai o caminho do Senhor; endireitai no ermo vereda a nosso Deus", citada por João Batista na preparação para vinda de Cristo em Mateus 3.3.
Muitas outras passagens serão discutidas no capítulos 26, [da Teologia Sistemática deste autor], abaixo, mas essas já devem ser suficientes para demonstrar que o Novo Testamento claramente se refere a Cristo como Deus pleno. Como diz Paulo em Colossenses 2.9, "Porquanto, nele, habita, corporalmente, toda a plenitude da Divindade."
Além disso, O Espírito Santo é também plenamente Deus. Uma vez que entendemos que Deus Pai e Deus Filho são plenamente Deus, então as expressões trinitárias em versículos com Mateus 28.19 ("batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo") se revestem de relevância para a doutrina do Espírito Santo, pois mostram que o Espírito Santo está classificado no mesmo nível do Pai e do Filho. Isso se verifica quando percebemos quão impensável seria que Jesus dissesse algo como "batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do arcanjo Miguel", dando a um ser criado uma posição totalmente descabida, mesmo para um arcanjo. Os crentes de todas as épocas sempre foram batizados em nome (assumindo, portanto, o caráter) do próprio Deus. (Note também as outras passagens trinitárias mencionadas acima: 1 Co 12.4-6; 2 Co 13.14; Ef 4.4-6; 1 Pe 1.2; Jd 20-21.)
Em atos 5.3-4, Pedro pergunta a Ananias: "Por que encheu Satanás teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo [...]? Não mentiste aos homens, mas a Deus". Segundo as palavras de Pedro, mentir ao Espírito Santo é mentir a Deus. Paulo diz em 1 Coríntios 3.16: "Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?" O templo de Deus é o local onde o próprio Deus habita, o que Paulo explica pelo fato de que o "Espírito de Deus" ali habita, aparentemente igualando o Espírito de Deus ao próprio Deus.
Davi pergunta em Salmos 139.7-8: "Para onde me irei do teu Espírito, ou para onde fugirei da tua presença? Se subir ao céu, tu aí estás; se fizer no Seol a minha cama, eis que tu ali estás também." Essa passagem atribui a características divina da onipresença ao Espírito Santo, algo que não se aplica a nenhuma das criaturas de Deus. Parece que Davi faz equivaler o Espírito de Deus à presença de Deus. Ausentar-se do Espírito de Deus é ausentar-se da sua presença, mas se não há lugar para onde Davi pode fugir do Espírito de Deus, então ele sabe que aonde quer que vá terá de dizer: "Tu estás aí".
Paulo atribui a característica divina da onisciência ao Espírito Santo em 1 Coríntios 2.10-11: "Porque Deus no-las revelou pelo seu Espírito; pois o Espírito esquadrinha todas as coisas, mesmos as profundezas de Deus. Pois, qual dos homens entende as coisas do homem, senão o espírito do homem que nele está? assim também as coisas de Deus [ou os pensamentos de Deus], ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus.".
Além disso, o ato de dar novo nascimento a todo aquele que nasce de novo é obra do Espírito Santo. Disse Jesus:"... quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito. Não te admires de eu te dizer: importa-vos nascer de novo" (Jo 3.5-7). Mas o ato de dar nova vida espiritual às pessoas quando se tornam cristãs é algo que só Deus pode fazer (cf. 1 Jo 3.9, "nascido de Deus"). Essa passagem portanto dá nova indicação de que o Espírito Santo é plenamente Deus.
Até aqui temos duas conclusões, ambas fartamente ensinadas em toda a Bíblia:
1. Deus é três pessoas.2. Cada pessoa é plenamente Deus.
Se a Bíblia ensinasse somente esses dois fatos, não haveria nenhuma dificuldade lógica em emparelhá-los, pois a solução óbvia seria que existem três Deuses. O Pai é plenamente Deus, o Filho é plenamente Deus e o Espírito santo é também plenamente Deus.Teríamos um sistema com três seres igualmente divinos. Tal crença se chamaria politeísmo - ou, mais especificamente, "triteísmo", ou crença em três Deuses. Mas isso passa bem longe do que ensina a Bíblia.
3. Só há um Deus.
As Escrituras deixam bem claro que só existe um único Deus. As três diferentes pessoas da Trindade são um não apenas em propósito e em concordância no que pensam, mas um em essência, um na sua natureza essencial. Em outras palavras, Deus é um só ser. Não existem três Deuses. Só existe um Deus.
Uma das passagens mais conhecidas do Antigo Testamento é Deuteronômio 6.4-5: "Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças."
Ó Senhor, quem é como tu entre os deuses? Quem é como tu glorificado em santidade, admirável em louvores, realizando maravilhas? (Ex 15.11),
a resposta obviamente é: "ninguém. Deus é único, e não há ninguém como ele nem pode haver ninguém como ele. De fato, Salomão ora "para que todos os povos da terra saibam que o Senhor é Deus, e que não há outro." (1 Rs 8.60).
Quando Deus fala, repetidamente deixa claro que ele é o único Deus verdadeiro; a idéia de que existem três Deuses a adorar, e não um só, seria impensável diante de declarações tão veementes. Só Deus é o únicos Deus verdadeiro, e não há nenhum outro como ele. Quando ele fala, só ele fala - não fala como um Deus dentre três que devem ser adorados. Mas diz:
Eu sou o Senhor, e não há outro; fora de mim não há Deus; eu te cingirei, ainda que tu não me conheças; Para que se saiba desde o nascente do sol, e desde o poente, que fora de mim não há outro; eu sou o Senhor, e não há outro. (Is 45.5-6).
Do mesmo modo, ele convoca toda a terra a olhar para ele:
Não há outro Deus, senão eu,Deus justo e Salvadornão há além de mim.
Olhai para mim e sede salvos,vós, todos os limites da terra;porque eu sou Deus, e não há outro (Is 45.21-22; cf. 44.6-8).
O Novo Testamento também afirma que só há um Deus. Escreva Paulo: "Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem." (1 Tm 2.5). Paulo afirma que "Deus é um só" (Rm 3.30) e que "há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem existimos" (1 Co 8.6). Por fim, Tiago admite que até os demônios reconhecem que só há um Deus, ainda que essa aceitação intelectual do fato não seja suficiente para salvá-los: "Tu crês que há um só Deus; fazes bem. Também os demônios o crêem, e estremecem." (Tg 2.19). Mas nitidamente Tiago afirma que "faz bem" quem crê que "Deus é um só".
4. As soluções simplistas necessariamente neguam um dos ensinamentos bíblicos.
Agora temos três proposições, todas elas ensinadas nas Escrituras.
1. Deus é três pessoas.
2. Cada pessoa é plenamente Deus.
3. Só há um Deus.
Ao longo de toda a história da igreja houve tentativas de encontrar uma solução simples para doutrina da Trindade pela negação de uma ou outra dessa proposições. Caso se negue a primeira proposição [1. Deus é três pessoas.], então resta-nos simplesmente o fato de que cada uma das pessoas mencionadas nas Escrituras (Pai, Filho e Espírito Santo) é Deus, e há um só Deus. Mas se não precisamos dizer que são pessoas distintas, então há uma solução fácil: não passam de nomes diferentes para uma pessoa que age de modos diversos em situações distintas. Às vezes essa pessoa se chama Pai, às vezes se chama Filho, às vezes se chama Espírito. Não temos dificuldade para compreender isso, pois sabemos por experiência própria que a mesma pessoa pode agir em dada situação como advogado (por exemplo), noutra como pai dos seus filhos e noutra como filho diante dos seus pais; a mesma pessoa é advogado, pai e filho. Mas tal solução negaria o fato de que as três pessoas sejam indivíduos distintos, de que Deus Pai envia Deus Filho ao mundo, de que o Filho ora ao Pai e de que o Espírito santo intercede junto ao Pai por nós.
Outra solução simples surge pela negação da segunda proposição [2. Cada pessoa é plenamente Deus.], ou seja, negar que algumas das pessoas mencionadas nas Escrituras são de fato plenamente Deus. Se simplesmente sustentamos que Deus é três pessoas e que só há um Deus, então podemos ser tentados a dizer que algumas dessas "pessoas" desse Deus único não são plenamente Deus, mas apenas partes subordinadas ou criadas de Deus. Essa solução seria adorada, por exemplo, por aqueles que negam a plena divindade do Filho (e do Espírito Santo). Mas, como vimos acima, essa solução teria de negar toda uma classe de ensinamentos bíblicos.
Por fim, como já observamos acima, uma solução simples poderia vir pela negação da existência de um só Deus. Mas isso resultaria na crença em três Deus, algo claramente contrário às Escrituras.
Embora o terceiro erro não seja comum, como veremos abaixo, cada um dos dois primeiros erros já apareceu num momento ou noutro da história da igreja, e ainda persiste hoje dentro de alguns grupos.
5. Todas as analogias têm falhas.
Se não podemos adotar nenhuma dessas soluções simplistas, então como juntar as três verdade bíblicas para assim sustentar a doutrina da Trindade? As pessoas já usaram várias analogias retiradas da natureza ou da experiência humana para tentar explicar essa doutrina. Embora tais analogia sejam úteis num nível elementar de compreensão, todas elas se revelam inadequadas ou ilusórias numa reflexão mais aprofundada. Dizer, por exemplo,que Deus é como um trevo de três folhas, que mesmo tendo três partes é apenas um trevo, não é satisfatório, pois cada folha apenas faz parte do trevo, e não se pode dizer que nenhuma das folhas é todo o trevo. Mas na Trindade, cada uma das pessoas não é apenas uma parte separada de Deus, mas plenamente Deus. Além disso, a folha de um trevo é impessoal e não tem portanto personalidade distinta e complexa como cada pessoa da Trindade.
Outros já usaram a analogia das três partes de uma árvore: raiz, tronco e ramos constituem uma só arvore. Mas surge um problema semelhante, pois trata-se somente de partes de uma árvore, e não se pode dizer que nenhuma dessas partes é a árvore inteira. Além do mais, nessa analogia as partes têm propriedade distintas, diferentemente das pessoas da Trindade, que possuem todos os atributos de Deus em igual medida. E a ausência de personalidade em cada uma das partes é outra deficiência.
A analogia das três formas de água (vapor, água e gelo) é também inadequada, porque: (a) nenhuma quantidade de água jamais é ao mesmo tempo todas as três formas, (b) as três formas têm propriedades ou características diferentes, (c) a analogia nada tem que corresponda ao fato de existir somente um Deus (mas existe algo como "uma só água" ou "toda a água do universo") e (d) falta o elemento da personalidade inteligente.
Outras analogias foram derivadas da experiência humana. Poder-se-ia dizer que a Trindade é como um homem que é ao mesmo tempo fazendeiro, prefeito da sua cidade e presbítero da sua igreja. Ele desempenha papéis diferentes em momentos distintos, mas é um só homem. Porém, essa analogia é bastante falha, pois só uma pessoa executa essas três atividades em momento diferentes, e o modalismo não contempla a relação pessoal entre os membros da Trindade. (Na verdade, essa analogia simples ensina a heresia chamada modalismo, discutida abaixo.)
Outras analogia retirada da vida humana é a união entre intelecto, emoções e vontade numa pessoa. Embora sejam componentes de uma personalidade, nenhum desses fatores constitui a pessoa inteira. E as partes não são de características idênticas, mas têm capacidades distintas.
Então que analogia usaremos para explicar a Trindade? Embora a Bíblia use muitas analogias derivadas da natureza e da vida para nos ensinar aspectos diversos do caráter de Deus (Deus é como uma rocha na sua fidelidade, como um pastor no seu cuidado, etc.), é interessante notar que nenhum trecho das Escrituras se acha alguma analogia que explique a doutrina da Trindade. O mais próximo que chegamos de uma analogia se encontra nos próprios títulos "Pai" e "Filho", títulos que nitidamente dizem respeito a pessoas distintas e à íntima relação que existe entre os dois numa família. Mas no plano humano, logicamente, temos dois seres totalmente distintos, nenhum deles formado de três pessoas distintas. É melhor concluir que nenhuma analogia explica adequadamente a Trindase, que todas são ilusórias em aspectos importantes.
6
. Deus existe eterna e necessariamente como Trindade.
Quando o universo foi criado, Deus Pai proferiu as potentes palavras criadoras que o gerarem; Deus Filho foi o agente divino que executou essas palavras (Jo 1.3; 1 Co 8.6; Cl 1.16; Hb 1.2) e o Espírito de Deus "pairava por sobre as águas" (Gn 1.2). Então é como seria de esperar: se os três membros da Trindade são iguais e plenamente divinos, então todos eles existiram desde a eternidade, e Deus sempre existiu eternamente como Trindade (cf. também Jo 17.5,24). Além disso, Deus não pode ser diferente do que é, pois é imutável. Portanto, parece correto concluir que Deus existe necessariamente como Trindade - não pode ser diferente do que é.

Autor: Wayne GrudemFonte: Capítulo 14 da Teologia do autor

Leia Mais...

O desenvolvimento Histórico da doutrina da Trindade

O desenvolvimento Histórico da doutrina da Trindade
Introdução
A doutrina da Trindade é essencial ao Cristianismo bíblico, ela descreve o relacionamento existente entre os três membros da Divindade de um modo consistente com a Escritura.
É fundamental nessa doutrina a questão de como Deus pode ser do mesmo tempo um e três. Os primeiros cristãos não queriam perder o seu monoteísmo judaico enquanto exaltavam o seu Salvador. Surgiram heresias quanto às pessoas procuraram explicar o Deus cristão sem se tornarem triteístas (como os judeus rapidamente os acusaram de ser). Os cristãos argumentaram que o monoteísmo judaico do Antigo Testamento não excluía a Trindade.
O Clímax da formulação trinitária ocorreu no Concílio de Constantinopla, em 381 d. C.. Devemos a esse concílio a expressão do conceito ortodoxo da Trindade. Todavia, para apreciarmos o que disse o concílio é útil acompanharmos o desenvolvimento histórico da doutrina. Isso não significa que a igreja ou qualquer concílio tenha inventado a doutrina. Antes, foi para responder às heresias que a igreja explicou o que as Escrituras já pressupunha.
A Igreja a Pré-Nicena: 33-325 d.C.
Os Apóstolos, 33-100 d.C.
O ensino apostólico claramente aceitou a plena e real divindade de Deus, e aceitou e adotou a fórmula batismal trinitária.
Os Pais Apostólicos, 100-150 d. C.
Os escritos dos Pais Apostólicos eram caracterizados por uma paixão acerca de Cristo (Cristo provém de Deus; ele é pré-existente) e por ambigüidade teológica acerca da Trindade.
Os Apologistas e os Polemistas, 150 - 325 d. C.
As crescentes perseguições e heresias forçaram os escritores cristãos a declararem de maneira mais precisa e defenderem o ensino bíblico acerca do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Justino Mártir: Cristo é distinto do Pai em sua função.
Antenágoras: Cristo não teve principio.
Teófilo: O Espírito Santo é distinto do Logos.
Orígenes: O Espírito Santo é co-eterno com o Pai e o Filho.
Tertuliano: Falou em "Trindade" e "pessoa" - Três em número, mas um em substância.
Concílio de Nicéia: 325 d.C.
Por causa da difusão da heresia ariana, que negava a divindade de Cristo, a unidade e até mesmo o futuro do Império Romano parecia incertos. Constantino, recentemente convertido, reuniu um concílio ecumênico em Nicéia para resolver a questão.
A Questão: Cristo era plenamente Deus, ou era um ser criado e subordinado?
Ário
Somente Deus Pai é eterno.
O Filho teve um princípio como o primeiro e mais importante ser criado.
O Filho não é um em essência com o Pai.
Cristo é subordinado ao Pai.
Ele é chamado Deus como um título honorífico.
Atanásio
Cristo é co-eterno com o Pai.
Cristo não teve princípio.
O Filho e do Pai têm a mesma essência.
Cristo não é subordinado ao Pai.
Declarações Fundamentais do Credo do Concílio
[Nós cremos] “em um Senhor Jesus Cristo... verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, não feito, de uma só substância com o Pai”.“Mas aqueles que dizem que houve um tempo em que Ele não existe, e que antes de ser gerado Ele não era ... a este a Igreja Católica anatematiza.”“E cremos no Espírito Santo”.
Resultado do Concílio
O arianismo foi formalmente condenado.A declaração homoousia (mesma substância) criou conflitos.Os arianos reinterpretaram homoousia e acusaram o concílio de monarquianismo modalista.A doutrina do Espírito Santo ficou sem ser elaborada.
Concílio de Constantinopla: 381 d. C.
O arianismo não foi extinto em Nicéia; na realidade, ele cresceu em importância. Além disso, surgiu o macedonianismo, que subordinava o Espírito Santo essencialmente da mesma maneira que o arianismo havia subordinado Cristo.
A Questão: O Espírito Santo é plenamente Deus?
Declarações Fundamentais do Credo do Concílio
“... e no Espírito Santo, o Senhor e doador da vida, que procede do Pai, que é adorado e glorificado juntamente com o Pai e o Filho.”
Resultado do Concílio
O arianismo foi rejeitado e o Credo Niceno reafirmado.O macedonianismo foi condenado e a divindade do Espírito Santo afirmada.Foram resolvidos grandes conflitos acerca do trinitarianismo (embora os debates cristológicos tenham continuado até Calcedônia, em 451. d. C.)
Autor: H. Wayne HouseFonte: Teologia Cristã em Quadros, pd. 58,
Segue abaixo Credos.

Credo de Nicéia(325 a.d. - revisado em Constantinopla em 381 a.d.)
Cremos em um só Deus, Pai, Todo-Poderoso, Criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis.
E em um só Senhor Jesus Cristo, o unigênito Filho de Deus, gerado pelo Pai antes de todos os séculos, Luz da Luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado, não criado, de uma só substância com o Pai, pelo qual todas as coisas foram feitas; o qual, por nós homens e por nossa salvação, desceu dos céus, foi feito carne pelo Espírito Santo e da Virgem Maria, e tornou-se homem, e foi crucificado por nós sob Pôncio Pilatos, e padeceu e foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras, e subiu aos céus e assentou-se à direita do Pai, e de novo há de vir com glória para julgar os vivos e os mortos, e o seu reino não terá fim.
E no Espírito Santo, Senhor e Vivificador, que procede do Pai e do Filho, que com o Pai e o Filho conjuntamente é adorado e glorificado, que falou através dos profetas. E na Igreja una, santa, católica e apostólica. Confessamos um só batismo para remissão dos pecados. Esperamos a ressurreição dos mortos e a vida do século vindouro. Amém.
Credo de Calcedônia(451 a.d.)
Fiéis aos santos Pais, todos nós, perfeitamente unânimes, ensinamos que se deve confessar um só e mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito quanto à divindade, e perfeito quanto à humanidade; verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, constando de alma racional e de corpo, consubstancial com o Pai, segundo a divindade, e consubstancial a nós, segundo a humanidade; em tudo semelhante a nós, excetuando o pecado; gerado segundo a divindade pelo Pai antes de todos os séculos, e nestes últimos dias, segundo a humanidade, por nós e para nossa salvação, nascido da Virgem Maria, mãe de Deus; um e só mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, que se deve confessar, em duas naturezas, inconfundíveis, imutáveis, indivisíveis, inseparáveis; a distinção de naturezas de modo algum é anulada pela união, antes é preservada a propriedade de cada natureza, concorrendo para formar uma só pessoa e em uma subsistência; não separado nem dividido em duas pessoas, mas um só e o mesmo Filho, o Unigênito, Verbo de Deus, o Senhor Jesus Cristo, conforme os profetas desde o princípio acerca dele testemunharam, e o mesmo Senhor Jesus nos ensinou, e o Credo dos santos Pais nos transmitiu.

Leia Mais...

Provas Bíblicas da Doutrina da Trindade

Provas Bíblicas da Doutrina da Trindade
A doutrina da Trindade depende decisivamente da revelação. É verdade que a razão humana pode sugerir algumas idéias para consubstanciar a doutrina, e que os homens, fundados em bases puramente idéias para consubstanciar a doutrina, e que os homens, fundados em bases puramente filosóficas, por vezes abandonaram a idéia de uma unidade nua e crua em Deus, e apresentaram a idéia de movimento vivo e de auto-distinção. Também é verdade que a experiência cristã parece exigir algo parecido com esta construção da doutrina de Deus. Ao mesmo tempo, é uma doutrina que não teríamos conhecido, nem teríamos sido capazes de sustentar com algum grau de confiança, somente com base na experiência, e que foi trazida ao nosso conhecimento unicamente pela auto-revelação especial de Deus. Portanto, é da máxima importância reunir suas provas escriturísticas.

a. Provas do Velho Testamento.

Alguns dos primeiros pais da igreja, assim chamados, e mesmo alguns teólogos mais recentes, desconsiderando o caráter progressivo da revelação de Deus, opinaram que a doutrina da Trindade foi revelada completamente no Velho Testamento. Por outro lado, os socinianos e os arminianos eram de opinião que não há nada desta doutrina ali. Tanto aqueles como estes estavam enganados. O velho Testamento não contém plena revelação da existência trinitária de Deus, mas contém várias indicações dela. É exatamente isto que se poderia esperar. A Bíblia nunca trata da doutrina da Trindade como uma verdade abstrata, mas revela a subsistência trinitária, em suas várias relações, como uma realidade viva, em certa medida em conexão com as obras da criação e da providência, mas particularmente em relação. Sua revelação mais fundamental é revelação da com fatos, antes de com palavras. E esta revelação vai tendo clareza, na medida em que a obra redentora de Deus é revelada mais claramente, como na encarnação do Filho e no derramamento do Espírito. E quanto mais a gloriosa realidade da Trindade é exposta nos fatos da história, mais claras vão sendo as afirmações da doutrina. Deve-se a mais completa revelação da Trindade no Novo Testamento ao fato de que o Verbo se fez carne, e que o Espírito Santo fez da igreja Sua habitação.
Têm-se visto, por vezes, provas da Trindade na distinção entre Jeová e Elohim, e também no plural Elohim, mas a primeira não tem nenhum fundamento, e a última é, para dizer o mínimo, duvidosa, embora ainda defendida por Rottenberg, em sua obra sobre De Triniteit in Israels Godsbegrip[P; 19s.]. É muito mais plausível entender que as passagens em que Deus fala de Si mesmo no plural, Gn 1.26; 11.7, contêm uma indicação de distinções pessoais em Deus, conquanto não sugiram uma triplicidade, mas apenas uma pluralidade de pessoas. Indicações mais claras dessas distinções acham-se nas passagens que se refere ao Anjo de Jeová que, por um lado, é identificado com Jeová e, por outro, distingue-se dele. Ver Gn 16.7-13; 18.1-21; 19.1-28; Ml 3.1. E também nas passagens em que a Palavra e a Sabedoria de Deus são personificadas, Sl 33.4, 6; Pc 8.12-31. Em alguns casos mencionam-se mais de uma pessoa, Sl 33.6; 45.6,7 (comp. Hb 1.8,9), e noutros quem fala é Deus, que menciona o Messias e o Espírito, ou quem fala é o Messias, que menciona o Messias e o Espírito, ou quem fala é o Messias, que menciona Deus e o Espírito, Is 48.16; 61.1; 63.9,10. Assim, o Velho Testamento contém clara antecipação da revelação mais completa da Trindade no Novo Testamento.

b. Provas do Novo Testamento.

O Novo Testamento traz consigo uma revelação mais clara das distinções da Divindade. Se no Velho Testamento Jeová é apresentado como o Redentor e Salvador do Seu povo, Jó 19.25; Sl 19.14; 78.35; 106.21; Is 41.14; 43.3,11,14; 47.7,26; 60.16; Jr 14.3; 50.14; Os 13.3, no Novo Testamento o Filho de Deus distingue-se nessa capacidade, Mt 1.21; Lc 1.76-79; 2.17; Jo 4.42; At 5.3; Gl 3.13; 4.5; Fp 3.30; Tt 2.13, 14. E se no Velho Testamento é Jeová que habita em Israel e no corações do que O temem, Sl 74.2; 135.21; Is 8.18; 57.15; Ez 43.7-9; Jl 3.17, 21; Zc 2.10,11, no Novo Testamento é o Espírito Santo que habita na igreja, At 2.4; Rm 8.9,11; 1 Co 3.16; Gl 4.6; Ef 2.22; Tg 4.5. O Novo Testamento oferece clara revelação de Deus enviado Seu Filho ao mundo, Jo 3.16; Gl 4.4; Hb 1.6; 1 Jo 4.9; e do Pai e o Filho enviando o Espírito, Jo 14.26; 15.26; 16.7; Gl 4.6. Vemos o Pai dirigindo-se ao Filho, Mc 1.11; Lc 3.22, o Filho comunicando-se com o Pau, Mt 11.25,26; 26.39; Jo 11.41; 12.27,28, e o Espírito Santo orando a Deus nos corações dos crentes, Rm 8.26. Assim, as pessoas da Trindade, separadas, são expostas com clareza às nossas mentes. No batismo do Filho, o Pai fala, ouvindo-se do céu a Sua voz, e o Espírito Santo desce na forma de pomba, Mt 3.16,17. Na grande comissão Jesus menciona as três pessoas: "...batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo", Mt 28.19. Também são mencionadas juntamente em 1 Co 12. 4-6; 2 Co 13.13; e 1 Pe 1.2. A única passagem que fala de tri-unidade é 1.Jo 5.7, mas sua genuinidade é duvidosa, razão pela qual foi eliminada das mais recentes edições críticas do Novo Testamento.

Autor: Louis Berkhof Fonte: Teologia Sistemática do autor

Leia Mais...

Um e Três: Trindade


Um e Três: Trindade

Isaías 44:6: “Assim diz o SENHOR, Rei de Israel, seu Redentor, o SENHOR dos Exércitos: Eu sou o primeiro e eu sou o último, e além de mim não há Deus”.

O Antigo Testamento insiste constantemente na afirmação de que há somente um Deus, o Criador que se revela a si mesmo, que deve ser cultuado e louvado com exclusividade (Dt 6.4-5; Is 44.6–45.25). O Novo Testamento concorda (Mc 12.29-30; 1Co 8.4; Ef 4.6; 1Tm 2.5), mas fala de três agentes pessoais, Pai, Filho e Espírito Santo, que operam juntos para realizar a salvação (Rm 8; Ef 1.3-14; 2Ts 2.13-14; 1Pe 1.2). A formulação histórica da Trindade (do latim trinitas , que significa “estado de ser três”) não é uma tentativa de explicá-la, propósito que estaria além da nossa capacidade. Apenas oferece limite e salvaguarda aos nossos pensamentos a respeito desse mistério, que nos confronta, talvez, com o mais difícil pensamento que a mente humana pode elaborar. Não é fácil de entender, mas é verdadeiro.

A doutrina surge dos fatos históricos da redenção registrados e explicados no Novo Testamento, Jesus orou a seu Pai e ensinou a seus discípulos a fazerem o mesmo. Contudo, Jesus os convenceu de que era pessoalmente divino. Crer na sua divindade e no seu direito de receber culto e orações é básico para a fé no Novo Testamento (Jo 20.28-31; conforme 1.1-18; At 7.59; Rm 9.5; 10.9-13; 2Co 12.7-9; Fp 2.5-6; Cl 1.15-17; 2.9; Hb 1.1-12; 1Pe 3.15). Jesus prometeu enviar outro “Consolador” ou “Parácleto” (do grego; ver nota no texto de Jo 14.16, [abaixo]), para continuar sua obra como primeiro Ajudador (Jo 14.16-17). Um “Parácleto” é um advogado, ajudador, aliado e sustentador (Jo 14.26; 15.26-27; 16.7-15). O Ajudador prometido é o Espírito Santo, que desceu no pentecostes para cumprir o seu Ministério. Desde o início, ele foi reconhecido como a terceira Pessoa divina; mentir a ele – disse Pedro não muito depois do Pentecoste – é mentir a Deus (At 5.3-4).

Cristo prescreveu o batismo “em nome (singular: um Deus, um nome) do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” – três Pessoas que são um único Deus a quem os cristãos se dedicam (Mt 28.19). Do mesmo modo, encontramos as três Pessoas no relato do próprio batismo de Jesus; o Pai reconheceu o Filho, e o Espírito mostrou sua presença na vida e ministério do Filho (Mc 1.9-11). A bênção de 2Co 13.14 é trinitariana, como o é a oração por graça e paz do Pai, do Espírito, e de Jesus Cristo, em Ap 1.4-5. João inclui o Espírito entre o Pai e o Filho só porque ele ensina que o Espírito é divino no mesmo sentido em que o Pai e o Filho o são. Estes são alguns dos mais notáveis exemplos do ensino trinitariano no Novo Testamento. Embora a linguagem técnica da teologia posterior não se encontre no Novo Testamento, a fé e o pensamento trinitarianos estão presentes em todas as suas páginas. Nesse sentido, a Trindade, é uma doutrina bíblica.
Basicamente, a doutrina é que a unidade do Deus único é complexa. As três “substâncias” pessoais, como são chamadas, são centros coiguais e coeternos de autoconsciência, sendo cada um um “Eu” em relação aos outros dois, que são “Vós”, cada um possuindo a plena essência divina de Deus, a existência específica que pertence só a Deus. Deus não é uma só pessoa que desempenha três papéis separados; este é o erro denominado “modalismo”; nem são três deuses que apenas parecem ser um por atuarem sempre juntos. Isso é “triteísmo”. O teólogo B. B. Warfield coloca o problema de modo simples: “Quando dizemos estas três coisas – que não há senão um só Deus que o Pai, o Filho e o Espírito, cada um é Deus; que o Pai, o Filho e o Espírito, cada um é uma pessoa distinta – então enunciamos a doutrina da Trindade em sua inteireza”. Isso sumariza o que foi revelado através das palavras e obras de Jesus e é a realidade que subjaz à salvação do Novo Testamento.

Praticamente falando, a doutrina da Trindade exige que demos honra ao igual a cada uma das três Pessoas na unidade do Deus único. Além do mais, conhecer essa doutrina estabelece fé pessoal e enriquece não menos o forte senso de unidade com outros cristãos.

Fonte: Bíblia de Estudo de Genebra

Leia Mais...

A Trindade

A Trindade
Deus é uma trindade de pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. O Pai não é a mesma pessoa que o Filho; o Filho não é a mesma pessoa que o Espírito Santo e o Espírito Santo não é a mesma pessoa que o Pai. Eles são pessoas distintas; ainda assim, são todos o mesmo único Deus. Eles estão em perfeita harmonia consistindo de uma única substância. Eles são co-eternos, co-iguais e co-poderosos. Se qualquer deles fosse retirado, então não haveria Deus. Existe, aparentemente, uma separação de algumas funções entre os membros da divindade. Por exemplo: o Pai escolhe quem será salvo (Ef 1:4); o Filho os redime (Ef 1:7); e o Espírito Santo os sela (Ef 1:13). Um ponto que é necessário esclarecer é que Deus não é uma pessoa, o Pai, com Jesus sendo uma criação e o Espírito Santo uma força de Deus (Testemunhas de Jeová). Nem é uma pessoa que adquiriu três formas consecutivas, isto é, o Pai tornou-se o Filho que, depois, tornou-se o Espírito Santo (United Pentecostal). Nem é a Trindade uma associação de três deuses separados (Mormonismo).
O quadro a seguir ajudará você a ver como a doutrina da Trindade originou-se das Escrituras. A lista não é exaustiva, somente ilustrativa. O primeiro passo é estabelecer quantos deuses existem: UM! (Is 43:10; Is 44:6; Is 45:14,18,21,22; Is 46:5,9).
Eu sou o SENHOR e fora de mim não há Deus" (Is 45:5).
A Trindade


Chamado de Deus
Fp 1:2 PAI
Jo 1:1,14; Cl 2:9 FILHO
At 5:3-4 ESPÍRITO SANTO

Criador
Is 64:8; Is 44:24 PAI
Jo 1:3; Cl 1:15-17 FILHO
Jó 33:4; Jó 26:13 ESPÍRITO SANTO

Resurreto
1 Ts 1:10 PAI
Jo 2:19; Jo 10:17 FILHO
Rm 8:11 ESPÍRITO SANTO

Habita em nós
2 Co 6:16 PAI
Cl 1:27 FILHO
Jo 14:17 ESPÍRITO SANTO

Onipresente
1 Re 8:27 PAI
Mt 28:20 FILHO
Sl 139:7-10 ESPÍRITO SANTO

Onipotente
1 Jo 3:20 PAI
Jo 16:30 FILHO
1 Co 2:10-11 ESPÍRITO SANTO

Santifica
1 Ts 5:23 PAI
Hb 2:11 FILHO
1 Pe 1:2 ESPÍRITO SANTO

Dá vida
Gn 2:7 PAI
Jo 1:3; Jo 5:21 FILHO
2 Co 3:6,8 ESPÍRITO SANTO

Tem Comunhão
1 Jo 1:3 PAI
1 Co 1:9 FILHO
2 Co 13:14 ESPÍRITO SANTO

Eterno
Sl 90:2 PAI
Mq 5:1-2 FILHO
Rm 8:11 ESPÍRITO SANTO

Tem Vontade
Lc 22:42 PAI
Lc 22:42 FILHO
1 Co 12:11 ESPÍRITO SANTO

Fala
Mt 3:17 PAI
Lc 5:20; Lc 7:48 FILHO
At 8:29; At 11:12; At 13:2 ESPÍRITO SANTO

Ama
Jo 3:16 PAI
Ef 5:25 FILHO
Rm 15:30 ESPÍRITO SANTO

Sonda os corações
Jr 17:10 PAI
Ap 2:23 FILHO
1 Co 2:10 ESPÍRITO SANTO

Nós lhe pertencemos
Jo 17:9 PAI
Jo 17:6 FILHO
. . . ESPÍRITO SANTO

Salvador
1 Tm 1:1; 1 Tm 2:3; 1 Tm 4:10 PAI
2 Tm 1:10; Tt 1:4; Tt 3:6 FILHO
. . . ESPÍRITO SANTO

Nós o servimos
Mt 4:10 PAI
Cl 3:24 FILHO
. . . ESPÍRITO SANTO

Devemos crer nEle
Jo 14:1 PAI
Jo 14:1 FILHO
. . . ESPÍRITO SANTO

Dá alegria
. . . PAI
Jo 15:11 FILHO
Rm 14:7 ESPÍRITO SANTO

Julga
Jo 8:50 PAI
Jo 5:21,30 FILHO
. . . ESPÍRITO SANTO
Autor : Desconhecido

Leia Mais...

Santidade

Santidade
Deus é a Luz
“Eu sou o SENHOR, vosso Deus; portanto, vós vos consagrareis e sereis santos, porque eu sou santo...” Levítico 11.44
Quando a Escritura chama “santo” a Deus, ou a pessoas individuais da Divindade (como ela freqüentemente faz: Lv 11.44,45; Js 24.19; 1 Sm 2.2; Sl 99.9; Is 1.4; 6.3; 41.14,16,20; 57.15; Ez 39.7; Am 4.2; Jo 17.11; At 5.3,4,32; Ap15.4), a palavra significa tudo a respeito de Deus que o coloca separado de nós e faz dele objeto de nossa reverência, adoração e temor. Ela cobre todos os aspectos de sua grandeza transcendente e perfeição moral, e, assim, é um atributo de todos os seus atributos, salientando a “Divindade” de Deus em cada ponto. Cada faceta da natureza de Deus e cada aspecto de seu caráter pode apropriadamente ser chamado santo, precisamente porque Ele o é. A essência do conceito, porém, é a pureza de Deus, que não pode tolerar qualquer forma de pecado (Hc 1.13) e, por isso, impõe aos pecadores a constante auto-contrição em sua presença (Is 6.5).
Justiça, que significa fazer em todas as circunstâncias coisas que são corretas, é uma expressão da santidade de Deus. Deus manifesta sua justiça como legislador e juiz, e também como guardador da promessa e perdoador do pecado. Sua lei moral, que requer conduta que se equipare à sua própria, é “santa, justa e boa” (Rm 7.12). Ele julga justamente, de acordo com o mérito real (Gn 18.25; Sl 7.11; 96.13; At 17.31). Sua “ira”, isto é, sua ativa hostilidade judicial ao pecado, totalmente justa em suas manifestações (Rm 2.5-16), e seus “julgamentos” específicos (castigos eqüitativos) são gloriosos e dignos de louvor (Ap 16.5,7; 19.1-4).
Toda vez que Deus cumpre a promessa de sua aliança, agindo para salvar seu povo, pratica um gesto de “eqüidade”, isto é, justiça (Is 51.5,6; 56.1; 63.1; 1 Jo 1.9).
Quando justifica os pecadores pela fé em Cristo, Ele o faz com base na justiça aplicada, isto é, o castigo de nossos pecados na pessoa de Cristo, nosso substituto; portanto, a forma tomada por sua misericórdia justificadora mostra que Ele é absoluta e totalmente justo (Rm 3.25,26), e nossa própria justificação se revela judicialmente justificada.
Quando João diz que Deus é “luz”, não havendo nele treva alguma, a imagem está afirmando a santa pureza de Deus, o que torna impossível a comunhão entre Ele e o profano intencional, e requer a busca da santidade e retidão de vida como objetivo central do povo cristão (l Jo 1.5-2.1; 2 Co 6.14-7; Hb 12.10-17). A convocação dos crentes, regenerados e perdoados que são, a praticarem uma santidade que se equipare a própria santidade de Deus, e desta forma agradando a Ele, é constante no Novo Testamento, como certamente o foi no Velho Testamento (Dt 30.1-10; Ef 4.1-5.14; 1 Pe 1.13.22). Porque Deus é santo, o povo de Deus deve também ser santo.
Autor: J.I.Packer Fonte: Teologia Concisa

Leia Mais...

A Auto-existência de Deus

A Auto-existência de Deus
"Antes que os montes nascessem e se formassem a terra e o mundo, de eternidade a eternidade, tu és Deus." Salmo 90.2
As crianças, às vezes, perguntam: "Quem fez Deus ? " A resposta mais clara é que Deus nunca precisou ser feito, porque sempre existiu. Ele existe de um modo diferente do nosso: nós existimos de uma forma derivada, finita e frágil, mas nosso Criador existe como eterno, auto-sustentado e necessário. Sua existência é necessária no sentido de que não há possibilidade de ele cessar de existir.
A Auto-existência de Deus é uma verdade básica. Na apresentação que faz do "Deus Desconhecido" aos atenienses, Paulo explica que o Criador do mundo "nem é servido por mãos humanas, como se de alguma coisa precisasse; pois ele mesmo é quem a todos dá vida, respiração e tudo mais"(Atos 17.23-25).
O Criador tem vida em si mesmo e tira de si mesmo a energia infindável e de nada necessita. A independente auto-existência de Deus é uma verdade claramente afirmada na Bíblia(Ver Salmos 90. 1-4, 102.25-27; Isaías 40.28-31; João 5.26; Apocalipse 4.10).
Na teologia, muitos erros são resultados da suposição de que as condições e limites de nossa própria existência finita se aplicam a Deus. Na vida de fé, podemos também facilmente empobrecer-nos, se alimentarmos uma idéia limitada e pequena a respeito de Deus. A doutrina da auto-existência de Deus é um anteparo e defesa contra esses erros. O princípio de que só Deus existe por si mesmo o distingue de toda criatura e é o fundamento daquilo que pensamos a respeito dele.
Saber que a existência de Deus é independente protege a nossa compreensão a respeito da grandeza dele e, portanto, tem claro valor prático para a nossa saúde espiritual.

Fonte : Bíblia de Estudo de Genebra.

Leia Mais...

A existência Autônoma de Deus

A existência Autônoma de Deus
Deus é auto-existente, isto é, ele tem em Si mesmo a base da Sua existência. às vezes esta idéia é expressa dizendo-se que Ele é a causa sui (a Sua própria causa), mas não se pode considerar exata esta expressão, desde que Deus é o não causado, que existe pela necessidade do Seu próprio Ser e, portanto, necessariamente. O homem, por outro lado, não existe necessariamente, e tem a causa da sua existência fora dele próprio. A idéia da auto-existência de Deus era geralmente expressa pelo termo aseitas(asseidade), significando auto-originado, mas os teólogos reformados em geral o substituíram pela palavra independentia (independência), expressando com ela somente que é independente em Seu Ser, mas também que é independente em tudo mais: em Sua virtudes, decretos, obras, e assim por diante. Pode-se dizer que há um tênue vestígio desta perfeição na criatura, mas isto só pode significar que a criatura, conquanto absolutamente depende, tem sua existência própria e distinta. Mas, naturalmente, longe está de ser auto-existente.
Este atributo de Deus é reconhecido geralmente, e está implícito nas religiões pagãs e no Absoluto da filosofia. Quando se concebe o Absoluto como a base última e auto-existente de todas as coisas, que entra voluntariamente em várias relações com outros seres, pode ser identificado com o Deus da teologia. Como o Deus auto-existente, Ele não só é independente, como também faz tudo depender dele. Esta auto-existência de Deus acha expressão no nome Jeová. É somente como o Ser auto-existente e independente que Deus pode dar a certeza de que permanecerá eternamente o mesmo, com relação ao Seu povo.
Encontram-se indicações adicionais disso na afirmação presente em Jo 5.26, "Porque, como o Pai tem a vida em si mesmo, assim deu também ao Filho ter a vida em si mesmo;"; na declaração de que Ele é independente de todas as coisas e que todas as coisas só existem por meio dele, Sl 94.8s; Is 40.18S; At 7.25; e nas afirmações que implicam que Ele é independente em Seu pensamento, Rm 11.33,34, em Sua vontade, Dn 4.35; Rm 9.19; Ef 1.5; Ap 4.11; e em Seu conselho, Sl 33.11.

Autor: Louis Berkhof

Leia Mais...

A Soberania de Deus:

A Soberania de Deus:
Liberdade e Aspectos do Soberano Poder de Deus
O HOMEM TENDE A NUTRIR posições diferentes sobre o mesmo assunto, dependendo das circunstâncias. Pode, por exemplo, defender a supremacia da lei, até que a tenha quebrado, ou pode sustentar determinados princípios liberais ou conservadores, desde que a família não esteja em jogo etc. À tendência à subjetividade é maior que se imagina ou se estaria dispostos a admitir.

A doutrina da soberania de Deus é facilmente objeto de posicionamentos contraditórios.1 Abordar essa questão parece diminuir nossa autoconfiança e suposta autonomia. Gostamos de alardear nossa liberdade e capacidade de escolha e persuasão, crendo ser melhor deixar esse assunto engavetado. No entanto, quando nos vemos sem recursos e perspectivas favoráveis , sem saber o que fazer, podemos, sem talvez nos dar conta, contentar-nos com uma fé singela no cuidado de Deus, podendo então dizer: “Deus é soberano, ele sabe o que faz,” “Nada acontece por acaso .....” . Calvino captou bem isso: ”Mesmo os santos precisam sentir-se ameaçados por um total colapso das forças humanas, a fim de aprenderem, de suas próprias fraquezas, a depender inteira e unicamente de Deus”.2

Afinal, Deus é ou não soberano? Essa doutrina parece ser uma das mais repudiadas pelo homem natural, e, ao mesmo tempo, é a mais consoladora para os que crêem em Jesus.
Uma das grandes dificuldades dos homens em todos os tempos é deixar Deus ser Deus. Estamos dispostos a fabricar deuses para que possam cobrir as brechas de nossa compreensão, mas quando não, Deus é invocado para justificar crenças, expectativas e, ao mesmo tempo, a falta de fé.

No Antigo Testamento, os judeus insensíveis aos próprios pecados tomaram o aparente silêncio de Deus como aprovação tácita de seus erros; pensavam que o Senhor fosse igual a eles. No entanto, o todo poderoso exporia diante deles seus delitos: “Tens feito estas coisas, e eu me calei; pensavas que eu era teu igual; mas eu te argüirei e porei tudo à vista” (SI 50:20). Aliás, os homens estão dispostos a reconhecer espontaneamente diversas virtudes em Deus, como o amor, graça, perdão, provisão etc. Soberania, jamais.3

A. W. Pink (1886-1952) entende que “negar a soberania de Deus é entrar em um caminho que, seguindo até a sua conclusão lógica, leva a manifesto de ateísmo”.4 A dificuldade está em reconhecer a Deus como o Senhor que reina. A Bíblia, por sua vez, desafia-nos a aprender com ela a respeito de Deus. O nosso Deus, entre tantas perfeições, é soberano. Sem esse atributo, ele não seria Deus.5 No entanto, Jó demonstra a dificuldade dessa compreensão ao indagar: “Eis que isto são apenas as orlas dos seus caminhos! Que leve sussurro temos ouvido dele! Mas o trovão do seu poder, quem o entenderá? “ (Jó 26:14).

A Liberdade de Deus e do Seu Poder

Um dos aspectos fundamentais da soberania é a independência.
Quando nossa independência depende de algo alheio ao nosso controle, nossa suposta capacidade de decidir livremente está ameaçada ou sofre de limitações que podem ser bastante comprometedoras.

Na realidade, somente em Deus há a autonomia total e absoluta.
Spurgeon (1834-1892) enfatiza corretamente: “Deus é independente de tudo e de todos. Ele age de acordo com Sua própria vontade.
Quando Ele diz: ‘eu farei’, o que quer que diga será feito. Deus é soberano, e Sua vontade, não a vontade do homem, será feita”.6

Deus se apresenta nas escrituras como todo-poderoso (onipotente), com capacidade para fazer todas as coisas conforme sua vontade (SI 115:3; 135:6; Is 46:10; Dn 4:35; Ef 1:11).Entretanto, ele também se mostra coerente com as demais de suas perfeições, ou seja, exercita eu poder em harmonia com todas as perfeições de sua natureza (2Tm 2:13); sua vontade é eticamente determinada . A soberania de Deus se manifesta no fato de ele poder fazer tudo o que faz (poder absoluto). O poder absoluto de Deus envolve o poder ordenado. Ele exerce o poder no cumprimento do que decretou e nas obras da providência. Aliás, essas obras consistem a execução temporal dos decretos eternos de Deus. Contudo, o que ele realiza não serve de limites para seu poder. “Destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão”, adverte João Batista aos arrogantes descendentes da carne, mas não da fé de Abraão (Mt 3:9). Contudo, Deus não fez isso. Por quê? Simples: porque não determinou.

Ele tem total domínio sobre seu poder, estando este sob seu controle; caso contrário, Deus deixaria de ser livre. “Ele tem poder sobre seu poder”.7 Assim, o poder de Deus é essencialmente harmônico e compatível com todo seu ser. Por isso, a Bíblia declara que Deus não pode mentir (Nm 23:19; 1Sm 15:29; Tt 1:2; Hb 6:18); negar-se (2Tm 2:13); mudar (Tg 1:17); pecar (Tg 1:13).

Aspectos do Soberano Poder de Deus

O poder de Deus é soberanamente livre. Deus não tem compromisso com terceiros. A onipotência faz parte da sua essência; por isso, para ele, não há impossíveis; apesar de qualquer oposição ele executa seu plano; tudo o que deseja, pode realizar (Mt 19:26; Jó 23:13). No entanto, Deus não precisa exercitar seu poder para ser o que é.8
Liberdade de existência: poder de existência
Quando a Bíblia menciona o poder soberano de Deus, refere-se à sua própria natureza, e não a um estado determinado por fatores externos, tais como dinheiro, fama, prestígio etc. Ele é o próprio Poder. Por isso, manifesta-se poderosamente (SI 62:11). Ele é tão eterno quanto seu poder e sempre foi e sempre será o que é existindo eternamente por si próprio. A Bíblia não tenta explicar a existência de Deus; ela parte do fato consumado de que Deus existe, manifestando seu poder em atos criativos (Gn 1:1).
Liberdade de decisão: poder de determinação
Pelo fato de Deus ser todo poderoso, pode determinar livremente suas ações, o que de fato faz, manifestando tal poder nos seus decretos.9
Deus tem eternamente diante de si uma infinidade de possibilidades de “decisões” sobre todas as coisas; entretanto, ele “decidiu”10 fazer do modo como fez sem influencia de ninguém, porque não necessita de conselhos (Is 40:13-14; Rm 11:33-36). O plano de Deus é sempre o melhor, porque ele sabia e livremente o escolheu!
Liberdade de execução: poder executivo
Deus executa se plano através do seu poder, conforme sua vontade(Mt 8:2; Jr 32:17). Não podemos marcar hora e lugar para ele agir. Deus opera como e quando quer, dentro de suas deliberações. Ele age sempre conforme seu decreto, não dependendo de nenhum meio externo para realizá-lo, a menos que ele assim o determine. Ontologicamente Deus não precisa de nada fora de si mesmo. Ele se basta a si. O Senhor não precisa de meios para executar o que quer.
Contudo, por sua graça, Deus se agencia também através das causas externas para concretizar seu propósito. Por exemplo: ele poderia se quisesse salvar a todos os homens independentemente da Bíblia e da fé em Cristo; essa não é a sua forma ordinária de agir, porque sábia e livremente estabeleceu o critério de salvação, que é sempre pela graça, que opera mediante a fé através da palavra (Rm 10:17; Ef 2:8).
Deus sempre age de forma compatível com sua perfeita justiça. Jesus Cristo se encarnou a fim de que Deus pudesse ser justo e ao mesmo tempo o justificador dos que confiam nele para salvação (Rm 3:26). Ele se tornou justiça, santificação e redenção para os crentes (1Co 1:30). Sem a graça de Deus, amparada no sacrifício de Cristo, ninguém será salvo!
Deus tem poder para executar toda sua deliberação. Ele é o Todo poderoso (Gn 17:1), e nenhum dos seus planos podem ser frustrados (Jó 42:2). Ele determinando, quem o impedirá? A Bíblia é poderosa no cumprimento do que Deus se propôs, por que provém do onipotente (leia Is 14:24-27).
Liberdade de limitação: poder autolimitante
Algumas pessoas raciocinam erroneamente: “Se Deus é Soberano, livre e todo-poderoso, pode, conforme sua vontade, mudar ‘as regras do jogo’, modificando as leis, seus princípios de ação, seus critérios; enfim, alterar o que ele mesmo revelou e fez registrar na sua palavra”. É assim que age o “Soberano” de Thomas Hobbes (1588-1679): “... o soberano de uma república, seja ele uma assembléia ou um homem, não está absolutamente sujeito às leis civis. Pois tendo o poder de fazer ou desfazer as leis, pode, quando lhe apraz, livrar-se desta sujeição revogando as leis que o incomodam e fazendo novas”11 Apesar de não ser apreciável, esse raciocínio é freqüente.
Quem pensa dessa forma, em geral, tem em mente a ação do homem como modelo, tomando-o como parâmetro para uma comparação, como se o “homem fosse à medida de todas as coisas” (esse foi o mesmo equívoco de muitos gregos na antiguidade). A história tem demonstrado que o poder tende a corromper.
Diante disso, surgem algumas questões: Afinal, Deus poderia fazer tudo isso ou não? Ele estaria sujeito a corrupção resultante do mau uso do seu poder? Se esse poder pertencesse a um homem, deveríamos temer. Entretanto, com Deus é diferente. Os homens são tão fracos em sua condição de poderosos que não conseguem controlar seus ímpetos; por isso, agem por paixões as mais variadas, tais como: preconceito, vaidade, ódio, interesse etc. Deus, no entanto, é tão poderoso que estabelece limites para si mesmo! Por isso, quando afirmamos que Deus não mente, não se contradiz, não muda, não peca e não pode salvar fora de Jesus Cristo, não pretendemos estabelecer limites para Deus, mas reconhecer os próprios limites ou critérios que ele declarou a respeito de si em sua relação consigo e com o universo. Esses critérios são decorrentes das suas perfeições, pois se Deus é perfeitamente verdadeiro, justo, fiel, sábio, amoroso, bondoso e santo.
Deus é tão poderoso que trata conosco conforme as perfeições a fim de que pudéssemos confiar nele e proclamar suas virtudes (Mt 3:6; 1Pe 2:9-10). O poder de Deus está sob o controle de sua sábia e santa vontade: “Deus pode fazer tudo o que ele deseja, porém ele não deseja fazer tudo o que pode”12 (Ex 3:14; Nm 23:19; 1Sm 15:29; At 4:12; 2Tm 2:13; Hb 6:18; Tg 1:13,17). A. W. Pink declarou: “Deus é lei para si próprio, de modo que tudo quanto ele faz é justo.” 13
O poder absoluto de Deus não é incoerente com sua essência. A vontade de Deus é santa. Não há propósitos e atitudes contraditórios no Senhor. O soberano poder de Deus somente é limitado pelo absurdo ou pelo autocontraditório e por ações imorais. John M. Frame afirmou: “Deus é padrão para a moralidade humana, assim ele não pode ser menos que perfeito em sua santidade, bondade e retidão.” 14 Ele não pode realizar coisas auto-excludentes, como deixar de ser Deus ou ser diferente de si mesmo. Seu poder é executado em completa harmonia com sua perfeita dignidade; enfim. Com seu caráter sábio e santo. A perfeição da natureza de Deus permeia suas obras. Deste modo, suas promessas sempre serão cumpridas.15 Bavink resumiu bem esse ponto:
A vontade de Deus é idêntica à sua existência, sua sabedoria, sua bondade e a todos seus atributos. [...] Sua soberania é uma soberania de ilimitado poder, porém é também uma soberania de sabedoria e graça. Ele é Rei e Pai ao mesmo tempo.
Autor: Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

Leia Mais...

Amor e Ódio em Deus

Amor e Ódio em Deus
Romanos 9
INTRODUÇÃO

Uma coisa é considerar a profundidade e a riqueza do amor de Deus. Ele é tão amoroso em sua natureza que a Bíblia pode dizer que Deus é amor. Mas outra história, completamente diferente, é contemplar o ódio de Deus. O ódio, pelo menos no que toca ao ódio dirigido contra pessoas, parece uma completa antítese da natureza de Deus. Podemos ficar à vontade com o ditado segundo o qual Deus odeia o pecado, mas ama o pecador, mas consideramos completamente inimaginável que Deus possa odiar tanto o pecado quanto o pecador.
Em Romanos 9, Paulo fala não apenas sobre o amor de Deus por Jacó, mas também sobre o ódio que sentiu por Esaú: "Como está escrito: Amei Jacó, porém me aborreci de Esaú" (v. 13).

I. O AMOR INCONDICIONAL

Na verdade, virou moda nos meios evangélicos se falar facilmente sobre o amor incondicional de Deus. Certamente é uma mensagem agradável para as pessoas ouvirem e se adapta a certo estereótipo do que é politicamente correto. No nosso desejo de comunicar a candura do evangelho às pessoas, a presteza de Deus em cobrir nossos pecados com perdão e a incrível profundidade de seu amor exibido na cruz, favorecemos uma expressão exagerada do âmbito e da extensão de seu amor. Onde, nas Escrituras, encontramos essa noção do amor incondicional de Deus? Caso o amor de Deus seja incondicional, por que dizemos às pessoas que elas têm de se arrepender e ter fé para ser salvas? Deus estabelece condições claras para que uma pessoa seja salva. Agora, pode ser verdade, em algum sentido, que Deus ame até mesmo aqueles que não conseguem atender às condições da salvação, mas essa sutileza freqüentemente se perde junto ao ouvinte quando o pregador declara o amor incondicional de Deus.
O conceito bíblico de reconciliação pressupõe uma condição de estranhamento entre Deus e o homem. Em Cristo o obstáculo do estranhamento é superado e nos reconciliamos com Deus. Mas essa reconciliação se estende apenas aos crentes. Aqueles que rejeitam a Cristo permanecem inimigos de Deus, estranhos a Deus e objeto tanto de sua ira quanto de sua abominação. Não importa o tipo de amor que Deus tenha pelos impenitentes, não exclui sua justa raiva e abominação por aqueles que se opõem inflexivelmente a seu redentor.

II. O AMOR PRECEDENTE DE DEUS

A maneira como as Escrituras falam de uma presciência de Deus transmite certo amor prévio por seus eleitos. Isso está expresso na "cadeia de ouro" de Romanos 8: "Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou" (vs. 28-30).

Romanos 8.28 é um dos textos que mais conforto trazem em toda a Bíblia. Ele assegura ao crente que todas as tragédias são, em última análise, bênçãos. O versículo seguinte fala tanto da presciência quanto da predestinação de Deus. Esse texto é o preferido daqueles que defendem uma visão da predestinação com um conhecimento de antemão. A conclusão que se tira desse versículo é que a predestinação de Deus se baseia no fato de ele conhecer de antemão os eventos futuros. Há sérios problemas com essa visão. Logo mais adiante, Paulo ensina explicitamente que não depende de quem quer. Se a abordagem da presciência for correta, então a eleição depende exatamente de quem quer.

Quando examinamos a "cadeia de ouro" de Romanos 8, vemos que Paulo não só menciona a presciência e a predestinação, mas também o chamamento, a justificação e a glorificação. A ordem literária de Romanos 8 é presciência, predestinação, chamamento, justificação e então glorificação. A declaração no texto é elíptica e está tácito no texto que a letra "a" se refere a todos aqueles na classe mencionada. Desse modo o texto derruba completamente a visão da eleição presciente. Caso o texto queira ensinar a visão presciente da eleição, teria de dizer que alguns dos que Deus conhecia de antemão ele predestinava, e alguns dos que ele chama ele justifica, e alguns dos que ele justifica, ele glorifica. Se a hipótese de "todos" é substituída por "alguns", o resultado não só é confuso, mas todo nosso entendimento da salvação vai por água abaixo.
Quando discutimos a difícil doutrina da predestinação, precisamos ter em mente que nossa eleição é sempre uma eleição em Cristo e para Cristo. Lembre-se de que há uma qualificação bem no meio da "cadeia de ouro":
... aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos (Rm 8.29).
A predestinação é expressa aqui com o propósito de ser conforme à imagem de Cristo. Isso é o que acontece em última análise em nossa glorificação. Mas o propósito final é que Cristo seja o primogênito entre muitos irmãos. Isso nos leva de volta ao amor profundo do Pai por seu Filho, que nós somos adotados não só em Cristo, mas por Cristo. Nós somos os presentes que o Pai dá ao Filho.

III. O PRESENTE DO PAI PARA O FILHO

O motivo de os eleitos serem o presente para o Filho é expresso por Jesus em várias ocasiões, particularmente no Evangelho de João:
"a vontade de quem me enviou é esta: que nenhum eu perca de todos os que me deu; pelo contrário, eu o ressuscitarei no último dia. De fato, a vontade de meu Pai é que todo homem que vir o Filho e nele crer tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia" (6.39,40).
Nessa passagem, Jesus deixa claro que está preocupado com que todo crente seja ressuscitado no último dia. Suas afirmações caracterizam o que o Pai lhe dera que nunca seria perdido. São os crentes que são dados a Cristo pelo Pai e nenhum desses crentes será perdido. Essa, afirmação é baseada no que Jesus declarara momentos antes:
"eu já vos disse que, embora me tenhais visto, não credes. Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora. Porque eu desci do céu, não para fazer a minha própria vontade, e sim a vontade daquele que me enviou" (6.36-38).
Jesus é enfático em sua afirmação de que todos aqueles que o Pai lhe dera viriam, de fato, a ele. A ordem aqui é crucial. Jesus não diz que todos os que vierem a ele serão dados a ele pelo Pai. Não determinamos, com nossa resposta, quem será o presente do Pai ao Filho. Ao contrário, nossa resposta é determinada por Deus ter nos escolhido anteriormente para que viéssemos ao Filho como se fôssemos dados a ele.
O conceito de crentes serem dados pelo Pai ao Filho forma um elemento central da oração sacerdotal de Jesus em João 17. Jesus faz repetidas referências a essa "doação". Cristo fala da autoridade que recebeu do Pai para que concedesse vida eterna a algumas pessoas. Essas "algumas pessoas" são aquelas que o Pai lhe deu.
Nessa oração fica claro que os crentes são dados pelo Pai ao Filho, uma dádiva que não deve ser perdida ou destruída. Jesus pede que essas dádivas possam ser mantidas e não descartadas. Ele agradece ao Pai que todos tenham sido mantidos, exceto o filho da perdição, que é descrito em outro ponto como tendo sido um diabo desde o princípio. O filho da perdição a que se refere aqui é Judas.

Os eleitos são dados a Cristo como seus irmãos adotivos e filhos adotivos do Pai. Esse é o surpreendente amor que levaria João a dizer mais tarde: "Vede, que grande amor é esse?".

CONCLUSÃO

O evangelho deve ser anunciado com integridade. Isso significa anunciar o amor de Deus, mas também sua ira contra aqueles que se perdem. O amor de Deus não é incondicional. O conhecimento da predestinação como exposta na Palavra de Deus nos estimula a anunciar as virtudes daquele que nos "chamou das trevas para a sua maravilhosa luz" (1 Pe 2.9).

APLICAÇÃO

Como você vê a responsabilidade da evangelização estando consciente da doutrina da predestinação? Isso o motiva ou desanima? Por quê?

Autor. Marcelo Smeets (Adaptação do capítulo 6 do livro Amados de Deus, de R.C. Sproul)
Leitura Indicada


Rm 8.1 -30
Aos que predestinou

Jo 6.35-51
Que nenhum eu perca

Ef 1 .1- 14
Predestinados para ele

SI 65.1-13
Feliz aquele a quem escolhes

Is 46.1-1 3
Executarei o meu propósito

Mc 13.14-37
Por causa dos eleitos


Ap 17.1-14
Escritos no Livro da Vida


Leia Mais...

Transcendência - A Natureza de Deus é Espiritual

Transcendência - A Natureza de Deus é Espiritual

Assim diz o Senhor: O céu é o meu trono, e a terra o estrado dos meus pés; que casa me edificareis vós? E qual é o lugar do meu repouso? Is 66.1

“Deus é espírito”, disse Jesus à mulher samaritana junto ao poço (Jo 4.24). Embora plenamente pessoal, Deus não vive em um corpo e por meio dele, como nós, e, por isso, não está ancorado em uma moldura espaço-tempo. Deste fato, além do fato adicional de que Ele é auto-existente e não marcado, como nós somos, pela desintegração pessoal (falta de concentração e controle), que o pecado produziu em nós, várias coisas decorrem.
Primeiro, Deus não é limitado nem pelo espaço (Ele está continuamente em todo lugar em sua plenitude) nem pelo tempo (não há o “momento presente”, no qual Ele esteja contido, como nós estamos). Os teólogos se referem à liberdade limitativa de Deus como sua infinidade, sua imensidade e sua transcendência (1 Rs 8.27; Is 40.12-26; 66.1). Como Ele mantém todas as coisas existentes, assim tem Ele todas as coisas em todos os lugares sempre diante de sua mente, cada qual em sua própria relação com seu plano e propósito totalmente abrangente para todo item e toda pessoa em seu mundo (Dn 4.34,35; Ef 1.11).
Segundo, Deus é imutável. Isto significa que Ele é totalmente consistente: por ser necessariamente perfeito, Ele não pode mudar, seja para melhor ou para pior; e porque não está limitado no tempo, Ele não está sujeito a mudança, como as criaturas (2 Pe 3.8). Longe de estar afastado e imóvel, Ele está sempre ativo em seu mundo, constantemente fazendo novas coisas surgirem (Is 42.9; 2 Co 5.17; Ap 21.5); mas, em tudo isso, Ele expressa seu perfeito caráter com perfeita consistência. É precisamente a imutabilidade de seu caráter que garante sua fidelidade às palavras que tem falado e aos planos que tem feito (Nm 23.19; Sl 33.11; Ml 3.6; Tg 1.16-18); e é essa imutabilidade que explica porque, quando as pessoas mudam sua atitude para com Ele, Ele muda sua atitude para com elas (Gn 6.5-7; Ex 32.9-14; 1 Sm 15.11; Jn 3.10). A idéia de que a invariabilidade de Deus envolve indiferença ao que se passa neste mundo é precisamente o oposto da verdade.
Terceiro, os sentimentos de Deus não estão fora de seu controle, como os nossos freqüentemente estão. Os teólogos expressam isto dizendo que Deus é impassível e insensível, porém aquilo que Ele sente, como o que Ele faz, é uma questão de sua própria escolha deliberada e voluntária e está incluída na unidade de seu ser infinito. Deus jamais é nossa vítima no sentido de que fazemos sofrer naquilo que Ele não tinha previamente escolhido sofrer. Contudo, são abundantes as passagens que expressam a realidade das emoções de Deus (alegria, tristeza, ira, deleite, amor, ódio, etc.), sendo um grande equívoco esquecer que Deus sente – embora em forma de necessidade que transcende a experiência emocional de um ser finito.
Quarto, todos os pensamentos e ações de Deus envolvem todo o seu ser. Esta é a sua integração, às vezes chamada “sua simplicidade”. Ela se coloca em completo contraste com a complexidade e falta de integração de nossa própria existência pessoal, na qual, como resultado do pecado, raramente ou talvez nunca somos capazes de concentrar a totalidade de nosso ser e todos os nossos poderes sobre qualquer coisa. Um aspecto da maravilha de Deus, entretanto, é que Ele simultaneamente dá total e indivisa atenção não apenas a uma coisa de cada vez, mas a todas as coisas e a todas as pessoas em todo lugar em seu mundo passado, presente e futuro (cf. Mt 10.29,30).
Quinto, o Deus que é espírito deve ser adorado em espírito e verdade, como Jesus ensinou (Jo 4.24). “Em espírito” quer dizer “como um coração renovado pelo Espírito Santo”. Nem rituais, movimentos de corpo ou formalidades devocionais constituem adoração, sem o envolvimento do coração, o qual somente o Espírito Santo pode induzir. “Em verdade” significa “com base na revelação da realidade de Deus, que culmina na Palavra encarnada, Jesus Cristo”. Antes de mais nada, esta é a revelação do que somos como pecadores perdidos e do que Deus é para nós como Criador-Redentor pelo ministério mediador de Jesus.
Nenhum lugar sobre a terra é atualmente determinado como único centro para adoração. A habitação simbólica de Deus na Jerusalém terrena foi substituída, quando veio o tempo (Jo 4.23), por sua morada na Jerusalém celestial, de onde Jesus agora ministra (Hb 12.22-24). No Espírito, “perto está o Senhor de todos os que o invocam, de todos os que o invocam em verdade”, onde quer que estejam (Sl 145.18; cf. Hb 4.14-16). Esta disponibilidade universal de Deus é parte das boas novas do evangelho; ela é um preciso benefício, e não deve ser apenas considerada superficialmente.

Autor: J. I. Packer

Leia Mais...

Glória

Glória
A Glória manifesta de Deus requer a Glória concedida
“Como o aspecto do arco aparece na nuvem em dia de chuva, assim era o resplendor em redor.” Ez 1.28
O alvo de Deus é sua glória, mas isto necessita de cuidadosa explanação, pois é facilmente mal interpretado. Ele aponta não para o egoísmo divino, como se imagina algumas vezes, mas para o amor divino. Certamente, Deus deseja ser louvado por seu merecimento de louvor e exaltado por sua grandeza e bondade; Ele deseja ser apreciado pelo que é. Mas a glória, que é seu alvo, é um relacionamento de dois lados, de duas etapas: é, precisamente, uma conjunção de (a) atos reveladores de sua parte, por meio dos quais Ele mostra sua glória aos homens e aos anjos com espontânea generosidade, com (b) adoração responsiva da parte deles, por meio da qual lhe prestam glória de gratidão pelo que têm visto e recebido. A alternância de contemplara a glória de Deus e dar-lhe glória é a verdadeira realização da natureza humana em sua essência, o que traz suprema alegria ao homem, tanto quanto Deus (cf. Sf 3.14-17).
“Glória” no Velho Testamento encerra associações de peso, valor, riqueza, esplendor e dignidade, todas as quais estão presentes quando se diz que Deus revelou sua glória. Deus estava respondendo ao apelo de Moisés para que mostrasse sua glória Ele lhe proclamou seu nome (isto é, sua natureza, caráter e poder; Êx 33.18-34.7). Com aquela proclamação houve uma manifestação física que inspirou medo e reverência, o Shekina (habitação de Deus), uma nuvem brilhante que era vista como um fogo consumidor. O Shekinah era Ele mesmo chamado glória de Deus; Ele apareceu em momentos significativos da história bíblica como sinal da presença ativa de Deus (Ex 33.22. 34.5; cf. 16.7,10; 24.15-17; 40.34,34; Lv 9.23,24; 1 Rs 8.10,11; Ez 1.28; 8.4; 9.3; 10.4; 11.22,23; Mt 17.5; Lc 2.9; cf. At 1.9; 1 Ts 4.17; Ap 1.7). Os escritores do Novo Testamento proclamam que a natureza, caráter, poder e propósito da glória de Deus é agora aberta à nossa visão na pessoa e papel do Filho encarnado de Deus, Jesus Cristo (Jo 1.14-18; 2 Co 4.3-6; Hb 1.1-3).
A glória de Deus, anunciada no plano e obra da graça, pela qual Ele salva os pecadores, deve gerar o louvor (Ef 1.6,12,14), isto em a expressão de glória a Deus por palavra faladas (cf. Ap 4.9; 19.7). Todas as atividades da vida devem também ser exercidas com o objetivo de prestar a Deus homenagem, honra e prazer, o que significa a concessão de glória em nível prático (1 Co 10.31).
Deus não dividiria com ídolos o louvor para restauração do seu povo, porque os ídolos, sendo irreais, em nada contribuem para esta obra de graça (Us 42.8; 48.11); e Deus hoje não dividirá o louvor pela salvação com os seres humanos, porque nós também sendo objetos desta salvação nada contribuímos para ela além de nossa necessidade dela. Do princípio ao fim, e em todas as etapas do processo, a salvação vem do Senhor, e nosso louvor deve mostra nossa consciência disto. É por isso que a teologia da Reforma foi tão insistente no principio “glorio a Deus somente” (soli Deo gloria), e é por isso que precisamos manter este principio com igual zelo hoje.

Autor: J. I. Packer

Leia Mais...

A imutabilidade de Deus

A imutabilidade de Deus

A imutabilidade de Deus é necessariamente concomitante com a Sua asseidade. É a perfeição pela qual não há nele, não somente em Seu Ser, mas também em Suas perfeições, em Seus propósitos e em suas promessas. Em virtude deste atributo, Ele é exaltado acima de tudo quanto há, e é imune de todo acréscimo ou diminuição e de todo desenvolvimento ou decadência em Seu Ser e em Suas perfeições. Seu conhecimento e Seus planos, Seus princípios morais e Sua volições permanecem sempre os mesmos. Até a razão nos ensina que não é possível nenhuma mudança em Deus, visto que qualquer mudança é para melhor ou para pior. Mas em Deus, a Perfeição absoluta, melhoramento e deterioração são igualmente impossíveis. A imutabilidade de Deus é claramente ensinada em passagens da Escrituras como EX 3.14; Sl 102.26-28; Is 41.4; 48.12; Ml 3.6; Rm 1.23;Hb 1.11,12; Tg 1.17. Ao mesmo tempo há muitas passagens bíblicas que parecem atribuir mudanças a Deus. Não é certo que Aquele que habita a eternidade passou à criação do mundo, encarnou-se em Cristo, e no Espírito Santo fez morada na Igreja? Não é Ele apresentado como revelando-se e ocultando-se, como vindo e indo, como se arrependendo e mudando de intenção, e como procedendo diferentemente com o homem antes e depois da sua conversão? Cf. Ex 32.10-14; Jn 3.10; Pv 11.20; 12.22; Sl 18.26,27. A objeção aqui presente baseia-se até certo ponto em errônea compreensão. A imutabilidade divina não dever ser entendida no sentido de imobilidade, como se não houvesse movimento em Deus.
É hábito da teologia falar-se de Deus como actus purus, Deus sempre em ação. A Bíblia nos ensina que deus entra em multiformes relações com os homens e, por assim dizer, vive sua vida com eles. Ele está cercado de mudanças, mudanças nas relações dos homens com Ele, mas não há nenhuma mudança em Seu Ser, em Seus atributos, em Seus propósitos, em Seus motivos de ação, nem em Suas promessas.
Seu propósito de criar o mundo é eterno como Ele, e não houve mudança nele quando esse propósito foi elevado a efeito por um único ato de Sua vontade. A encarnação não produziu mudança no Ser e nas perfeições de Deus, nem em Seu propósito, pois era do Seu eterno beneplácito enviar ao mundo o Filho do Seu amor.
E se a Escrituras fala do Seu arrependimento, de Sua mudança de intenção, e da alteração que faz de sua relação com pecadores quando estes se arrependem, devemos lembrar-nos de que se trata apenas de um modo atropopático de falar. Na realidade, a mudança não é em Deus, mas no homem e nas relações do homem com Deus.
É importante sustentar a doutrina da imutabilidade de Deus contra a doutrina pelagiana e arminiana de que Deus é sujeito a mudança, na verdade não em Seu Ser, mas em Seu conhecimento e em Sua vontade, de modo que Suas decisões dependem em grande medida das ações do homem; contra a noção panteísta de que Deus é um eterno vir-a-ser, e não um Ser absoluto, e de que o Absoluto inconsciente vai-se desenvolvendo gradativamente rumo à personalidade consciente do homem; e contra a tendência atual de alguns, de falar de um Deus finito, que se esforça e que se desenvolve gradativamente.


Autor: Louis Berkhof

Leia Mais...

Deus Reina: A Soberania Divina

Deus Reina: A Soberania Divina
Mas ao fim daqueles dias, eu, Nabucodonosor, levantei os olhos ao céu, tornou-me a vir o entendimento, e eu bendisse o Altíssimo, e louvei, e glorifiquei ao que vive para sempre, cujo domínio é sempiterno, e cujo reino é de geração em geração. Todos os moradores da terra são por ele reputados em nada; e, segundo a sua vontade, ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes?”. Daniel 4:34,35:

A afirmação de que Deus é absolutamente soberano na criação, na providência e na salvação é básica à crença bíblica e ao louvor bíblico. A visão de Deus reinando de seu trono é repetida muitas vezes (1Rs 22.19; Is 6.1; Ez 1.26; Dn 7.9; Ap 4.2; conforme Sl 11.4; 45.6; 47.8-9; Hb 12.2; Ap 3.21). Somos constantemente lembrados, em termos explícitos, que o SENHOR (Javé) reina como rei, exercendo o seu domínio sobre grandes e pequenos, igualmente (Ex 15.18; Sl 47; 93; 96.10; 97; 99.1-5; 146.10; Pv 16.33; 21.1; Is 23.23; 52.7; dn 4.34-35; 5.21-28; 6.26; Mt 10.29-31). O domínio de Deus é total: ele determina como ele mesmo escolhe e realiza tudo o que determina, e nada pode deter seu propósito ou frustrar os seus planos. Ele exerce o seu governo no curso normal da vida, bem como nas mais extraordinárias intervenções ou milagres.
As criaturas racionais de Deus, angélicas ou humanas, gozam de livre ação, isto é, têm o poder de tomar decisões pessoais quanto àquilo que desejam fazer. Não seríamos seres morais, responsáveis perante Deus, o Juiz, se não fosse assim. Nem seria possível distinguir – como as Escrituras fazem – entre os maus propósitos dos agentes humanos e os bons propósitos de Deus, que soberanamente, governa a ação humana como meio planejado para seus próprios fins (Gn 50.20; At 2.23; 13.26-39). Contudo, o fato da livre ação nos confronta com um mistério. O controle de De3us sobre os nossos atos livres – atos que praticamos por nossa própria escolha – é tão completo como o é sobre qualquer outra coisa. Mas não sabemos como isso pode ser feito. Apesar desse controle, Deus não é e não pode ser autor do pecado. Deus conferiu responsabilidade aos agentes morais, no que concerne aos seus pensamentos, palavras e obras, segundo a sua justiça. O Sl 93 ensina que o governo soberano de Deus (a) garante a estabilidade do mundo contra todas as forças do caos (vs. 1-4); (b) confirma a fidedignidade de todas as declarações e ensinos de Deus (v. 5) e (c) exige a adoração do seu povo (v. 5). O salmo inteiro expressa alegria, esperança e confiança no Todo-Poderoso.

Fonte: Bíblia de Estudo de Genebra

Leia Mais...

Onipresença e Onipotência

Onipresença e Onipotência

Jeremias 23.24: “Ocultar-se-ia alguém em esconderijos, de modo que eu não o veja? —diz o SENHOR; porventura, não encho eu os céus e a terra? —diz o SENHOR”.

Deus está presente em todos os lugares. Contudo, não devemos pensar sobre ele como se ocupasse todos os espaços, porque ele não tem dimensões físicas. É como espírito que ele está em todo lugar. Ainda que isso exceda a compreensão de criaturas como nós, presas ao corpo, o próprio Deus está presente em toda parte, em sua majestade e poder. Almas necessitadas que oram a ele de toda parte no mundo estão à sua vista e recebem sua atenção pessoal. A crença na onipresença de Deus é ensinada em Sl 139.7; Jr 23.23-24; At 17.27-28. Quando Paulo fala do Cristo que subiu ao céu como enchendo todas as coisas (Ef 4.8-10), a disponibilidade de Cristo em toda parte, na plenitude do seu poder, certamente faz parte do significado. Pai, Filho e Espírito Santo são onipresentes, ainda que a presença pessoal do Filho glorificado não seja física (no corpo).
“Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado” (Jó 42.2). Jó testifica que Deus é onipotente. Ele é o Todo-Poderoso. Deus tem poder para fazer tudo aquilo que, em sua perfeita sabedoria e vontade, ele deseja fazer. Onipotência não significa que Deus possa fazer literalmente tudo: Deus não pode pecar, não pode mentir, não pode mudar sua natureza ou negar as exigências de seu caráter santo (Nm 23.19; 1Sm 15.29; 2Tm 2.13; Hb 6.18; Tg 1.13,17). Não pode fazer um círculo quadrado, porque a noção de um círculo quadrado é contraditória. Deus não pode cessar de ser Deus. Porém tudo o que quer e promete ele pode e fará.
Teria sido um exagero de Davi dizer: “Eu te amo, ó SENHOR, força minha. O SENHOR é minha rocha, a minha cidadela, o meu libertador; o meu Deus, o meu rochedo em que me refugio; o meu escudo, a força da minha salvação, o meu baluarte” (Sl 18.1-2)?. Teria sido exagero de outro salmista declarar: “Deus é nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações” (Sl 46.1)? Teria sido um engano dizer essas coisas se Deus fosse menos que onipotente e onipresente. Porém o reconhecimento da grandeza de Deus, incluindo sua onipresença e onipotência, produz grande fé e elevado louvor.


Fonte: Bíblia de Estudo de Genebra

Leia Mais...

Os Atributos Morais de Deus


Os Atributos Morais de Deus

Os atributos morais de Deus são geralmente considerados como as perfeições divinas mais gloriosas. Não que um atributo de Deus seja em si mesmo mais perfeito e mais glorioso que outro, mas, relativamente ao homem, as perfeições morais de Deus refulgem com um esplendor todo seu. Geralmente são discutidos sob três títulos: (1) a bondade de Deus; (2) a santidade de Deus; e (3) a justiça de Deus.

1. A BONDADE DE DEUS.
Esta geralmente é tratada como uma concepção genérica, incluindo diversas variedades que se distinguem de acordo com os seus objetos. Não se deve confundir a bondade de Deus com Sua benevolência, que é um conceito mais restrito. Falamos que uma coisa é boa quando ela corresponde em todas as suas partes ao ideal. Daí, em nossa atribuição de bondade de Deus, a idéia fundamental é que Ele é, em todos os aspectos e por todos os modos, tudo aquilo que deve ser como Deus, e, portanto, corresponde perfeitamente ao ideal expresso pela palavra “Deus”. Ele é bom na acepção metafísica da palavra, é perfeição absoluta e felicidade perfeita em Si mesmo. É neste sentido que Jesus disse ao homem de posição: “Ninguém é bom senão um só, que é Deus”, Mc 10.18; Lc 18.18, 19. Mas, desde que Deus é bom em Si mesmo, é também bom para as Suas criaturas e, portanto, pode ser chamado a fons omnium bonorum. Ele é a fonte de todo bem, e assim é apresentado de várias maneiras na Bíblia toda. O poeta canta: “Pois em ti está o manancial da vida; na tua luz vemos a luz”, Sl 36.9. Todas as boas coisas que as criaturas fruem no presente e esperam no futuro, fluem para elas deste manancial inexaurível. E não somente isso, mas Deus é também o summum bonum, o sumo bem, para todas as Suas criaturas, embora em diferentes graus e na medida em que correspondem ao propósito da sua existência. Na presente conexão, naturalmente damos ênfase à bondade ética de Deus e a seus diferentes aspectos, como determinados pela natureza dos seus objetos.
a. A bondade de Deus para com Suas criaturas em geral. Esta pode ser definida como a perfeição de Deus que O leva a tratar benévola e generosamente todas as Suas criaturas. É a afeição que o Criador sente para com as Suas criaturas dotadas de sensibilidade consciente como tais. O salmista a exalta com as bem conhecidas palavras: “O Senhor é bom para todos, e as suas ternas misericórdias permeiam todas as suas obras... Em ti esperam os olhos de todos, e tu, a seu tempo, lhes dás o alimento. Abres a tua mão e satisfazes de benevolência a todo vivente”, Sl 145.9, 15, 16. Este benévolo interesse de Deus é revelado em Seu cuidado pelo bem-estar da criatura e corresponde à natureza e às circunstâncias da criatura. Varia naturalmente em grau, de acordo com a capacidade que os seus objetos têm de recebe-lo. E embora não se restrinja aos crentes, somente estes manifestam apropriada apreciação das bênçãos que dela provêm, desejo de usa-las no serviço do seu Deus e, assim, desfrutam-na em medida mais rica e mais completa. A Bíblia refere-se a esta bondade de Deus em muitas passagens, como Sl 36.6; 104.21; Mt 5.45; 6.26; Lc 6.35; At 14.17.
b. O amor de Deus. Quando a bondade de Deus é exercida para com as Suas criaturas racionais, assume o caráter mais elevado de amor, e ainda se pode distinguir este amor de acordo com os objetos aos quais se limita. Em distinção da bondade de Deus em geral, o Seu amor pode ser definido como a perfeição de Deus pela qual Ele é movido eternamente à Sua própria comunicação. Desde que Deus é absolutamente bom em Si mesmo, Seu amor não pode achar completa satisfação em nenhum objeto falto de perfeição absoluta. Ele ama as Suas criaturas racionais por amor a Si mesmo, ou, para expressá-lo doutra forma, neles Ele se ama a Si mesmo, Suas virtudes, Sua obra e Seus dons. Ele nem mesmo retira completamente o Seu amor do pecador em seu estado pecaminoso atual, apesar de que o pecado deste é uma abominação para Ele, visto que, mesmo no pecador, Ele reconhece um portador da Sua imagem. Jo 3.16; Mt 5.44, 45. Ao mesmo tempo, Ele ama os crentes com amor especial, dado que os vê como Seus filhos espirituais em Cristo. É a estes que Ele se comunica no sentido mais rico e mais completo, com toda a plenitude da Sua graça e misericórdia. Jo 16.27; Rm 5.8; 1 Jo 3.1.
c. A graça de Deus. A significativa palavra “graça” é uma tradução do termo hebraico chanan e do grego charis. Segundo a Escritura, é manifestada não só por Deus, mas também pelos homens, caso em que denota o favor de um homem a outro, Gn 33.8, 10, 18; 39.4; 47.25; Rt 2.2; 1 Sm 1.18; 16.22. Nestes casos não implica necessariamente que o favor é imerecido. Em geral se pode dizer, porém, que a graça é a concessão de bondade a alguém que não tem nenhum direito a ela. É este particularmente o caso em que a graça a que se faz referência é a graça de Deus. Seu amor ao ser humano é sempre imerecido e, quando mostrado a pecadores, estes são até privados dele. A Bíblia geralmente emprega apalavra para indicar a imerecida bondade ou amor de Deus aos que perderam o direito a ela e, por natureza, estão sob a sentença de condenação. A graça de Deus é a fonte de todas as bênçãos espirituais concedidas aos pecadores. Como tal, lemos a seu respeito em Ef 1. 6.7; 2.7-9; Tt 2.11; 3.4-7. Embora a Bíblia fale muitas vezes da graça de Deus como graça salvadora, também faz menção dela num sentido mais amplo, como em Is 26.10; Jr 16.13. A graça de Deus é da maior significação prática para os pecadores. É pela graça que o caminho da redenção foi aberto para eles, Rm 3.24; 2 Co 8.9, e que a mensagem da redenção foi levada ao mundo, At 14.3. pela graça os pecadores recebem o dom de Deus em Jesus Cristo, At 18.27; Ef 2.8. Pela graça eles são justificados, Rm 3.24; 4.16; Tt 3.7, são enriquecidos de bênçãos espirituais, Jo 1,16; 2 Co 8.9; 2 Ts 2.16, e finalmente herdam a salvação, Ef 2.8; Tt 2.11. Vendo-se absolutamente sem méritos próprios ficam na total dependência da graça de Deus em Cristo. No modernismo teológico, com sua crença na bondade inerente do homem e em sua capacidade de bastar-se a si próprio, a doutrina da salvação pela graça tornou-se praticamente um “acorde perdido”, e mesmo a palavra “graça” foi esvaziada de toda significação espiritual e desapareceu dos discursos religiosos. Só foi conservada no sentido de “graciosidade”, coisa inteiramente externa. Felizmente há algumas evidências de uma renovada ênfase ao pecado, e de uma recém-despertada consciência da necessidade da graça divina.
d. A misericórdia de Deus. Outro importante aspecto da bondade e amor de Deus é a Sua misericórdia ou terna compaixão. A palavra hebraica mais geralmente empregada para esta perfeição é chesed. Há outra palavra, porém, que expressa uma terna e profunda compaixão, a saber, a palavra racham, às vezes lindamente traduzida por “terna misericórdia”. A Septuaginta e o Novo Testamento empregam a palavra grega eleos para designar a misericórdia de Deus. Se a graça de Deus vê o homem como culpado diante de Deus e, portanto, necessitado de perdão, a misericórdia de Deus o vê como um ser que está suportando as conseqüências do pecado, que se acha em lastimável condição, e que, portanto, necessita do socorro divino. Pode-se definir a misericórdia divina como a bondade ou amor de Deus demonstrado para com os que se acham na miséria ou na desgraça, independentemente dos seus méritos. Em Sua misericórdia Deus se revela um Deus compassivo, que tem pena dos que se acham na miséria e está sempre pronto a aliviar a sua desgraça. Esta misericórdia é generosa, Dt 5.10; Sl 57.10; 86.5, e os poetas de Israel se dedicam em entoar canções descrevendo-a como duradoura e eterna, 1 Cr 16.34; 2 Cr 7.6; Sl 136; Ed 3.11. No Novo Testamento é muitas vezes mencionada ao lado da graça de Deus, especialmente nas saudações, 1 Tm 1.2; 2 Tm 1.1; Tt 1.4. Repetidamente se nos diz que essa perfeição divina é demonstrada para com os que temem a Deus, ex 20.2; Dt 7.9; Sl 86.5; Lc 1.50. Não significa, porém, que se limita a eles, conquanto a desfrutem em medida especial. As ternas misericórdias de Deus estão sobre todas as Suas obras, Sl 145.9, e até os que não O temem compartilham delas, Ez 18.23, 32; 33.11; Lc 6.35, 36. Não se pode apresentar a misericórdia de Deus como oposta à Sua justiça. Ela é exercida somente em harmonia com a mais estrita justiça de Deus, em vista dos méritos de Jesus Cristo. Outros termos empregados para expressar a misericórdia de Deus são “piedade”, “compaixão”, “benignidade”.
e. A longanimidade de Deus. A longanimidade de Deus é ainda outro aspecto da Sua grande bondade ou amor. O hebraico emprega a expressão ‘erek ‘aph, que significa literalmente “grande de rosto” e daí também “lento para a ira”, enquanto que o grego expressa a mesma idéia com a palavra makrothymia. É o aspecto da bondade ou amor de Deus em virtude do qual Ele tolera os rebeldes e maus, a despeito da sua prolongada desobediência. No exercício deste atributo o pecador é visto como permanecendo em pecado, não obstante as admoestações e advertências que lhe vêm. Revela-se no adiantamento do merecido julgamento. A Escritura fala da longanimidade de Deus em Êx 34.6; Sl 86.15; Rm 2.4; 1 Pe 3.20; 2 Pe 3.15. Um termo sinônimo, com uma conotação ligeiramente diversa, é a palavra “paciência”.


2. A SANTIDADE DE DEUS.
A palavra hebraica para “ser santo”, qadash, deriva da raiz qad, que significa cortar ou separar. É uma das palavras religiosas mais proeminentes do Velho Testamento, e é aplicada primariamente a Deus. A mesma idéia é comunicada pelas palavras hagiazo e hagios, no Novo Testamento. Disto já se vê que não é correto pensar na santidade primariamente como uma qualidade moral ou religiosa, como geralmente se faz. Sua idéia fundamental é a de uma posição ou relação existente entre Deus e uma pessoa ou coisa.
a. Sua natureza. A idéia escriturística da santidade de Deus é dupla. Em sentido original denota que Ele é absolutamente distinto de todas as Suas criaturas, e é exaltado acima delas em majestade infinita. Assim entendida, a santidade de Deus é um dos Seus atributos transcendentais e às vezes é mencionada como a Sua perfeição central e suprema. Não parece próprio falar de um atributo de Deus como sendo mais central e mais fundamental que outro; mas, se fosse permissível isto, a ênfase da Escritura à santidade de Deus pareceria justificar a sua escolha. Contudo, é evidente que, neste sentido da palavra, a santidade não é realmente um atributo moral, que possa ser coordenado com outros, como o amor, a graça e a misericórdia, mas é antes uma coisa de amplitude igual à de todos os predicados de Deus e a eles aplicável. Ele é santo em tudo aquilo que O revela, em Sua graça e bondade como também em Sua ira e justiça. Pode-se-lhe chamar “majestade-santidade” de Deus e passagens como ex 15.11; 1 Sm 2.2; Is 57.15 e Os 11.9 se referem a ela. É a santidade de Deus que Otto, em sua importante obra sobre o Santo (Das Heilige), considera como aquilo que é mais essencial em Deus, e que ele designa como “o numinoso”. Ele a considera como parte do não-racional em Deus, em que não se pode pensar conceptualmente, e que inclui idéias como “inacessibilidade absoluta” e “domínio absoluto” ou “majestade temível”. Desperta no homem um sentimento de nulidade absoluta, uma “consciência” ou “sentimento de condição de criatura” que leva a um auto-rebaixamento absoluto.
Mas a santidade de Deus tem também um aspecto especificamente ético na Escritura, e é neste seu aspecto que estamos mais interessados nesta conexão. A idéia ética da santidade divina não pode ser dissociada da idéia da majestade-santidade de Deus. Aquela desenvolve-se a partir desta. A idéia fundamental da santidade ética de Deus também é a de separação, mas, neste caso, a separação é do mal moral, isto é, do pecado. Em virtude da sua santidade, Deus não pode ter comunhão com o pecado, Jô 34.10; Hc 1.13. Empregada neste sentido, a palavra “santidade” indica a pureza majestosa de Deus, ou a Sua majestade ética. Mas a idéia de santidade não é meramente negativa (separação do pecado); tem igualmente um conteúdo positivo, a saber, o de excelência moral, ou perfeição ética. Se o homem reage à santidade majestosa de Deus com um sentimento de completa insignificância e temor, sua reação à santidade ética revela-se num senso de impureza, numa consciência de pecado, Is 6.5. Otto reconhece também este elemento na santidade de Deus, embora acentue o outro, e a respeito da resposta ele diz: “O simples temor, a simples necessidade de refúgio face ao ‘tremendum’, elevou-se aqui ao sentimento de que o homem, em sua condição de ‘profano’, não é digno de ficar na presença do Santo, e de que a sua inteira indignidade pessoal poderia contaminar até mesmo a própria santidade”. Esta santidade ética de Deus pode ser definida como a perfeição de Deus, em virtude da qual Ele eternamente quer manter e mantém a Sua excelência moral, aborrece o pecado, e exige pureza moral em Suas criaturas.
b. Sua manifestação. A santidade de Deus é revelada na lei moral implantada no coração do homem e que fala por meio da consciência e, mais particularmente, na revelação especial de Deus. Expressa-se proeminentemente na lei dada a Israel. Essa lei, em todos os seus aspectos, foi planejada para imprimir em Israel a idéia da santidade de Deus, e para leva-lo a sentir fortemente a necessidade de levar vida santa. A este propósito atendem símbolos e tipos como a nação, a terra santa, a cidade santa, o lugar santo e o sacerdócio santo. Além disso, foi revelada na maneira como Deus recompensava a observância da lei e visitava os transgressores com terríveis punições. A suprema revelação da santidade de Deus foi dada em Jesus Cristo, que é chamado “o Santo e o Justo”, At 3.14. Ele refletiu em Sua vida a perfeita santidade de Deus. Finalmente, a santidade de Deus é também revelada na Igreja como o corpo de Cristo. É um fato notável, para o qual muitas vezes se chama a atenção, que se atribui santidade a Deus com muito maior freqüência no Velho Testamento que no Novo, conquanto isto seja feito ocasionalmente no Novo Testamento, Jo 17.11; 1 Pe 1.16; Ap 4.8; 6.10. Isto se deve provavelmente ao fato de que o Novo Testamento destina mais particularmente o termo para qualificar a terceira Pessoa da Trindade Santa como Aquele cuja tarefa especial, na economia da redenção, consiste em comunicar santidade ao Seu povo.


3. A JUSTIÇA DE DEUS.
Este atributo relaciona-se estreitamente com o da santidade de Deus. Shedd fala da justiça de Deus como “um modo de Sua santidade”, e Strong lhe chama simplesmente “santidade transitiva”. Contudo, estes termos só se aplicam à geralmente denominada justiça relativa de Deus, em distinção de Sua justiça absoluta.
a. A idéia fundamental de justiça. A idéia fundamental de justiça é a de estrito apego à lei. Entre os homens ela pressupõe que há uma lei à qual eles devem ajustar-se. Às vezes se diz que não podemos falar de justiça em Deus, porque não há lei à qual Ele esteja sujeito. Mas, embora não haja lei acima de Deus, certamente há uma lei na própria natureza de Deus, e esta constitui o mais elevado padrão possível, pelo qual todas as outras leis são julgadas. Geralmente se faz distinção entre a justiça absoluta de Deus e a relativa. Aquela é a retidão da natureza divina, em virtude da qual Deus é infinitamente reto em Si mesmo, enquanto que esta é a perfeição de Deus pela qual Ele se mantém contra toda violação da Sua santidade e mostra, em tudo e por tudo, que Ele é Santo. É a esta retidão que o termo “justiça” se aplica mais particularmente. A justiça se manifesta especialmente em dar a cada homem o que lhe é devido, em trata-lo de acordo com os seus merecimentos. A inerente retidão de Deus é naturalmente básica para a retidão que Ele revela no trato de Suas criaturas, mas é especialmente esta última, também denominada justiça de Deus, que requer especial consideração aqui. Os termos hebraicos para “justo” e “justiça” são tsaddik, tsedhek e tsedhakah, e os termos gregos correspondentes são dikaios e dikaiosyne, todos os quais contêm a idéia de conformidade a um padrão. Esta perfeição é repetidamente atribuída a Deus na Escritura, Ed 9.15; Ne 9.8; Sl 119.137; 145.17; Jr 12.1; Lm 1.18, Dn 9.14; Jo 17.25; 2 Tm 4.8; 1 Jo 2.29; 3.7; Ap 16.5.
b. Distinções aplicadas à justiça de Deus. Há em primeiro lugar uma justiça rectoral de Deus. Esta justiça, como está implícito no nome, é a retidão que Deus manifesta como o Governador que exerce domínio tanto sobre o bem como sobre o mal. Em virtude de Sua justiça rectoral, Deus instituiu um governo moral no mundo, e impôs ao homem uma lei justa, com promessas de recompensa ao obediente e ameaças de punição ao transgressor. No Velho Testamento Deus sobressai proeminentemente como o Legislador de Israel, Is 33.11, e do povo em geral, Tg 4.12, e Suas leis são justas, Dt 4.8. A Bíblia refere-se a esta obra rectoral de Deus também em Sl 99.4 e Rm 1.32.
Estreitamente relacionada com a justiça rectoral de Deus está a Sua justiça distributiva. Este termo habitualmente serve para designar a retidão de Deus na execução da lei, e se relaciona com a distribuição de recompensas e punições, Is 3.10, 11; Rm 2.6; 1 Pe 1.17. É de duas classes: (1) Justiça remunerativa, que se manifesta na distribuição de recompensas a homens e anjos, Dt 7.9, 12, 13; 2 Cr 6.16; Sl 58.11; Mq 7.20; Mt 25.21, 34; Rm 2.7; Hb 11.26. É realmente uma expressão do amor divino distribuindo a Sua generosidade, não com base em méritos propriamente ditos, pois a criatura não pode dar prova de nenhum mérito absoluto diante do Criador, mas segundo promessa e acordo, Lc 17.10; 1 Co 4.7. As recompensas de Deus são fruto da sua graça e decorrem de uma relação pactual estabelecida por ele. (2) Justiça retributiva, que se relaciona com a imposição de castigos. É uma expressão da ira divina. Enquanto que num mundo isento de pecado não haveria lugar para a sua aplicação, necessariamente tem proeminente lugar num mundo cheio de pecado. A Bíblia em geral dá mais ênfase à recompensa dos justos que à punição dos ímpios; mas mesmo esta é bastante proeminente, Rm 1.32; 12.19; 2 Ts 1.8, e muitas outras passagens. Deve-se notar que, ao passo que o homem não merece a recompensa que recebe, merece a punição que lhe é dada. A justiça divina está originária e necessariamente obrigada a punir o mal, não porém a recompensar o bem, Lc 17.10; 1 Co 4.7; Jo 41.11. Muitos negam a estrita justiça punitiva de Deus e alegam que Deus pune o pecador para reforma-lo, ou para dissuadir outros de pecar; mas estas posições não são sustentáveis. O propósito primordial da punição do pecado é a manutenção do direito e da justiça. É certo que ela pode, incidentalmente, servir para reformar o pecador e impedir que outros pequem, e, secundariamente, isso pode estar incluído em seus propósitos.


Autor: Louis Berkhof

Leia Mais...

A Infinidade de Deus

A Infinidade de Deus
Infinidade é a perfeição de Deus pela qual Ele é isento de toda e qualquer limitação. Ao atribuí-la a Deus, negamos que haja ou que possa haver quaisquer limitações do Ser divino e dos Seus atributos. Isto implica que Ele não é limitado de maneira nenhuma pelo universo, por este mundo caracterizado pela relação tempo-espaço, e que Ele não fica encerrado no universo. Isto não implica Sua identidade com a soma total das coisas existentes, nem exclui a coexistência das coisas finitas e derivadas, comas quais Ele mantém relação. A infinidade de Deus deve ser concebida como intensiva, antes que extensiva, e não deve ser confundida com extensão ilimitada, como se Deus estivesse espalhado pelo universo todo, uma parte aqui, outra ali, pois Deus não tem corpo e, portanto, não tem extensão espacial. Tampouco deve ser considerada como um conceito meramente negativo, embora seja perfeitamente verdadeiro que não podemos formar uma idéia positiva da infinidade. É uma realidade em Deus e só por Ele compreendida plenamente. Distinguimos vários aspectos da infinidade de Deus.

1. SUA PERFEIÇÃO ABSOLUTA.
Esta é a infinidade do Ser Divino considerada em si mesma. Não deve ser considerada num sentido quantitativo, mas qualitativo; ela qualifica todos os atributos comunicáveis de Deus. O poder infinito não é um quantum absoluto, mas sim, uma santidade qualitativamente livre de toda limitação ou defeito. O mesmo se pode dizer do conhecimento infinito, da sabedoria infinita, do amor infinito e da justiça infinita. Diz o dr. Orr: “Talvez possamos dizer que, em última análise a infinidade de Deus é: (a) interna e qualitativamente, ausência de toda limitação e defeito;(b) potencialidade ilimitada”. Neste sentido da palavra, a infinidade de Deus é simplesmente idêntica à perfeição do Seu divino Ser. A prova bíblica disto acha-se em Jó 11.7-10; Sl 145.3; Mt 5.48.

2. SUA ETERNIDADE.
A infinidade de Deus em relação ao tempo é denominada eternidade – Sua eternidade. A forma em que a Bíblia apresenta a eternidade de Deus é simplesmente a de duração pelos séculos sem fim, Sl 90.2; 102.12; Ef 3.21. Devemos lembrar, porém, que ao falar como fala, a Bíblia emprega linguagem popular, e não a linguagem da filosofia. Geralmente pensamos na eternidade de Deus da mesma maneira, a saber, como duração infinitamente prolongada, para trás e para diante. Mas este é apenas um modo popular e simbólico de representar aquilo que, na realidade, transcende o tempo e dele difere essencialmente. A eternidade, no sentido estrito da palavra, é adstrita àquilo que transcende todas as limitações temporais. Que o termo se aplica a Deus nesse sentido é ao menos ensinado em 2 Pe 3.8. “O tempo”, diz o dr. Orr, “estritamente falando, tem relação com o mundo de objetos existentes em sucessão. Deus preenche o tempo; Ele está em cada partícula dele; mas a Sua eternidade , todavia, não é realmente este estar no tempo. É antes, aquilo com o que o tempo forma um contraste”. Nossa existência é assinalada por dias, semanas, meses e anos; não é assim a existência de Deus. A nossa vida se divide em passado, presente e futuro, mas não há essa divisão na vida de Deus. Ele é o eterno “Eu Sou”. A sua eternidade pode ser definida como a perfeição de Deus pela qual Ele é elevado. Acima de todos os limites temporais e de toda sucessão de momentos, e tem a totalidade da Sua existência num único presente indivisível. A relação da eternidade com o tempo constitui um dos mais difíceis problemas da filosofia e da teologia, talvez de impossível solução em nossa condição atual.

3. SUA IMENSIDADE.
A infinidade de Deus também pode ser vista com referência ao espaço, sendo, então, denominada imensidade. Esta pode ser definida como a perfeição do Ser Divino pela qual Ele transcende todas as limitações espaciais e, contudo, está presente em todos os pontos do espaço com todo o Seu Ser. Ela tem um lado negativo e um lado positivo, negando todas as limitações do espaço ao Ser Divino, e afirmando que Deus está acima do espaço e ocupa todas as partes deste com todo o Seu Ser. As últimas palavras são acrescentadas para evitar a idéia de que Deus se difunde pelo espaço, como se uma parte do Seu Ser estivesse num lugar e outra parte noutro. Distinguimos três modos de presença no espaço. Os corpos ocupam o espaço circunscritivamente, porque são limitados por ele; os espíritos finitos ocupam o espaço definidamente, visto que não estão em toda parte, mas somente num dado e definido lugar; e, em distinção de ambos estes modos, Deus ocupa o espaço repletivamente, porque ele preenche todo o espaço. Ele não está ausente de nenhuma parte do espaço, nem tampouco está mais presente numa parte que noutra.
Em certo sentido, os termos “imensidade” e “onipresença”, como são aplicados a Deus, denotam a mesma coisa e, portanto, podem ser considerados sinônimos. Todavia, há um ponto de diferença que deve ser observado cuidadosamente. “Imensidade” aponta para o fato de que Deus transcende todo o espaço e não está sujeito às suas limitações, ao passo que “onipresença” denota que, não obstante, Ele preenche todas as partes do espaço com todo o Seu Ser. O primeiro salienta a Transcendência, e o último, a imanência de Deus. Deus é imanente em todas as Suas criaturas, na Sua criação inteira, mas de modo nenhum é limitado a esta. No que diz respeito à relação de Deus com o mundo, devemos evitar, por um lado, o erro do panteísmo, tão característico de grande parte do pensamento atual, com a sua negação da transcendência de Deus e a sua suposição de que o Ser de Deus é realmente substância de todas as coisas; e, por outro lado, o conceito deísta de que Deus está de fato de que Deus está de fato presente na criação per potentiam (com o Seu poder), não porém per essentiam et naturam (com a essência e natureza do Seu Ser), e age sobre o mundo à distância. Apesar do fato de que Deus é distinto do mundo e não pode ser identificado com ele, não obstante está presente em cada parte da Sua criação, não somente per potentiam, mas também per essentiam. Não significa, porém, que ele está igualmente presente, e presente no mesmo sentido em todas as Suas criaturas. A natureza da Sua permanência está em harmonia com a das Suas criaturas. Ele não habita na terra do mesmo modo como habita no céu, nem nos animais como habita no homem, nem na criação inorgânica como na orgânica, nem dos ímpios como nos piedosos, nem na Igreja como em Cristo. Há uma infinda variedade nas maneiras pelas quais ele é imanente em Suas criaturas, e na medida em que elas revelam Deus aos que têm olhos para ver. A onipresença de Deus é revelada claramente na Escritura. O céu e aterra não podem contê-lo, 1 Rs 8.27; Is 66.1; At 7.48, 49; e ao mesmo tempo Ele preenche ambos e é Deus acessível, Sl 139.7-10; Jr 23.23, 24; At 17.27, 28.

Autor: Louis Berkhof

Leia Mais...

Deus em três Pessoas: A Trindade

Deus em três Pessoas: A Trindade
Como Deus pode ser três pessoas, porém um só Deus?
Podemos definir a doutrina da Trindade do seguinte modo: Deus existe eternamente como três pessoas - Pai, Filho e Espírito Santo - e cada pessoa é plenamente Deus, e existe só um Deus.

A. A DOUTRINA DA TRINDADE REVELA-SE PROGRESSIVAMENE NAS ESCRITURAS.

1. A revelação parcial no Antigo Testamento.

A palavra Trindade não se encontra na Bíblia, embora a idéia representada pela palavra seja ensinada em muitos trechos. Trindade significa "tri-unidade" ou "três-em-unidade". É usada para resumir o ensinamento bíblico de que Deus é três pessoas, porém um só Deus.
Às vezes se pensa que a doutrina da Trindade se encontra somente no Novo Testamento, e não no Antigo. Se Deus existe eternamente como três pessoas, seria surpreendente não encontrar indicações disso no Antigo testamento. Embora a doutrina da Trindade não se ache explicitamente no Antigo Testamento, várias passagens dão a entender ou até implicam que Deus existe como mais de uma pessoa.
Por exemplo, segundo Gn 1.26, Deus disse: "Façamos o homens à nossa imagem, conforme a nossa semelhança". O que significa o verbo ("façamos") e o pronome ("nossa"), ambos na primeira pessoa do plural? Alguns já afirmaram tratar-se de plurais majestáticos, forma de falar que um rei usaria ao dizer, por exemplo: "Temos o prazer de atender-lhe o pedido". Porém, no Antigo Testamento hebraico, não se encontram outros exemplos em que um monarca use verbos no plural ou pronomes plurais para referir-se a si mesmo nessa forma de "plural majestático"; portanto, essa sugestão não tem evidências que a sustentem. Outra sugestão é que Deus esteja aqui falando com anjos. Mas os anjos não participaram da criação do homem, nem foi o homem criado à imagem e semelhança de anjos; por isso a sugestão não é convincente. A melhor explicação é que já nos primeiros capítulos de Gênesis temos uma indicação da pluralidade de pessoas no próprio deus. Não sabemos quantas são as pessoas, e nada temos que se aproxime de uma doutrina completa da Trindade, mas implica-se que há mais de uma pessoa. O mesmo se pode dizer de Gn 3.22 ("Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal"), Gn 11.7 ("Vinde, desçamos e confundamos ali a sua linguagem") e Is 6.8 ("A quem enviarei, e quem há de ir por nós?"). (Repare a combinação de singular e plural na mesma oração na última passagem.)
Além disso, em determinadas passagens uma pessoa é chamada "Deus" ou "Senhor" e distinguida de outra pessoa também chamada de Deus. Em Salmo 45.6-7(NIV), diz o salmista: "O teu trono, ó Deus, perdurará para todo o sempre. [...] Tua amas a justiça e odeia a iniqüidade; portanto, Deus, o teu Deus, te estabeleceu acima dos teus companheiros ungindo-te com o óleo da alegria". Aqui o salmo vai além de descrever algo que poderia valer para um rei terreno, e chama o rei de "Deus" (v. 6), cujo trono perdurara "para todo o sempre". Mas então, ainda falando da pessoa chama "Deus", o autor diz que Deus, o teu Deus, te estabeleceu acima dos teus companheiros" (v. 7). Então duas pessoas distintas são denominadas "Deus" (heb. 'Elõhîm). No Novo Testamento, o autor de Hebreus cita essa passagem e a aplica a Cristo: "O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre" (Hb 1.8)
Do mesmo modo, em Salmo 110.1, fala Davi: "DIsse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha mão direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés". Jesus corretamente entende que Davi se refere a duas pessoas distintas como "Senhor" (Mt 22.41-46), mas quem é o "Senhor" de Davi senão o próprio Deus? E quem poderia dizer a Deus "Assenta-te à minha direita", exceto alguém que também seja plenamente Deus? Do ponto de vista do Novo Testamento, podemos parafrasear assim esse versículo: "Deus Pai disse a Deus Filho:"Assenta-te à minha direita". Mas mesmo sem o ensinamento do Novo Testamento sobre a Trindade, parece claro que Davi estava ciente de um pluralidade de pessoas num só Deus. Jesus, é claro, compreendo a isso, mas quando pediu aos fariseus uma explicação dessa passagem, "E ninguém podia responder-lhe uma palavra; nem desde aquele dia ousou mais alguém interrogá-lo."(Mt 22.46). A menos que se disponham a admitir a pluralidade de pessoas num só Deus, os intérpretes judeus das Escrituras, mesmo hoje, não terão explicação mais satisfatória de Salmo 110.1 ( ou Gn 1.26, ou das outras passagens analisadas há pouco) do que aquela que circulava no tempo de Jesus.
Isaías 63.10 diz sobre o povo de Deus que "eles foram rebeldes e contestaram o seu Espírito Santo", dando a entender, aparentemente, tanto que o Espírito Santo é distinto do próprio Deus (é "seu Espírito Santo") quanto que esse Espírito Santo pode-se "contristar", entristecer-se, aventando assim capacidade emocionais características de uma pessoa distinta. (Is 61.1 também distingue "O Espírito do SENHOR Deus" do "SENHOR", ainda que não se atribuam qualidade pessoais ao Espírito Senhor nesse versículo.
Evidências semelhantes encontram-se em Malaquias, em que diz o Senhor: "Eis que eu envio o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim; e de repente virá ao seu templo o Senhor, a quem vós buscais; e o mensageiro da aliança, a quem vós desejais, eis que ele vem, diz o Senhor dos Exércitos. Mas quem suportará o dia da sua vinda? E quem subsistirá, quando ele aparecer? Porque ele será como o fogo do ourives e como o sabão dos lavandeiros." (Ml 3.1-2). Aqui, novamente, aquele que fala (o SENHOR dos Exércitos") distingue-se do "Senhor, a quem vós buscais", sugerindo duas pessoas separas, que podem ambas ser chamadas "Senhor".
Em Oséias 1.7, o Senhor fala da casa de Judá: E os salvarei pelo Senhor, seu Deus", novamente sugerindo que mais da uma pessoa pode ser chamada "Senhor" (heb. Yahweh) e "Deus" ( 'Elõhîm).
E em Isaías 18.16, aquele que fala (aparentemente o servo do Senhor) diz: "Agora, o Senhor Deus me enviou a mim e o seu Espírito". Aqui o Espírito do Senhor, como o servo do Senhor, foi "enviado" pelo Senhor Deus para uma missão particular. O paralelismo entre os dois objetos de enviar ("mim" e "o seu Espírito") é compatível com a interpretação de que são pessoas distintas: parece significar mais do que meramente "o Senhor enviou a mim e o seu poder". De fato, do ponto de vista do Novo Testamento (que reconhece Jesus, o Messias, como o verdadeiro Servo do Senhor predito nas profecias de Isaías), Isaías 18.16 carrega implicações trinitárias: "Agora, o Senhor Deus me enviou a mim e o seu Espírito", se dito por Jesus, o Filho de deus, menciona as três pessoas da Trindade.
Além do mais, diversas passagens do Antigo testamento sobre o "Anjo do Senhor" subentendem uma pluralidade de pessoas em Deus. A palavra traduzida "anjo" (heb. mal'ak) significa simplesmente "mensageiro". Se esse anjo do Senhor é um "mensageiro" do Senhor, ele pe então distinto do próprio Senhor. Porém, em algumas passagens o anjo do Senhor é chamado "Deus" ou "Senhor" (ver Gn 16.13; Êx 3.2-6; 23.20-22 [repare "nele está o meu nome" no v. 21]; Nm 22.35 com 38; Jz 2.1-2; 6.11 com 14). Em outros trechos no Antigo Testamento "o Anjo do Senhor" simplesmente se refere a um anjo criado, mas pelo menos nesses textos o anjo (ou "mensageiro") especial do Senhor parece ser uma pessoa distinta e plenamente divina.
Um dos textos mais polêmicos do Antigo Testamento que poderia revelar personalidades distintas para mais de uma pessoa está em Provérbios 8.22-31. Embora a parte anterior do capitulo possa ser compreendida como meramente uma personificação da "sabedoria", com vistas a um efeito literário, mostrando a sabedoria a chamar os simples e a convidá-los a aprender, é possível argumentar que os vv. 22-31 dizem coisas sobre a "sabedoria" que parecem ir além da mera personificação. Falando do tempo em que Deus criou a terra, diz a sabedoria: "... então, eu estava com ele e era arquiteto, dia após dia, eu era as suas delícias, folgando perante ele em todo o tempo; regozijando-me no seu mundo habitável e achando as minhas delícias com os filhos dos homens (Pv 8.30-31). Atuar como "arquiteto" junto de Deus na criação indica em si mesmo a idéia de uma pessoas distinta, e as frases seguintes talvez sejam ainda mais convincentes, pois apenas pessoas reais podem "dia após dia [ser] as suas delícias" e também se alegrar no mundo e se deleitar com os filhos dos homens.
Mas se decidimos que "sabedoria" aqui se refere de fato ao Filho de Deus antes de ele se tornar homem, há uma dificuldade. Os versículos de 22-25 parecem falar da criação dessa pessoa chamada "sabedoria":
O Senhor me possuiu no princípio de seus caminhos, desde então, e antes de suas obras. Desde a eternidade fui ungida, desde o princípio, antes do começo da terra. Quando ainda não havia abismos, fui gerada, quando ainda não havia fontes carregadas de águas. Antes que os montes se houvessem assentado, antes dos outeiros, eu fui gerada.
Porventura não indica isso que tal "sabedoria" foi criada?Na verdade, não. A palavra hebraica que geralmente significa "criar" (bãrã') não é usada no versículo 22; a palavra é qãnãh, que ocorre oitenta e quatro vezes no Antigo Testamento e quase sempre significa "obter, adquirir". A Almeida Revista e Atualizada é mais clara aqui: "O Senhor me possuía no início de sua obra" (Semelhante Á Versão King James; repare esse sentido da palavra em Gn 39.1; Ex 21.2; Pv 4.5, 7; 23.23; Ec 2.7; Is 1.3["possuidor"]. trata-se de um sentido legítimo e, se a sabedoria for compreendida como uma pessoa real, significaria apenas que Deus Pai começou a dirigir e a fazer uso da potente ação criadora de Deus Filho no momento do início da Criação: o Pai convocou o Filho a trabalhar com ele na obra da criação. A palavra "gerado" nos versículos 24 e 25 é um termo diferente, mas poderia carregar significado semelhante: o Pai começa a dirigir e a fazer uso da potente ação criadora do Filho na criação do universo.
2. A revelação mais completa da Trindade no Novo Testamento.

Quando começa o Novo Testamento, entramos na história da vinda do Filho de Deus à terra. Era de esperar que esse grande acontecimento se fizesse acompanhar de ensinamentos mais explícitos sobre a natureza trinitária de Deus, e de fato é isso que encontramos. Antes analisar a questão com pormenores, podemos simplesmente listar várias passagens em que as três pessoas da Trindade são mencionadas juntas.
Quando do batismo de Jesus, " ... e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba e vindo sobre ele. E eis que uma voz dos céus dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo" (Mt 3.16-17). Aqui, ao mesmo tempo, temos os três membros da Trindade realizando três ações distintas. Deus Pai fala de lá do céu; Deus Filho é batizado e depois ouve a voz de Deus Pai vinda do céu, e o Espírito Santo desse do céu para pousar sobre Jesus e dar-lhe poder para o seu ministério.
Ao final do seu ministério terreno, Jesus diz aos discípulos que eles devem ir e fazer "discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo" (Mt 28.19). Os próprios nomes "Pai" e "Filho", baseados na família e mais comum das instituições humanas, indicam com muita força a distinção das pessoas do Pai e do Filho. E se o "Espírito Santo" é inserido na mesma frase e no mesmo nível das outras duas pessoas. difícil é evitar a conclusão de que o Espírito Santo é também, tido como pessoa e de posição igual ao do Pai e do Filho.
Quando nos damos conta de que os autores do Novo Testamento geralmente usam o nome "Deus" (gr. theos) para se referir a Deus Pai e o nome "Senhor" (gr. Kyrios) para se referir a Deus Filho, fica claro que há outro termo trinitário em 1 Coríntios 12.4-6 "Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. E há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos."
Igualmente, o último versículo de 2 Coríntios é trinitário na sua expressão: "A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo seja com todos vós. Amém." (2 Co 13.13 ou 14). Verificamos também as três pessoas mencionadas separadamente em Efésios 4. 4-6:"Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação; Um só Senhor, uma só fé, um só batismo; Um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos e em todos vós."
As três pessoas da Trindade são mencionadas juntas na primeira frase de 1 Pedro: "Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo..." (1 Pe 1.2). E em Judas 20-21, lemos: "Mas vós, amados, edificando-vos a vós mesmos sobre a vossa santíssima fé, orando no Espírito Santo, Conservai-vos a vós mesmos no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna."
Todavia, a tradução (dentro de colchetes, significando que o texto em questão não tem apoio dos melhores manuscritos que a ARA dá de 1 Jo 5.7 não deve ser usada com esse fim. Lê-se: "Pois são três os que dão testemunho no céu: O Pai, a Palavra e o Espírito Santo; e esses três são um".
O problema dessa tradução é que ele se baseia num número muito pequeno de manuscritos gregos pouco confiáveis, sendo o mais antigo desses do século XIV d.C.. As melhores versões não incluem esse trecho, mas o omitem, como o faz a grande maioria dos manuscritos gregos de todas as traduções textuais de monta, inclusive vários manuscritos bastante confiáveis dos séculos IV e C d.C., e também citações dos pais da igreja, como Ireneu (m.c. 212 d.C.), Tertuliano (m. depois de 220d.C.) e o grande defensor da Trindade, Atanásio (m. 373 d.C.).
B. TRÊS DECLARAÇÕES QUE RESUMEM O ENSINO BÍLICO

Em certo sentido a doutrina da trindade é um mistério que jamais seremos capazes de entender plenamente. Podemos, todavia, compreender parte de sua verdade resumindo o ensinamento da Escrituras em três declarações:

1. Deus é três pessoas.

2. Cada pessoa é plenamente Deus.

3. Há só um Deus

A seção seguintes desenvolverá mais detalhadamente cada uma dessas declarações.

1. Deus é três pessoas.

O fato de ser Deus três pessoas significa que o Pai não é o Filho; são pessoas distintas. Significa também que o Pai não é o Espírito Santo, mas são pessoas distintas. E significa que o Filho não é o Espírito Santo. Essas distinções se mostram em várias das passagens citadas na seção anterior, bem como em muitas outras passagens do Novo Testamento.
Jo 1.1-2 nos diz: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus.". O fato de o "Verbo" (que se revela Cristo nos v. 9-18) estar "com" Deus prova que ele é distinto de Deus Pai. Em João17.24, Jesus fala a Deus Pai da "minha glória que me conferiste, porque me amaste antes da fundação do mundo", revelando assim distinção de pessoas, compartilhamento de glória e uma relação de amor entre o Pai e o Filho antes que o mundo fosse criado.
Lemos que Jesus continua agindo como nosso Sumo Sacerdote e Advogado perante Deus Pai: "Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não pequeis; e, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo." (1 Jo 2.1). Cristo é aquele que "pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles."(Hb 7.25). Porém, a fim de interceder por nós perante Deus Pai, é necessário que Cristo seja um pessoa distinta do Pai.
Além disso, o Pai não é o Espírito, tampouco o Filho é o Espírito Santo. Distinguem-se em vários versículos. Diz Jesus: "Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito" (Jo 14.26). O Espírito Santo também ora ou "intercede" por nós (Rm 8.27), indicando uma distinção entre o Espírito Santo e Deus Pai, a quem se faz a intercessão.
Finalmente, o fato de o Filho não ser o espírito Santo também está indicado em várias passagens trinitárias mencionadas anteriormente, como a Grande Comissão (Mt 28.19), e em passagens que indicam que Cristo voltou ao céu e então enviou o Espírito Santo à igreja. Disse Jesus: "Todavia digo-vos a verdade, que vos convém que eu vá; porque, se eu não for, o Consolador não virá a vós; mas, quando eu for, vo-lo enviarei." (Jo 16.7).
Alguns já questionaram se o espírito Santo é de fato uma pessoa distinta, e não simplesmente o "poder" ou a "força" de Deus em ação no mundo. Mas as evidências do Novo Testamento são bem claras e fortes. Primeiro há os diversos versículos mencionados acima, em que o Espírito Santo é revelado em coordenada relação com o Pai e o Filho ( Mt 28.19; 2 Co 12.4-6; 2 Co 13.13ou14; Ef 4.4-6; 1 Pe 1.2): como o Pai e o Filho são ambos pessoas, a expressão coordenada indica fortemente que o Espírito Santo também é uma pessoa. Depois há trechos em que o pronome masculino ele(gr. ekeinos) se refere ao Espírito Santo (Jp 14.26; 15.26; 16.13-14), o que não seria de esperar em face das regras da gramática grega, pois a palavra "espírito"(gr. pneuma) é neutra, não masculina, e a ela normalmente se alude com o pronome neutro ekeino. Além do mais, o nome consolador ou confortador (gr. parakeltos) é um termo comumente usado para falar de uma pessoa que ajuda ou dá consolo ou conselho a outra pessoa ou pessoas, mas se refere ao Espírito Santo no evangelho de João (Jo 14.16, 26; 15.23; 16.7).
Outras atividades pessoais são atribuídas ao Espírito Santo, como ensinar (Jo 14.26), dar testemunho (Jo 15.26; Rm 8.16), interceder ou orar em nome de outros (Rm 8.26-27), sondar as profundezas de Deus (1 Co 2.10), conhecer os pensamentos de Deus (2 Co 2.11), decidir conceder dons para alguns, e outros para outros (1 Co 12.11), proibir ou não permitir determinadas atividades (At 16.6-7), falar (At 8.29; 13.2; e muitas vezes no Antigo como no Novo Testamento), avaliar e aprovar um proceder sábio (At15.28) e se entristecer diante do pecado dos cristãos (Ef 4.30).
Por fim, se o Espírito Santo é interpretado meramente como o poder de Deus, e não como pessoa distinta, então várias passagens simplesmente não fariam sentido, pois nelas se mencionam tanto o Espírito Santo quanto o seu poder, ou o poder de Deus. Por exemplo, Lucas 4.14 ("Então, Jesus, no poder, regressou para Galiléia") significaria então "Jesus, no poder do poder, regressou para a Galiléia". E atos 10.38 ("Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder") significaria "Deus ungiu a Jesus com o poder de Deus e com poder" (ver também Rm 15.13; 1 Co 2.4).
Embora tantas passagens distingam claramente o Espírito Santo dos outros membros da Trindade, 2 Coríntios 3.17 se revela um versículo desconcertante: "Ora, o Senhor é Espírito; e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade.". Os interpretes muitas vezes supõem que "Senhor" aqui só pode ser Cristo, pois Paulo usa freqüentemente "Senhor" para referir a Cristo. Mas provavelmente não é esse o caso aqui, pois a gramática e o contexto nos fornecem bons argumentos para dizer que esse versículo tem melhor tradução com o Espírito Santo o sujeito: "Ora, o Espírito é o Senhor ...". Nesse caso, Paulo estaria dizendo que o Espírito Santo é também "Jave" (ou "Jeová), o Senhor do Antigo Testamento (repare o claro pano de fundo do Antigo Testamento que se revela nesse contexto, a partir do v. 7). Teologicamente, isso seria aceitável, pois sem dúvida se pode dizer qua assem como Deus Pai é "Senhor" e Deus Filho é "Senhor" (no pleno sentido de "Senhor" no Antigo Testamento como nome de Deus), também o Espírito Santo é chamado "Senhor" no Antigo Testamento - e é o Espírito Santo que nos manifesta especialmente a presença do Senhor na era da nova aliança.
2. Cada pessoa é plenamente Deus.

Além do fato de serem as três pessoas distintas as Escrituras dão farto testemunho de cada pessoa é plenamente Deus.
Primeiro, Deus Pai é claramente Deus. Isso se evidencia desde o primeiro versículo da Bíblia no qual Deus cria o céu e a terra. É evidente em todo o Antigo e Novo Testamento, no quais Deus Pai é retratado nitidamente como Senhor soberano de tudo e onde Jesus orar ao seu Pai celeste.
Também, o Filho é plenamente Deus. Embora esse ponto seja desenvolvido com mais por menores no capítulo 26 [da Teologia Sistemática deste autor, donde tiramos este estudo] ("A Pessoa de Cristo"), podemos aqui mencionar de passagem vários trechos explícitos. João 1.1-4 afirma claramente a plena divindade de Cristo:
No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens.
Aqui, Cristo é o "Verbo", e João diz que ele estava "com Deus" e também que ele "era Deus". O texto grego repete as palavras iniciais de Gênesis 1.1 ("No princípio...") e nos lembra de que João está falando de algo que já era verdade antes que o mundo fosse criado. Deus Filho sempre foi plenamente Deus.
A tradução "o Verbo era Deus" foi contestada pelas testemunhas-de-jeová, que vertem "o Verbo era um deus", implicando que o Verbo era simplesmente um ser celestial, mas não plenamente divino. Eles justificam essa tradução salientando que o artigo definido (gr. ho, "o") não aparece antes da palavra grega theos ("Deus). Dizendo que theos deve ser traduzido como "um deus". Porém, tal interpretação nunca foi acatada por nenhum estudioso grego de lugar algum, pois é sabido que a frase segue uma regra normal da gramática grega, e ausência do artigo definido indica meramente que "Deus" é o predicado, e não o sujeito da frase. (Uma publicação recente das testemunhas-de-jeová reconhece hoje essa relevante gramatical, mas assim mesmo persiste na sua posição a respeito de João 1.1).
A incoerência da posição das testemunhas-de-jeová pode ser vista na tradução que dão ao restante do capítulo. Por diversas outras razões gramaticais, a palavra theos também dispensa o artigo definido em outros pontos do capítulo, como no versículo 6 (Houve um homem enviado por Deus"), no versículo 12 ("poder de serem feitos filhos de Deus"), no versículo 13 ("mas de Deus") e no versículo 18 ("Ninguém jamais viu a Deus"). Se as testemunhas-de-jeová fossem coerentes no seu argumento sobre a ausências do artigo definido, teriam de traduzir todos esses versículos com a expressão "um deus",mas usaram "Deus" em todos eles.
João 20.28, no seu contexto, também é uma sólida prova em favor da divindade de Cristo. Tomé duvidava do relatos dos outros discípulos, de que haviam visto Jesus ressuscitado, e disse que não acreditaria se não visse as marcas dos cravos nas mãos de Jesus e não lhe tocasse com a mão na ferida do lado (jo 20.25). Então Jesus apareceu novamente aos discípulos, estando agora Tomé com eles. Disse a Tomé: "Põe aqui o dedo e vê as minhas mãos; chega também a mão e põe no me lado; não seja incrédulo, mas crente"" (Jo 20.28). Aqui Tomé chama Jesus de "Deus meu". A narrativa mostra que tanto João no modo com escreveu o seu evangelho quanto o próprio Jesus aprovam o que Tomé disse e incentivam todos os que ouvirem falar de Tomé a crer nas mesmas coisas em que Tomé creu. Jesus imediatamente disse a Tomé: "Porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram" (Jo 20.29). Quanto a João, esse é o momento dramático mais forte do evangelho, pois ele logo a seguir diz ao leitor - já no versículo seguinte - que esta é a razão pela qual ele o escreveu:
"Jesus, pois, operou também em presença de seus discípulos muitos outros sinais, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome. "(Jo 20.30-31)
Jesus fala daqueles que, mesmo sem o ver crerão, e João logo diz ao leitor que ele registrou os acontecimentos no evangelho para que todos também creiam assim, imitando Tomé na sua confissão de fé. Em outras palavras, todo o evangelho foi escrito para convencer as pessoas a imitar Tomé, que sinceramente chamou Jesus de "Senhor meu e Deus meu". Como esse é o motivo exposto por João como propósito do seu evangelho, a afirmação se reveste de autoridade.
Outras passagens afirmam a plena divindade de Jesus, como Hebreus 1, onde diz que Cristo é a "expressão exata" (gr. charakter, "reprodução exata") da natureza ou ser (gr. hypostasis) de Deus - significando que Deus Filho reproduzia o ser ou a natureza de Deus Pai em todos os aspectos: todos os atributos ou poderes que Deus Pai tem, Deus Filho também os tem. O autor ainda se refere ao Filho como "Deus" no versículo 8 ("Mas acerca do Filho: O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre") e atribui a criação dos céus a Cristo ao dizer dele: "No princípio, Senhor, lançaste os fundamentos da terra, e os céus são obras das tuas mãos" (Hb 1.10; citando Sl 102.25). Tito 2.13 refere-se ao "nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus" e 2 Pedro 1.1 fala da "justiça de nosso Deus e Salvador Jesus Cristo". Romanos 9.5, falando do povo judeu, diz: "Deles são os patriarcas, e a partir deles se traça a linhagem humana de Cristo, que é Deus acima de tudo, bendito para sempre! Amém" (NVI).

No Antigo Testamento, Isaías 9.6 profetiza:

Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte ...
Aplicando a Cristo, essa profecia refere-se a ele como "Deus Forte". Observe aplicação semelhante dos títulos "Senhor" e "Deus" na profecias da vinda do Messias em Isaías 40.3: "Preparai o caminho do Senhor; endireitai no ermo vereda a nosso Deus", citada por João Batista na preparação para vinda de Cristo em Mateus 3.3.
Muitas outras passagens serão discutidas no capítulos 26, [da Teologia Sistemática deste autor], abaixo, mas essas já devem ser suficientes para demonstrar que o Novo Testamento claramente se refere a Cristo como Deus pleno. Como diz Paulo em Colossenses 2.9, "Porquanto, nele, habita, corporalmente, toda a plenitude da Divindade."
Além disso, O Espírito Santo é também plenamente Deus. Uma vez que entendemos que Deus Pai e Deus Filho são plenamente Deus, então as expressões trinitárias em versículos com Mateus 28.19 ("batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo") se revestem de relevância para a doutrina do Espírito Santo, pois mostram que o Espírito Santo está classificado no mesmo nível do Pai e do Filho. Isso se verifica quando percebemos quão impensável seria que Jesus dissesse algo como "batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do arcanjo Miguel", dando a um ser criado uma posição totalmente descabida, mesmo para um arcanjo. Os crentes de todas as épocas sempre foram batizados em nome (assumindo, portanto, o caráter) do próprio Deus. (Note também as outras passagens trinitárias mencionadas acima: 1 Co 12.4-6; 2 Co 13.14; Ef 4.4-6; 1 Pe 1.2; Jd 20-21.)
Em atos 5.3-4, Pedro pergunta a Ananias: "Por que encheu Satanás teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo [...]? Não mentiste aos homens, mas a Deus". Segundo as palavras de Pedro, mentir ao Espírito Santo é mentir a Deus. Paulo diz em 1 Coríntios 3.16: "Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?" O templo de Deus é o local onde o próprio Deus habita, o que Paulo explica pelo fato de que o "Espírito de Deus" ali habita, aparentemente igualando o Espírito de Deus ao próprio Deus.
Davi pergunta em Salmos 139.7-8: "Para onde me irei do teu Espírito, ou para onde fugirei da tua presença? Se subir ao céu, tu aí estás; se fizer no Seol a minha cama, eis que tu ali estás também." Essa passagem atribui a características divina da onipresença ao Espírito Santo, algo que não se aplica a nenhuma das criaturas de Deus. Parece que Davi faz equivaler o Espírito de Deus à presença de Deus. Ausentar-se do Espírito de Deus é ausentar-se da sua presença, mas se não há lugar para onde Davi pode fugir do Espírito de Deus, então ele sabe que aonde quer que vá terá de dizer: "Tu estás aí".
Paulo atribui a característica divina da onisciência ao Espírito Santo em 1 Coríntios 2.10-11: "Porque Deus no-las revelou pelo seu Espírito; pois o Espírito esquadrinha todas as coisas, mesmos as profundezas de Deus. Pois, qual dos homens entende as coisas do homem, senão o espírito do homem que nele está? assim também as coisas de Deus [ou os pensamentos de Deus], ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus.".
Além disso, o ato de dar novo nascimento a todo aquele que nasce de novo é obra do Espírito Santo. Disse Jesus:"... quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito. Não te admires de eu te dizer: importa-vos nascer de novo" (Jo 3.5-7). Mas o ato de dar nova vida espiritual às pessoas quando se tornam cristãs é algo que só Deus pode fazer (cf. 1 Jo 3.9, "nascido de Deus"). Essa passagem portanto dá nova indicação de que o Espírito Santo é plenamente Deus.

Até aqui temos duas conclusões, ambas fartamente ensinadas em toda a Bíblia:

1. Deus é três pessoas.2. Cada pessoa é plenamente Deus.

Se a Bíblia ensinasse somente esses dois fatos, não haveria nenhuma dificuldade lógica em emparelhá-los, pois a solução óbvia seria que existem três Deuses. O Pai é plenamente Deus, o Filho é plenamente Deus e o Espírito santo é também plenamente Deus.Teríamos um sistema com três seres igualmente divinos. Tal crença se chamaria politeísmo - ou, mais especificamente, "triteísmo", ou crença em três Deuses. Mas isso passa bem longe do que ensina a Bíblia.
3. Só há um Deus.

As Escrituras deixam bem claro que só existe um único Deus. As três diferentes pessoas da Trindade são um não apenas em propósito e em concordância no que pensam, mas um em essência, um na sua natureza essencial. Em outras palavras, Deus é um só ser. Não existem três Deuses. Só existe um Deus.
Uma das passagens mais conhecidas do Antigo Testamento é Deuteronômio 6.4-5: "Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças."
Ó Senhor, quem é como tu entre os deuses? Quem é como tu glorificado em santidade, admirável em louvores, realizando maravilhas? (Ex 15.11),
a resposta obviamente é: "ninguém. Deus é único, e não há ninguém como ele nem pode haver ninguém como ele. De fato, Salomão ora "para que todos os povos da terra saibam que o Senhor é Deus, e que não há outro." (1 Rs 8.60).
Quando Deus fala, repetidamente deixa claro que ele é o único Deus verdadeiro; a idéia de que existem três Deuses a adorar, e não um só, seria impensável diante de declarações tão veementes. Só Deus é o únicos Deus verdadeiro, e não há nenhum outro como ele. Quando ele fala, só ele fala - não fala como um Deus dentre três que devem ser adorados. Mas diz:
Eu sou o Senhor, e não há outro; fora de mim não há Deus; eu te cingirei, ainda que tu não me conheças; Para que se saiba desde o nascente do sol, e desde o poente, que fora de mim não há outro; eu sou o Senhor, e não há outro. (Is 45.5-6).
Do mesmo modo, ele convoca toda a terra a olhar para ele:
Não há outro Deus, senão eu,Deus justo e Salvadornão há além de mim.
Olhai para mim e sede salvos,vós, todos os limites da terra;porque eu sou Deus, e não há outro (Is 45.21-22; cf. 44.6-8).
O Novo Testamento também afirma que só há um Deus. Escreva Paulo: "Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem." (1 Tm 2.5). Paulo afirma que "Deus é um só" (Rm 3.30) e que "há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem existimos" (1 Co 8.6). Por fim, Tiago admite que até os demônios reconhecem que só há um Deus, ainda que essa aceitação intelectual do fato não seja suficiente para salvá-los: "Tu crês que há um só Deus; fazes bem. Também os demônios o crêem, e estremecem." (Tg 2.19). Mas nitidamente Tiago afirma que "faz bem" quem crê que "Deus é um só".
4. As soluções simplistas necessariamente neguam um dos ensinamentos bíblicos.

Agora temos três proposições, todas elas ensinadas nas Escrituras.

1. Deus é três pessoas.2. Cada pessoa é plenamente Deus.3. Só há um Deus.

Ao longo de toda a história da igreja houve tentativas de encontrar uma solução simples para doutrina da Trindade pela negação de uma ou outra dessa proposições. Caso se negue a primeira proposição [1. Deus é três pessoas.], então resta-nos simplesmente o fato de que cada uma das pessoas mencionadas nas Escrituras (Pai, Filho e Espírito Santo) é Deus, e há um só Deus. Mas se não precisamos dizer que são pessoas distintas, então há uma solução fácil: não passam de nomes diferentes para uma pessoa que age de modos diversos em situações distintas. Às vezes essa pessoa se chama Pai, às vezes se chama Filho, às vezes se chama Espírito. Não temos dificuldade para compreender isso, pois sabemos por experiência própria que a mesma pessoa pode agir em dada situação como advogado (por exemplo), noutra como pai dos seus filhos e noutra como filho diante dos seus pais; a mesma pessoa é advogado, pai e filho. Mas tal solução negaria o fato de que as três pessoas sejam indivíduos distintos, de que Deus Pai envia Deus Filho ao mundo, de que o Filho ora ao Pai e de que o Espírito santo intercede junto ao Pai por nós.
Outra solução simples surge pela negação da segunda proposição [2. Cada pessoa é plenamente Deus.], ou seja, negar que algumas das pessoas mencionadas nas Escrituras são de fato plenamente Deus. Se simplesmente sustentamos que Deus é três pessoas e que só há um Deus, então podemos ser tentados a dizer que algumas dessas "pessoas" desse Deus único não são plenamente Deus, mas apenas partes subordinadas ou criadas de Deus. Essa solução seria adorada, por exemplo, por aqueles que negam a plena divindade do Filho (e do Espírito Santo). Mas, como vimos acima, essa solução teria de negar toda uma classe de ensinamentos bíblicos.
Por fim, como já observamos acima, uma solução simples poderia vir pela negação da existência de um só Deus. Mas isso resultaria na crença em três Deus, algo claramente contrário às Escrituras.
Embora o terceiro erro não seja comum, como veremos abaixo, cada um dos dois primeiros erros já apareceu num momento ou noutro da história da igreja, e ainda persiste hoje dentro de alguns grupos.
5. Todas as analogias têm falhas.

Se não podemos adotar nenhuma dessas soluções simplistas, então como juntar as três verdade bíblicas para assim sustentar a doutrina da Trindade? As pessoas já usaram várias analogias retiradas da natureza ou da experiência humana para tentar explicar essa doutrina. Embora tais analogia sejam úteis num nível elementar de compreensão, todas elas se revelam inadequadas ou ilusórias numa reflexão mais aprofundada. Dizer, por exemplo,que Deus é como um trevo de três folhas, que mesmo tendo três partes é apenas um trevo, não é satisfatório, pois cada folha apenas faz parte do trevo, e não se pode dizer que nenhuma das folhas é todo o trevo. Mas na Trindade, cada uma das pessoas não é apenas uma parte separada de Deus, mas plenamente Deus. Além disso, a folha de um trevo é impessoal e não tem portanto personalidade distinta e complexa como cada pessoa da Trindade.
Outros já usaram a analogia das três partes de uma árvore: raiz, tronco e ramos constituem uma só arvore. Mas surge um problema semelhante, pois trata-se somente de partes de uma árvore, e não se pode dizer que nenhuma dessas partes é a árvore inteira. Além do mais, nessa analogia as partes têm propriedade distintas, diferentemente das pessoas da Trindade, que possuem todos os atributos de Deus em igual medida. E a ausência de personalidade em cada uma das partes é outra deficiência.
A analogia das três formas de água (vapor, água e gelo) é também inadequada, porque: (a) nenhuma quantidade de água jamais é ao mesmo tempo todas as três formas, (b) as três formas têm propriedades ou características diferentes, (c) a analogia nada tem que corresponda ao fato de existir somente um Deus (mas existe algo como "uma só água" ou "toda a água do universo") e (d) falta o elemento da personalidade inteligente.
Outras analogias foram derivadas da experiência humana. Poder-se-ia dizer que a Trindade é como um homem que é ao mesmo tempo fazendeiro, prefeito da sua cidade e presbítero da sua igreja. Ele desempenha papéis diferentes em momentos distintos, mas é um só homem. Porém, essa analogia é bastante falha, pois só uma pessoa executa essas três atividades em momento diferentes, e o modalismo não contempla a relação pessoal entre os membros da Trindade. (Na verdade, essa analogia simples ensina a heresia chamada modalismo, discutida abaixo.)
Outras analogia retirada da vida humana é a união entre intelecto, emoções e vontade numa pessoa. Embora sejam componentes de uma personalidade, nenhum desses fatores constitui a pessoa inteira. E as partes não são de características idênticas, mas têm capacidades distintas.
Então que analogia usaremos para explicar a Trindade? Embora a Bíblia use muitas analogias derivadas da natureza e da vida para nos ensinar aspectos diversos do caráter de Deus (Deus é como uma rocha na sua fidelidade, como um pastor no seu cuidado, etc.), é interessante notar que nenhum trecho das Escrituras se acha alguma analogia que explique a doutrina da Trindade. O mais próximo que chegamos de uma analogia se encontra nos próprios títulos "Pai" e "Filho", títulos que nitidamente dizem respeito a pessoas distintas e à íntima relação que existe entre os dois numa família. Mas no plano humano, logicamente, temos dois seres totalmente distintos, nenhum deles formado de três pessoas distintas. É melhor concluir que nenhuma analogia explica adequadamente a Trindase, que todas são ilusórias em aspectos importantes.
6. Deus existe eterna e necessariamente como Trindade.

Quando o universo foi criado, Deus Pai proferiu as potentes palavras criadoras que o gerarem; Deus Filho foi o agente divino que executou essas palavras (Jo 1.3; 1 Co 8.6; Cl 1.16; Hb 1.2) e o Espírito de Deus "pairava por sobre as águas" (Gn 1.2). Então é como seria de esperar: se os três membros da Trindade são iguais e plenamente divinos, então todos eles existiram desde a eternidade, e Deus sempre existiu eternamente como Trindade (cf. também Jo 17.5,24). Além disso, Deus não pode ser diferente do que é, pois é imutável. Portanto, parece correto concluir que Deus existe necessariamente como Trindade - não pode ser diferente do que é.

Autor: Wayne Grudem
Fonte: Capítulo 14 da Teologia do autor

Leia Mais...

A Revelação

A Revelação
Sl 119.1-14; Ef 3.1-13; 2 Tm 3.14-17; Hb 1.1-4
Tudo o que sabemos sobre o Cristianismo nos foi revelado por Deus. Revelar significa "tirar o véu." Tem a ver com remover a cobertura e descobrir algo que está encoberto.
Quando meu filho era pequeno, nossa família desenvolveu uma tradição anual para comemorar seu aniversário. Em vez da prática geral de entregar os presentes, fazíamos isso por meio da nossa versão caseira do programa de televisão "Vamos Fazer um Trato." Eu escondia os presentes destinados a ele, por exemplo, dentro de uma gaveta, debaixo do sofá ou atrás de uma cadeira. Então lhe dava algumas opções: "Você pode ganhar o que está na gaveta da minha escrivaninha ou o que está no meu bolso". O ponto principal do jogo era o "grande trato do dia". Eu colocava três cadeiras, uma ao lado da outra, cada uma delas coberta com um lençol. Cada lençol encobria um presente. Na primeira cadeira colocávamos um presente simples, na Segunda o presente principal que ele iria ganhar e sobre a terceira uma muleta que ele havia usado quando quebrou a perna aos sete anos de idade.
Meu filho escolheu a cadeira com a muleta por três anos consecutivos! (No final, sempre permitíamos que trocasse a muleta pelo presente.) No quarto ano, estava determinado a não escolher mais a muleta. Desta vez, eu escondi o presente principal junto com a muleta, na mesma cadeira, e deixei a ponta da muleta aparecendo por baixo do lençol. Ao ver a ponta da muleta, meu filho evitou cuidadosamente aquela cadeira. Ganhei de novo!
A parte mais divertida da brincadeira era tentar adivinhar onde o presente estava escondido. Tratava-se contudo de um trabalho de mera suposição, pura especulação. A descoberta do verdadeiro tesouro só podia ser feita depois que o lençol era removido e o presente ficava exposto.
O mesmo acontece com o nosso conhecimento de Deus. A especulação fútil sobre Deus é mera tolice. Se queremos conhecê-lo de verdade, temos de depender daquilo que ele revela sobre si mesmo.
A Bíblia declara que Deus se revela de várias maneiras. Manifesta sua glória na natureza e por meio dela. Revelou-se nos tempos antigos por meio de sonhos e visões. As marcas da sua providência se manifestam nas páginas da História. Revela-se nas Escrituras inspiradas. O ponto mais alto da sua revelação é visualizado em Jesus Cristo, tornando-se ser humano – o que os teólogos chamam de "encarnação".
O autor da carta aos Hebreus escreveu: Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo. Hebreus 1.1,2.
Embora a Bíblia fale das "diversas maneiras" em que Deus se revela, distinguimos entre dois tipos principais de revelação – a geral e a especial. A revelação geral é chamada assim por duas razões: (1) ela é geral no conteúdo e (2) é revelada para uma audiência geral.
Conteúdo Geral
A revelação geral nos proporciona o conhecimento de que Deus existe. "Os céus proclamam a glória de Deus", diz o salmista. A glória de Deus é manifesta nas obras das suas mãos. Essa manifestação é tão clara e visível que nenhuma criatura pode deixar de percebê-la. Ela revela o poder eterno de Deus e sua divindade (Rm.1.18-23). A revelação na natureza, porém, não proporciona uma revelação plena de Deus. Não nos dá informações sobre o Deus Redentor que encontramos na Bíblia. O Deus que se revela na natureza, entretanto, é o mesmo Deus que se revela na Bíblia.
Público Geral
Nem todas as pessoas no mundo já leram a Bíblia ou ouviram a proclamação do Evangelho. A luz da natureza, porém, brilha sobre todos, em todos os lugarem em todo o tempo. A revelação geral de Deus acontece diariamente. Deus nunca fica sem um testemunho de si mesmo. O mundo visível é como um espelho que reflete a glória do seu Criador.
O mundo é um palco para Deus. Ele é o ator principal, que aparece em primeiro plano e no centro. Nenhuma cortina pode fechar-se para obscurecer sua presença. Basta um olhar de relance na criação para se perceber que a natureza não é sua própria mãe. Não existe a tal "Mãe Natureza". A natureza em si mesma não tem poderes para produzir qualquer tipo de vida. A natureza, em si é estéril. O poder de produzir a vida reside no Autor da natureza – Deus. Colocar a natureza como a fonte de vida é confundir a criatura com o Criador. Todas as formas de adoração da natureza, portanto, são atos de idolatria e são abomináveis para Deus.
``A luz da força da revelação geral, todo ser humano sabe que Deus existe. O ateísmo envolve a negação total de algo que é reconhecido como verdadeiro. Por isso a Bíblia diz: "Diz o insensato no seu coração: Não há Deus." (Sl. 14.1). Quando as Escrituras tratam tão severamente o ateu, chamando-o de "insensato", elas estão fazendo um julgamento moral dele. Ser insensato, em termos bíblicos, não significa Ter pouco entendimento ou falta de inteligência; é ser imoral. Como o temor do Senhor é o princípio da sabedoria, assim a negação de Deus é o máximo da loucura.
Semelhantemente o agnóstico nega a validade da revelação geral. O agnóstico, porém, é menos berrante que o ateu. Ele não nega terminantemente a existência de Deus. Pelo contrário, ele declara que as evidências são insuficientes para se decidir de uma maneira ou de outra quanto à existência de Deus. Prefere suspender seu julgamento, deixando o tema da existência de Deus uma questão em aberto. À luz da clareza da revelação geral, entretanto, a posição do agnosticismo não é menos abominável para Deus do que a do ateísta militante.
Para qualquer pessoa, porém, cuja mente e coração estão abertos, a glória de Deus é maravilhosa de se ver – desde os bilhões de universos no firmamento, até as partículas subatômicas que formam a menor das moléculas. Que Deus incrível nós servimos!
Sumário
1. O cristianismo é uma religião revelada.

2. A revelação de Deus é uma auto-manifestação. Ele remove o véu que nos impede de conhecê-lo.

3. Não podemos conhecer a Deus por meio de especulação.

4. Deus se revelou de várias maneiras ao longo da História

5. A revelação geral é comunicada a todos os seres humanos.

6. O ateísmo e o agnosticismo são baseados na negação daquilo que as pessoas sabem ser a verdade.

7. A insensatez tem por fundamento a negação de Deus.

8. A sabedoria tem por fundamento o temor de Deus.

Autor: R. C. Sproul

Leia Mais...

Revelação geral

Revelação geral
"Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos." Salmo 19.1
O mundo de Deus não é um véu que esconde o poder e a majestade do Criador, pois "os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos"Salmo 19.1 A ordem natural prova que existe um Criador poderoso e cheio de majestade. Paulo diz a mesma coisa em Romanos 1.19-21 e em Atos 17.28 cita Arato, um poeta grego, como testemunha de que todo ser vivo foi criado pelo mesmo Deus. Paulo afirma também que a generosidade do Criador é evidente nas suas bondosas providências( Atos 14.17; cf Romanos 2.4) e que pelo menos algumas das exigências de sua lei estão patentes em cada consciência humana(Romanos 2.14-15), acompanhadas da desconfortável certeza do julgamento final(Romanos 1.32). Essas certezas evidentes são o conteúdo da revelação geral.
A revelação geral é assim chamada porque chega a cada um de nós simplesmente por vivermos no mundo de Deus. Deus tem se revelado desse modo desde o começo da história humana. Ele ativamente revela esses aspectos de si mesmo a todos, de modo que deixar de agradecer e servir ao Criador é sempre pecado contra o conhecimento. No final, nenhuma negação de termos recebido esse conhecimento será admitida.
Paulo usa a revelação universal do poder e da bondade de Deus como base para a sua acusação contra toda a raça humana como pecadora e culpada diante de Deus, por causa do nosso fracasso em servi-lo como devemos.(Romanas 1.18-3.19).
A revelação geral Deus acrescentou posteriormente a revelação de si mesmo como o Salvador de pecadores através de Jesus Cristo. Essa revelação, realizada na história e registrada nas Escrituras, é chamada de "revelação especial". Ela inclui afirmações verbais explícitas de tudo o que a revelação geral nos comunica a respeito de Deus.
Fonte : Bíblia de Estudo de Genebra

Leia Mais...

Revelação Geral Imediata e Mediata

Revelação Geral Imediata e Mediata
Sl 19.1-4; At 14.8-18; At 17.16-34; Rm 1.18-23; Rm 2.14,15
Quando eu era menino e minha mãe queria que fizesse algo para ela sem demora, acentuava a ordem usando o adverbio imediatamente. Ela dizia: "Filho, vá para o seu quarto imediatamente."
Minha mãe usava a palavra imediatamente para referir-se a um evento no tempo que devia ocorrer sem qualquer bloco de tempo intermediário. Na teologia, o termo imediato significa algo mais. Significa que algo acontece sem passar por nenhum agente, objeto ou meio intermediários. É uma ação que ocorre sem a participação de intermediários.
Na teologia bíblica podemos distinguir dois tipos de revelação geral – aquela que é comunicada diretamente. Quando falamos de revelação geral imediata, nos referimos à revelação transmitida por meio de alguma coisa. Quando os céus revelam a Deus, tornam-se os mediadores, ou o meio pelo qual Deus manifesta sua glória. Neste sentido, todo o universo é um meio de revelação divina. A criação dá testemunho do seu Criador.
A Bíblia diz que toda a terra está repleta da glória de Deus. Lamentavelmente, com frequencia nós ignoramos essa glória que nos cerca. Temos a tendência de viver de maneira superficial. Estamos desatentos diante da maravilha que Deus nos proporciona em sua gloriosa criação. Estamos desligados e fora de contato. As idéias religiosas são inúteis se não expressam algo real.
A presença sublime de Deus está em toda a nossa volta. Ainda assim, muitas vezes estamos cegos e surdos para ela. Não compreendemos sua linguagem. Exige mais do que simplesmente parar para cheirar as flores. A flor contém mais do que um aroma suave ou um perfume agradável. Ela transpira a glória do seu Criador. Todos nós estamos em contato com a revelação divina, quando reconhecemos a glória de Deus na natureza e é revelada nela e por meio dela.Além de revelar sua glória indiretamente por meio da criação, Deus também se revela diretamente à mente humana. Essa é chamada revelação geral imediata.
O apóstolo Paulo fala da Lei de Deus escrita em nosso coração (Rm.2.12-16). João Calvino falou sobre um senso do divino, o qual Deus implanta na mente de cada pessoa. Ele disse: Nós, inquestionavelemente, afirmamos que os homens têm em si mesmos certo senso da divindade; e isto, por um instinto natural. ... Deus mesmo dotou todos os homens com certo conhecimento de sua divindade, cuja memória ele constantemente renova e ocasionalmente amplia. (Institutas, II, 1,43).
Todas as culturas atestam a presença de alguma atividade religiosa, confirmando a incurável natureza religiosa da humanidade. Os seres humanos são religiosos no seu âmago. O caráter de tal religiosidade pode ser grosseiramente idólatra; mas até mesmo a idolatria, ou melhor, principalmente a idolatria, dá uma evidência desse conhecimento inato que pode ser distorcido, mas jamais destruído.
Lá bem no fundo da nossa alma nós sabemos que Deus existe e que nos deu suas Leis. Procuramos sufocar esse conhecimento a fim de escapar dos seus mandamentos. Por mais que nos esforcemos, porém, não podemos calar essa voz interior. Ela pode ser abafada, mas jamais ser destruída.
Sumário

1. A Glória de Deus é evidente em toda a nossa volta. Ela é mediata pela criação de Deus.

2. Os seres humanos são religiosos por natureza.

3. Deus implanta em todos os seres humanos um conhecimento inato de si mesmo. Isso se chama revelação geral imediata.
Autor: R. C. Sproul

Leia Mais...

Culpa - O Efeito da Revelação Geral

Culpa -
O Efeito da Revelação Geral
“O que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhe manifestou”. Romanos 1.19
A Escritura admite, e a experiência confirma, que os seres humanos inclinam-se naturalmente por uma forma de religião, embora falhem em adorar seu Criador, cuja revelação geral de si mesmo torna-o conhecido universalmente. O ateísmo teórico e o monoteísmo moral são opostos naturais: o ateísmo é sempre uma reação contra a crença pré-existente em Deus ou deuses, e o monoteísmo moral somente surgiu no despertar da revelação especial.
A Escritura explana este estado de coisas dizendo-nos que o pecado do egoísmo e da aversão às prescrições de nosso Criador conduz a humanidade à idolatria, o que significa transferir a adoração e reverência a outro poder ou objeto que não o Deus Criador (Is 44.9-20; Rm 1.21-23; Cl 3.5). Desta maneira, os humanos apóstatas “suprimiram a verdade” e “mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis” (Rm 1.23). Eles sufocam e extinguem, tanto quanto podem, a consciência que a revelação geral lhes dá do Criador-Juiz transcendente, e com seu inextirpável senso de deidade se apegam a objetos indignos. Isto, ao revés, leva a um drástico declínio moral, com a conseqüente miséria, como primeira manifestação da ira de Deus contra a apostasia humana (Rm 1.18,24-32).
No momento atual, no Ocidente, as pessoas idolatram e, na realidade, adoram objetos seculares, tais como a empresa, a família, o futebol e sensações agradáveis de várias espécies. Mas, o declínio moral persiste como resultado, tal como ocorreu quando os pagãos adoraram ídolos literais nos tempos bíblicos.
Os seres humanos não podem suprimir completamente sua percepção de Deus, bem como de seu julgamento presente e futuro; o próprio Deus não permitirá que o façam. Algum sentido do que é certo e errado, como também de ser submetido a um Juiz divino, sempre permanece. Em nosso mundo decaído, todas as mentes que não estão de algum modo anestesiadas têm uma consciência que, em certos pontos, as dirige e, de tempos em tempos, as condena, dizendo-lhes que devem sofrer pelos erros cometidos (Rm 2.14ss.); e quando a consciência fala nestes termos é, na verdade, Deus quem está falando.
A humanidade arruinada é, em certo sentido, ignorante de Deus, uma vez que o que as pessoas gostam de crer, e de fato crêem, com vistas ao objeto de seu culto falseia e distorce a revelação de Deus, da qual não podem escapar. Em outro sentido, contudo, todos os seres humanos permanecem cônscios de Deus, de modo culpável, com desconfortáveis pressentimentos do julgamento vindouro, que esperam não se cumpra. Somente o evangelho de Cristo pode falar de paz a esse aflito aspecto da condição humana.
Autor: J. I. PackerFonte: Teologia Concisa, pg. 11,12,

Leia Mais...

Os Profetas de Deus

Os Profetas de Deus
Dt 18.15-22; Is 6; Jl 2.28-32; Mt 7.15-20; Ef4.11-16
Os profetas do Antigo Testamento foram pessoas que receberam um chamado único de Deus e que receberam suas mensagens de maneira sobrenatural, as quais deveriam transmitir a nós. Deus transmitiu sua palavra através dos lábios e dos escritos dos profetas.
A profecia envolvia predição do futuro (preanunciar) e proclamação e exortação atuais da palavra de Deus (anunciar em seguida). Os profetas eram revestidos de tal maneira pelo Espírito Santo que suas palavras eram palavras de Deus. Por isso as mensagens geralmente eram prefaciadas com a frase: "Assim diz o Senhor".
Os profetas foram os reformadores da religião de Israel. Chamavam o povo de volta à adoração pura a Deus. Embora os profetas fossem críticos quanto à maneira como a adoração dos israelitas freqüentemente se degenerava num mero ritual, eles não condenavam nem atacavam as formas originais de adoração que Deus havia dado a seu povo. Os profetas não eram revolucionários nem anarquistas religiosos. Sua tarefa era purificas, não destruir; reformar, não substituir o culto de Israel.
Os profetas também se preocupavam profundamente com a justiça social e a integridade. Eram a consciência de Israel, chamando o povo ao arrependimento. Também funcionavam como promotores legais da aliança de Deus. Eles "intimavam" a nação por ter violado os termos da aliança com Deus.
Os profetas falavam com autoridade divina porque Deus os chamava especificamente para serem seus porta-vozes. Não herdavam sua função, nem eram eleitos para exercê-la. O chamado imediato de Deus, justamente com o poder do Espírito Santo, constituíam as credenciais dos profetas.
Os falsos profetas foram um problema constante em Israel. Ao invés de proferir os oráculos de Deus, transmitiam seus próprios sonhos e opiniões - dizendo ao povo somente o que este queria ouvir. Os verdadeiros profetas freqüentemente eram perseguidos e rejeitados por seus contemporâneos por se recusarem a comprometer a proclamação de todo o conselho de Deus.
Geralmente, os livros dos profetas são divididos em "profetas maiores" e "profetas menores". Essa distinção não se refere à maior ou menor importância dos profetas, mas ao volume dos seus escritos canônicos. Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel são chamados de profetas maiores, porque escreveram mais, enquanto que Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias são referidos como os profetas menores, porque seus escritos são bem menores.
Os apóstolos do Novo Testamento possuíam muitas das características dos profetas do Antigo Testamento. Os apóstolos e os profetas juntos são considerados como o fundamento da igreja.
Sumário

1. Os profetas do Antigo Testamento foram agentes da revelação divina.

2. A profecia envolvia pré-anúncio e anúncio.

3. Os profetas foram os reformadores do culto e da vida dos israelitas.

4. Somente aqueles chamados diretamente por Deus tinham autoridade para serem profetas.

5. Os falsos profetas expressavam suas próprias opiniões e falavam o que o povo queria ouvir.

6. Profetas maiores e menores são designados assim de acordo com o volume e não pela
importância dos seus escritos.

Autor: R. C. Sproul

Leia Mais...

A Revelação Especial e a Bíblia

A Revelação Especial e a Bíblia
Sl 119; Jo 17.17; 1 Ts 2.13; 2 Tm 3.15-17; 2 Pe 1.20,21
Quando foi tentado por Satanás no deserto, Jesus o repreendeu com as palavras: "Está escrito: Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus" (Mt.4.4). Historicamente, a igreja tem feito ecoar o ensino de Jesus, afirmando que a Bíblia é a vox Dei, a "voz de Deus" ou o verbum Dei, a "Palavra de Deus’. Chamar a Bíblia de "a Palavra de Deus" não significa sugerir que ela foi escrita pela própria mão de Deus, ou que caiu do céu num pára-quedas. A própria Bíblia claramente chama a atenção para seus muitos autores humanos. Se a estudarmos cuidadosamente, percebemos que cada autor humano tem seu próprio estilo literário peculiar, seu próprio vocabulário, ênfase especial, perspectiva e outros aspectos. Já que a produção da Bíblia envolveu esforço humano, como pode ser ela considerada Palavra de Deus?
A Bíblia é chamada de Palavra de Deus por causa da sua reivindicação, crida pela igreja, de que os escritores humanos não escreveram simplesmente suas próprias opiniões, mas que suas palavras foram inspiradas por Deus. O apóstolo Paulo escreve: "Toda Escritura é inspirada por Deus" (2 Tm. 3.16). A palavra inspiração é uma tradução da palavra grega que significa "sopro de Deus". Quer dizer, Deus soprou a Bíblia. Assim como temos de expelir ar de nossa boca quando falamos, assim, em última análise, a Bíblia é Deus falando.
Embora a Bíblia tenha chegado a nós por intermédio das mãos de autores humanos, a fonte suprema das Escrituras é Deus. Por isso os profetas podiam prefaciar suas palavras, dizendo: "Assim diz o Senhor". Por isso Jesus também podia dizer: "A tua palavra é a verdade" (Jo. 17.17) e "a Escritura não pode falhar" (Jo. 10.35).
A palavra inspiração também chama a atenção par ao processo pelo qual o Espírito Santo superintendeu a produção da Bíblia. O Espírito guiou os autores humanos para que as palavras deles não fossem nada menos que a Palavra de Deus. Não sabemos como Deus superintendeu a redação original da Bíblia. Inspiração, entretanto, não significa que Deus ditou sua mensagem para aqueles que redigiram a Bíblia. Ao invés disso, o Espírito Santo comunicou as exatas palavras de Deus por intermédio dos escritores humanos.
Os cristãos afirmam a infalibilidade e a inerrância da Bíblia porque, em última análise, Deus é o seu autor. E porque Deus é incapaz de inspirar algo falso, sua palavra é totalmente verdadeira e digna de toda confiança. Qualquer literatura humana, elaborada pelos meios normais, está sujeita a erros. A Bíblia, porém, não é um projeto humano normal. Se a Bíblia foi inspirada por Deus e sua redação foi supervisionada por ele, então não pode ter erros.
Isso significa que as traduções da Bíblia que temos hoje não estejam isentas de erro, mas que os manuscritos originais eram absolutamente corretos. Isso também não significa que cada declaração da Bíblia seja a expressão da verdade. O escritor do livro de Eclesiastes, por exemplo, declara que "no além para onde tu vais, não há obra, nem projetos, nem conhecimento, nem sabedoria alguma" (Ec.9.10). O escritor estava falando do ponto de vista do desespero humano e sabemos que esta declaração não expressa a verdade, de acordo com outros textos bíblicos. A Bíblia expressa a verdade até mesmo ao revelar a falsa argumentação de um homem desesperado.
Sumário

1. A inspiração é o processo por meio do qual Deus soprou sua palavra.

2. Deus é a fonte suprema da Bíblia.

3. Deus é o superintendente da Bíblia.

4. Somente os manuscritos originais da Bíblia eram isentos de erros.

Autor: R. C. Sproul

Leia Mais...

Figura central da Revelação Bíblica

Figura central da Revelação Bíblica
Jesus é a figura central da Revelação bíblica. O âmago ou cerne da mensagem de Deus contida nas paginas da Bíblia para o coração humano é Jesus, de sorte que, sem ter em vista a sua personalidade, não se pode ler com proveito a Bíblia.Meditando na relação inseparável que existe entre a pessoa de Cristo e a bíblia, fizemos as seguintes observações:

1 – Ele é o grande objetivo do Velho e do Novo Testamento.

É ele o alvo para o qual tudo converge no Velho Testamento e o centro em torno do qual tudo gira em o Novo Testamento.Alem das profecias messiânicas citada nas lições anteriores, poderíamos lembrar que o Velho Testamento esta´ repleto de símbolos, alegorias e tipos de Jesus Cristo.Há pessoas, ofícios, ritos, cerimônias e acontecimento Históricos que falam de Jesus, Hb 8 a 10, Lc 24.44.

2 – Jesus Cristo, a maior maravilha de todos os tempos, é o segredo do valor incomparável da Bíblia.

A principal razão de ser a Bíblia, o Livro dos livros, é a pessoa de Jesus cristo revelado em suas paginas.Esta afirmação ao diminui o valor intrínseco das Escrituras, que são o engaste de ouro digno da Grande Perola – Jesus. Ao contrario até, pois da Bíblia depende o nosso conhecimento de Jesus Cristo.Os únicos documentos autênticos pelos quais se pode conhecer o Cristo real e histórico são os Evangelhos. Estes não fazem parte, apenas, da Bíblia mas estão, com o Velho Testamento, inseparavelmente entrelaçados, como já vimos.

3 – Jesus Cristo é a chave para a boa inteligência da Bíblia.

A Sua Pessoa permeia e explica a Bíblia, em toda a parte, Jo 5.39 e At 8.30-35. Aos discípulos no caminho de Emaús, Jesus apareceu e ensinou que o Velho Testamento falava de Sua Pessoa, de sua morte e de Sua Ressurreição, Lc 24.25-27 e 44. Pois a expressão: “Moises, profetas e salmos” significa tríplice divisão do Velho Testamento, ou seja, da Bíblia hebraica.
Autor: Guilherme Kerr

Leia Mais...

Origem da Bíblia

Origem da Bíblia
A Bíblia não é um livro qualquer. A origem dela está em Deus, que falou através de homens separados para registrar sua Palavra. Sabemos que a questão do caráter humano das Escrituras é algo acidental ou periférico: os homens escolhidos por Deus para registrar as Escrituras eram pessoas de carne e osso, que viveram em determinado período histórico enfrentando problemas específicos. Não há lugar para nenhum docetismo: os autores secundários tiveram um papel ativo e passivo. No entanto, devemos também acentuar, e este é o nosso ponto neste texto [1], que o Espírito chamou seus servos, revelou a si mesmo e sua mensagem, dirigiu, inspirou e preservou os registros feitos por esses homens. Como afirmou Gerard Van Groningen:
O Espírito Santo habitou em certos homens, inspirou-os, e assim dirigiu-os que eles, em plena consciência, expressaram-se na sua singular maneira pessoal. O Espírito capacitou homens a conhecer e expressar a verdade de Deus. Ele impediu-os de incluir qualquer coisa que fosse contrária a essa verdade de Deus. Ele também impediu-os de escrever coisa que não eram necessárias. Assim, homens escreveram como homens, mas, ao mesmo tempo, comunicaram a mensagem de Deus, não a do homem [2].
Essa compreensão, que advém das próprias Escrituras, caracteriza distintamente o cristianismo: os profetas não falaram aleatoriamente o que pensavam; antes, “testificaram a verdade de que era a boca do Senhor que falava através deles” [3]. Sobre essa questão Calvino declarou:
Eis aqui o principio que distingue nossa religião de todas as demais, ou seja: sabemos que Deus nos falou e estamos plenamente convencidos de que os profetas não falaram de si próprios, mas que, como órgãos do Espírito Santo, pronunciaram somente aquilo para o qual foram do céu comissionados a declarar. Todos quantos desejam beneficiar-se das Escrituras devem antes aceitar isto como um principio estabelecido, a saber: que a lei e os profetas não são ensinos passados adiante ao bel-prazer dos homens ou produzidos pelas mentes humanas como uma fonte, senão que foram ditados pelo Espírito Santo [4].
Nas Escrituras temos todos os livros que Deus quis que fossem preservados para nossa edificação:
Aquelas [epístolas] que o Senhor quis que fossem indispensáveis à sua Igreja, Ele as consagrou por sua providência para que fossem perenemente lembradas. Saibamos, pois, que o que foi deixado nos é suficiente, e que sua insignificância não acidental; senão que o cânon das Escrituras, o qual se encontra em nosso poder, foi mantido sob controle através do grandioso conselho de Deus [5].
Autor: Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

Leia Mais...

Paradoxo, Mistério e Contradição

Paradoxo, Mistério e Contradição
Mt 13.11; Mt 16.25; Rm 16.25-27; 1 Co 2.7; 1 Co 14.33
A influência de vários movimentos em nossa cultura, tais como a Nova Era, as religiões orientais e a filosofia irracional tem provocado uma crise no entendimento. Uma nova forma de misticismo tem surgido, a qual exalta o absurdo como a marca registrada da verdade religiosa. Lembremo-nos da máxima do Zen Budismo, de que "Deus é uma mão batendo palmas" como uma ilustração desse padrão.
Dizer que Deus é uma mão batendo palmas tem uma ressonância profunda. Tal afirmação confunde a mente consciente, pois é um golpe nos padrões normais de pensamento. Soa "profundo" e intrigante, até analisarmos cuidadosamente e descobrirmos que na raiz é simplesmente destituída de sentido.A irracionalidade é um tipo de caos mental. Fundamenta-se na confusão que se opões ao Autor de toda a verdade, o qual não é de forma alguma autor de confusão.
O Cristianismo bíblico é vulnerável a tais correntes de irracionalidade exaltada, porque irracionalidade admite candidamente que existem muitos paradoxos e mistérios na própria Bíblia. Existem linhas que separam o paradoxo, o mistério e a contradição; embora sejam tênues, essas linhas divisórias são cruciais e é importante que aprendamos a distingui-las.
Quando tentamos perscrutar as profundezas de Deus, somos facilmente confundidos. Nenhum mortal pode compreender a Deus exaustivamente. A Bíblia revela coisas sobre Deus que sabemos serem verdadeiras, a despeito da nossa incapacidade de entendê-las totalmente. Não temos um ponto de referência humano para entender, por exemplo, um ser que é três em termos de pessoa, mas um só em essência (a Trindade), ou um ser que é uma pessoa com duas naturezas distintas, humana e divina (a pessoa de Cristo). Essas verdades, tão certas, como são, são "elevadas" demais para podermos compreendê-las.
Encontramos problemas similares no mundo natural. Sabemos que a força da gravidade existe, mas não a entendemos e nem tentamos defini-la como irracional ou contraditória. A maioria das pessoas concorda que o movimento é uma parte integrante da realidade, embora a essência do movimento em si tenha deixado filósofos e cientistas perplexos por milênios. Isso, porém, não justifica um salto no absurdo. A irracionalidade é fatal tanto para a religião como para a ciência. De fato, ela é mortal para qualquer verdade.
O filósofo cristão Gordon H. Clark certa vez definiu um paradoxo como "uma cãibra entre as orelhas’. Seu comentário espirituoso destina-se a destacar que aquilo que às vezes é chamado de paradoxo frequentemente nada mais é do que preguiça mental. Clark, entretanto, reconhecia claramente o papel legítimo e a função do paradoxo. A palavra paradoxo vem de uma raiz grega que significa "parecer ou aparentar". Paradoxos são difíceis de entender porque à primeira vista "parecem" contradições, mas quando são sujeitos a um exame minucioso, frequentemente pode-se encontrar as soluções. Por exemplo, Jesus disse: "Quem perde a vida por minha causa achá-la-á" (Mt.10.39). Aparentemente, isso soa semelhante à declaração de que "Deus é uma mão batendo palmas". Soa como vida em um sentido, irá encontrá-la em outro sentido. Já que a perda e a salvação têm sentidos diferentes, não há contradição. Eu sou pai e filho ao mesmo tempo, mas obviamente não há contradição. Eu sou pai e filho ao mesmo tempo, mas obviamente não no mesmo relacionamento com a mesma pessoa.
O termo paradoxo é frequentemente mal-interpretado como sendo sinônimo de contradição; agora, inclusive, aparece em alguns dicionários como um significado secundário desse termo. Uma contradição é uma afirmação que viola a lei clássica da não contradição. A Lei da não-contradição declara que A não pode ser A e não-A ao mesmo tempo e no mesmo contexto. Quer dizer, algo não pode ser o que é e não ser o que é ao mesmo tempo e no mesmo contexto. Essa é a mais fundamental de todas as leis da lógica.
Ninguém pode entender uma contradição, porque uma contradição é inerentemente incompreensível. Nem mesmo Deus pode entender contradições; entretanto, certamente ele pode reconhecê-las pelo que são – falsidades. A palavra contradição vem do latim "falar contra". Às vezes é chamada uma antinomia, que significa "contra a lei". Para Deus, falar em contradições seria ser intelectualmente anormal, falar com uma língua bipartida. Até mesmo insinuar que o Autor da verdade poderia cair em contradição seria um grande insulto e uma blasfêmia irresponsável. A contradição é a arma do mentiroso – o pai da mentira, que despreza a verdade.
Existe uma relação entre mistério e contradição, que facilmente nos leva a confundir ambos. Não entendemos mistérios. Não podemos entender contradições. O ponto de contato entre ambos os conceitos é seu caráter ininteligível. Os mistérios podem não ser claros para nós agora simplesmente porque nos falta a informação o u a perspectiva para entendê-los. A Bíblia promete que no céu teremos mais luz sobre os mistérios que agora não podemos entender. Mais luz pode resolver os atuais mistérios. Não existe, entretanto, luz suficiente nem no céu nem na Terra para resolver uma óbvia contradição.
Sumário

1. Paradoxo é uma contradição aparente que, quando examinada com mais cuidado, pode apresentar uma solução.

2. Mistério é algo desconhecido para nós no presente, mas que pode ser solucionado.

3. Contradição é uma violação da Lei da não-contradição. É impossível ser resolvida, tanto pelos mortais como pelo próprio Deus, tanto neste mundo como no mundo vindouro.
Autor: R. C. Sproul

Leia Mais...

Entendendo a palavra de Deus

Entendendo a palavra de Deus
"Dá-me entendimento, guardarei a tua lei; de todo o coração a cumprirei". Salmo 119.34
Todos os cristãos tem o direito e o dever não só de aprender a respeito da herança da fé ensinada pela Igreja, mas também de interpretar as Escrituras por si mesmos. A igreja de Roma, durante certa época, proibiu essa prática, alegando que os indivíduos facilmente interpretariam mal as escrituras.
A Confissão de Westminster concorda que, nas Escrituras, "não são todas as coisas igualmente claras em si, nem do mesmo modo evidentes a todos", mas afirma também claramente a autoridade dos crentes individualmente de lerem a Bíblia por si mesmos..."não só os doutos, mas ainda os indoutos, no devido uso dos meios ordinários , podem alcançar uma suficiente compreensão delas". Os "meios ordinários"incluem princípios de interpretação tais como os que seguem.
A Bíblia é inspirada por Deus, e suas palavras continuam sendo palavras de Deus, mas a Bíblia é também produto de escritores humanos. Compreender isso é essencial. Nenhuma alegoria ou outro método fantasioso que ignora o sentido original expresso do escritor será apropiada.
Cada livro foi escrito, não em código, mas de um modo que pudesse ser entendido pelos leitores a quem foi dirigido. Isso é verdade mesmo a respeito de livros tais como Daniel, Zacarias e Apocalipse, que se valem principalmente de simbolismo; mas a verdade principal é sempre clara, mesmo que os detalhes sejam nebulosos.
Por isso, quando entendemos as palavras usadas, o fundo histórico, as convenções culturais do escritor e de seus leitores, estamos na direção certa para entender os pensamentos comunicados. Porém uma compreensão espiritual , isto é, o discernimento da realidade de Deus, seu modo de tratar com o seu povo, sua vontade presente e o próprio relacionamento do homem com Ele não chegará a nós, a partir do texto, a menos que o véu seja removido do nosso coração e sejamos capazes de participar da própria paixão que o escritor tem por Deus( 2 Coríntios 3.16; 1 Coríntios 2.14). Devemos orar para que o Espírito de Deus gere em nós essa paixão e nos mostre Deus no texto.
(Ver Salmo 119 versículos 18, 19, 26,27,33,34,73,125,144 e 169 - Efésios 1.17-19 e 3.16-19).
Cada livro tomou a sua forma em um tempo específico no processo da revelação da graça de Deus. Esse tempo e lugar dever ser levados em conta quando se interpreta o texto. Os Salmos, por exemplo, apresentam o coração piedoso de qualquer época, mas expressam suas orações e louvores em termos das realidades da vida da graça antes da vinda de Cristo - Tal como a lei cerimonial, o sistema sacrificial e o papel de Israel como um reino teocrático.
Cada livro procedeu da mesma mente divina; por isso o ensino dos sessenta e seis livros(66) da Bíblia é complementar e coerente. Se ainda não podemos perceber isso, a falta está em nós e não nas Escrituras. As Escrituras em parte alguma se contradizem; mais do que isso, uma passagem explica outra. Esse sadio princípio de interpretar as Escrituras pelas Escrituras é, às vezes, chamado de analogia das Escrituras ou analogia da fé.
Cada livro mostra a imutável verdade a respeito de Deus, sobre o mundo e sobre a vontade de Deus para as pessoas, aplicada e ilustrada por situações particulares. O estágio final da interpretação bíblica é a reaplicação de suas verdades às situações de nossa vida hoje. Este é o modo de discernir aquilo que Deus, nas Escrituras, nos está dizendo neste momento. Exemplos de tais reaplicações são a compreensão por Josias da ira de Deus ante o fracasso de Judá em observar a sua lei(2 Reis 22 - 8-13), a argumentação de Jesus sobre Gênesis 2.24(Mateus 19.4-6) e o emprego que Paulo fez de Gênesis 15.6 e Salmo 32.1-2, para mostrar a realidade da presente justificação pela fé(Romanos 4.1-8).
Nenhum significado deve ser atribuído às Escrituras que não possa, com certeza, ser encontrado nela, isto é, que não possa ser mostrado como inequivocamente por um ou mais dos escritores humanos.
A observação cuidadosa e piedosa dessas regras é uma marca de todo cristão que "maneja bem a palavra da verdade"( 2 Timóteo 2.15)
Fonte : Bíblia de Estudo de Genebra, página 703,

Leia Mais...

A autoridade da Bíblia

A autoridade da Bíblia
Nota: AT = Antigo Testamento ; NT= Novo Testamento

EXPLICAÇÃO E BASE BÍBLICA
A autoridade da Escritura significa que todas as palavras da Escritura são palavras de Deus de tal modo que descrer ou desobedecer a qualquer palavra da Escritura é descrer ou desobedecer a Deus.Essa definição pode agora ser examinada em suas várias partes.Todas as palavras na Escritura são palavras de Deus.
1. Isso é o que a Bíblia declara sobre si própria.
Há freqüentes declarações na Bíblia de que todas as palavras da Escritura são palavras de Deus (assim como palavras que foram escritas por homens). No AT, isso é muitas vezes visto na frase introdutória “Assim diz O SENHOR”, que aparece centenas de vezes. No mundo do AT, essa frase teria sido reconhecida como idêntica na forma à frase “Assim diz o rei...”, que era usada para prefaciar o edito de um rei aos seus súditos, um edito que não poderia ser desafiado ou questionado, mas que simplesmente deveria ser obedecido. Portanto, quando os profetas dizem “Assim diz o SENHOR”, afirmam ser mensageiros do soberano Rei de Israel, a saber, o próprio Deus, e estão declarando que suas palavras são palavras totalmente plenas da autoridade de Deus. Quando o profeta falava no nome de Deus desse modo, cada palavra que ele falava tinha de proceder de Deus, ou ele seria um falso profeta (cf. Nm 22.38;Dt 18.18-20; Jr 1.9; 14.14; 23.16-22; 29.31,32; Ez 2.7; 13.1-16).
Além disso, é muitas vezes dito que Deus fala “por meio” do profeta (1 Rs 14.18; 16.12,34; 2Rs 9.36; 14.25; Jr 37.2; Zc 7.7, 12).Assim, o que o profeta diz em nome de Deus é Deus quem diz (1 Rs 13.26 com v.21; lRs 21.19 com 2Rs 9.25,26;Ag 1.12; cf. lSm 15.3, l8).Nesses e em outros exemplos no AT, as palavras que os profetas falavam podem ser também referidas como as palavras que o próprio Deus falou. Portanto, descrer ou desobedecer a qualquer coisa que o profeta diz é descrer ou desobedecer ao próprio Deus (Dt 18.19; lSm 10.8; 13.13,14; 15.3,19,23; 1 Rs 20.35,36).Esses versículos, por si mesmos, não afirmam que todas as palavras no AT sejam palavras de Deus, porque em si mesmos estão se referindo somente a seções específicas de palavras faladas ou escritas no AT. Por força cumulativa dessas palavras, incluindo as centenas de passagens que começam com “Assim diz o Senhor”, deve ficar demonstrado que dentro do AT temos registros escritos de palavras que são consideradas as próprias palavras de Deus. Essas palavras constituem largas porções do AT. Quando percebemos que todas as palavras que faziam parte do “Livro da Lei de Deus” ou do “Livro da Aliança” foram consideradas palavras de Deus, vemos que a totalidade do AT afirma essa espécie de autoridade (v. Êx 24.7; Dt 29.21; 31.24-26; Is 24.26; lSm 10.25; 2Rs 23.2,3).
No NT, várias passagens indicam que todas as palavras dos escritos do AT são consideradas palavras de Deus. 2Timotéo 3.16 diz: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça”. Aqui “Escritura” (gr. graphē)’ deve se referir aos escritos do AT, porque é a eles que a palavra graphē se refere em cada uma das suas 55 ocorrências no NT. Além disso, é às “Sagradas Letras” do AT que Paulo se referiu anteriormente no versículo 15.
Paulo aqui afirma que todos os escritos do AT são theopneustos, inspirados por Deus. Visto que são escritos que foram “inspirados”, essa inspiração deve ser entendida como metáfora de falar as palavras da Escritura. Esse versículo, dessa maneira, afirma brevemente o que era evidente em muitas passagens do AT: OS escritos do AT são considerados Palavra de Deus em forma escrita. Pois Deus é quem falou (e ainda fala) cada palavra do AT, embora tenha usado agentes humanos para registrar essas palavras.
Indicação similar do caráter dos escritos do AT como palavras de Deus é encontrada em 2Pedro 1.21. Falando das profecias da Escritura (v. 20), que significa ao menos as Escrituras do AT as quais Pedro encoraja seus leitores a prestar atenção cuidadosa (v. 19), Pedro diz que nenhuma dessas profecias jamais “teve origem na vontade humana”, mas que “homens falaram da parte de Deus, impelidos pelo Espírito Santo”. Não é a intenção de Pedro negar completamente o papel da volição ou da personalidade humana ao escrever a Escritura (ele diz que homens “falaram”), mas, em vez disso, sua intenção foi dizer que a fonte suprema de cada profecia não foi a decisão do homem a respeito do que ele queria escrever, mas, antes, a ação do Espírito Santo na vida do profeta, cumprida de modos não especificados aqui (ou, de fato, em nenhuma parte da Escritura). Isso indica a crença de que todas as profecias do AT (e, à luz dos v. 19 e 20, provavelmente inclua toda a Escritura registrada do AT) são consideradas “procedentes de Deus”: a saber, elas são as próprias palavras de Deus.
Muitas outras palavras poderiam ser citadas (v. Mt 19.5; Lc 1.70; 24.25; lo 5.45-47; At 3.18,21; 4.25; 13.47; 28.25; Rm 1.2; 3.2; 9.17; lCo 9.8-10; Hb 1.1,2,6,7), mas o padrão de atribuir a Deus as palavras da Escritura do AT deve estar muito claro. Além do mais, em diversos lugares, todas as palavras dos profetas ou as palavras da Escritura do AT levam a essa crença ou nos compelem a crer que são de Deus (v. Lc 24.25,27,44; At 3.18; 24.14; Rm 15.4).
Mas, se Paulo estava se referindo somente aos escritos do AT quando falou de “toda a Escritura” como soprada por Deus em 2Timóteo 3.16, como pode esse versículo ser aplicado aos escritos do NT também? Será que esse versículo diz alguma coisa a respeito do caráter dos escritos do NT? Para responder a essas perguntas, devemos perceber que a palavra grega graphē (“escritura”) era o termo técnico para os escritores do NT e possuía um sentido altamente especializado. Embora ela seja usada 55 vezes no NT, em cada uma delas ela se refere aos escritos do AT, não a quaisquer outras palavras ou escritos fora do cânon da Escritura. Assim, cada coisa que pertencia à categoria “escritura” tinha o caráter de ser “soprada por Deus”: suas palavras eram as verdadeiras palavras de Deus.
Mas em dois lugares no NT vemos os escritos do NT também serem chamados “Escritura” juntamente com os escritos do AT. Em 2Pedro 3.15,16, Pedro diz: “Tenham em mente que a paciência de nosso Senhor significa salvação, como também o nosso amado irmão Paulo lhes escreveu, com a sabedoria que Deus lhe deu. Ele escreve da mesma forma em todas as suas cartas, falando nelas destes assuntos. Suas cartas contêm algumas coisas difíceis de entender, as quais os ignorantes e instáveis torcem, como também o fazem com as demais Escrituras, para a própria destruição deles”.
Aqui Pedro mostra não somente a consciência da existência de cartas escritas de Paulo, mas também a clara disposição de classificar equivalentemente “todas as suas [de Paulo] cartas” com “as demais Escrituras”. Isso é a indicação de que muito cedo na história da igreja todas as cartas de Paulo foram consideradas palavras de Deus em forma escrita no mesmo sentido que os textos escritos do AT. Semelhantemente, em lTimóteo 5.18, Paulo escreve: “... pois a Escritura diz: ‘Não amordace o boi enquanto está debulhando o cereal’, e ‘o trabalhador merece o seu salário”’. A primeira citação vem de Deuteronômio 25.4, mas a segunda não ocorre em nenhum lugar do AT. ao contrário, a citação de Lucas 10.7. Paulo aqui cita as palavras de Jesus conforme encontradas no evangelho de Lucas e as chama “Escritura”.
Essas duas passagens tomadas juntas indicam que durante o tempo do registro dos documentos do NT havia a consciência de que adições foram sendo feitas a essa categoria especial de escritos chamada “escritura”, escritos que tinham o mesmo caráter das verdadeiras palavras de Deus. Assim, uma vez estabelecido que os escritos do NT pertencem à categoria especial de “escritura”, estamos certos em aplicar 2Timóteo 3.16 igualmente àqueles escritos e em dizer que aqueles escritos também possuem a característica que Paulo atribui a “toda a Escritura”: ela é “soprada por Deus”, e todas as suas palavras são as verdadeiras palavras de Deus.
Existe evidência adicional de que os escritores do NT pensaram em seus escritos (não apenas os do AT) como as palavras de Deus? Em alguns casos, há. Em lCoríntios 14.37, Paulo diz: “Se alguém pensa que é profeta ou espiritual, reconheça que o que lhes estou escrevendo é mandamento do Senhor”. Aqui Paulo instituiu regras para a adoração na igreja de Corinto e exigiu que fossem reconhecidas por “mandamento do Senhor”.
Alguém poderia pensar que Paulo achava que suas ordens fossem inferiores às de Jesus Cristo e, portanto, não precisavam ser cuidadosamente obedecidas. Por exemplo, em 1 Coríntios 7.12, ele distingue suas palavras das de Jesus: “Aos outros, eu mesmo digo isto, não o Senhor...”. Isso, contudo, simplesmente significa que ele não tinha conhecimento de nenhuma palavra dita aqui na terra que Jesus houvesse falado sobre o assunto. Podemos perceber que esse é o caso, porque nos versículos 10 e 11 ele simplesmente repetiu o ensino terreno de Jesus de que “a esposa não se separe do seu marido” e “o marido não se divorcie da sua mulher”. Nos versículos de 12 a 15, contudo, Paulo dá as suas instruções acerca de um assunto sobre o qual aparentemente Jesus não falara nada. O que dera a Paulo o direito de agir assim? Paulo diz que falou “como alguém que, pela misericórdia de Deus, é digno de confiança” (lCo 7.25). Ele parece sugerir aqui que seus julgamentos deviam ser considerados como cheios de autoridade, como as ordenanças de Jesus!
Indicações de idéias semelhantes dos escritos do NT são encontrados em João 14.26 e 16.13, onde Jesus prometeu que o Espírito Santo haveria de trazer à lembrança dos discípulos tudo o que ele lhes havia dito e que os guiaria a toda a verdade. Isso aponta para a obra do Espírito de capacitar os discípulos a se lembrarem e registrarem sem erro tudo o que Jesus havia dito. Indicações semelhantes são encontradas também em 2Pedro 3.2; lCoríntios 2.13; 1Tessalonicenses 4.15 e Apocalipse 22.18,19.
2. Ficamos convencidos das declarações da Bíblia de ser a Palavra de Deus à medida que a lemos.
Uma coisa é afirmar que a Bíblia alega ser as palavras de Deus; outra coisa é ser convencido de que essa alegação é verdadeira. Nossa convicção suprema de que as palavras da Bíblia são palavras de Deus vem somente quando o Espírito Santo fala em e por meio das palavras da Bíblia ao nosso coração e nos dá a certeza interior de que essas são as palavras do Criador para nós. Sem a obra do Espírito de Deus, a pessoa nunca receberá ou aceitará a verdade de que as palavras da Bíblia são de fato as palavras de Deus.
Mas para aqueles em quem o Espírito de Deus está operando, há o reconhecimento de que as palavras da Bíblia são as palavras de Deus. Esse processo é intimamente análogo ao qual as pessoas que criam em Jesus sabiam que as palavras dele eram verdadeiras. Ele disse: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem” (Jo 10.27). Os que são ovelhas de Cristo ouvem as palavras de Cristo, o grande Pastor delas, da mesma maneira que lêem as palavras da Escritura, e se convencem de que essas palavras são, de fato, as palavras do seu Senhor.
É importante lembrar que essa convicção de que as palavras da Escritura são as palavras de Deus não vem separada das palavras da Escritura ou em acréscimo às palavras da Escritura. Não é que o Espírito Santo cochiche em nosso ouvido, dizendo: ”Você vê aquela Bíblia sobre a sua escrivaninha? Eu quero que você saiba que as palavras daquela Bíblia são as palavras de Deus”. Ao contrário, enquanto as pessoas lêem a Escritura é que percebem que o livro que estão lendo é diferente de qualquer outro livro, que ele é de fato o livro que contém as próprias palavras de Deus falando ao coração delas.Um movimento teológico influente no século XX foi chamado de neo-ortodoxia. O representante mais importante desse movimento foi o teólogo suíço Karl Barth (1886-1968). Embora muitos de seus escritos tenham proporcionado uma reafirmação bem-vinda dos ensinos da Bíblia, em distinção da incredulidade da teologia liberal da Alemanha, Barth não chegou a afirmar que todas as palavras da Bíblia são as palavras de Deus no sentido em que temos argumentado aqui. Ao contrário, ele disse que as palavras da Escritura tornam-se as palavras de Deus para nós à medida que nos encontramos com elas. Essa foi a razão primária por que os evangélicos não puderam apoiar completamente a neo-ortodoxia de Barth, embora tivessem apreciado muitas das coisas que ele ensinou isoladamente.
3. Outra evidência é útil, mas não totalmente convincente.
A seção anterior não foi proposta para negar a validade de outras espécies de argumentos que podem ser usados para dar apoio à declaração de que a Bíblia é o conjunto das palavras de Deus. É útil para nós aprendermos que a Bíblia é historicamente precisa, internamente coerente, que contém profecias que foram cumpridas centenas de anos mais tarde, que influenciou o curso da história humana mais que qualquer outro livro, que continua a mudar a vida de milhões de indivíduos ao longo de toda a história, que por meio dela pessoas têm encontrado a salvação, que ela tem uma beleza majestosa e uma profundidade muito grande de ensino não alcançada por nenhum outro livro, e que ela afirma centenas de vezes que suas palavras são as palavras de Deus. Todos esses argumentos são úteis para nós e removem obstáculos que poderiam, de outra forma, aparecer no caminho de nossa fé na Escritura. Mas todos eles, tomados individualmente ou em conjunto, não podem convencer de forma final. É isso que a Confissão de é de Westminster de 1643-1646 diz:
Pelo testemunho da Igreja podemos ser movidos e incitados a um alto e reverente apreço pela Escritura Sagrada; a suprema excelência do seu conteúdo, a eficácia da sua doutrina, a majestade de seu estilo, a harmonia de todas as suas partes, o escopo do seu todo (que é dar a Deus toda a glória), a plena revelação que faz do único meio de salvar-se o homem, as suas muitas outras excelências incomparáveis e completa perfeição são argumentos pelos quais abundantemente se evidencia ser ela a palavra de Deus; contudo, a nossa plena persuasão e a certeza da sua infalível verdade e divina autoridade provém da operação interna do Espírito Santo, que pela palavra, e com a palavra testifica em nosso coração. (I,V)
4. As palavras da Escritura são autotestificadoras.
Visto que as palavras da Escritura são “autotestificadoras”, não se pode “provar” que elas são as palavras de Deus no apelo a uma autoridade superior. Se apelarmos, por exemplo, à lógica humana ou à verdade científica para provar que a Bíblia é a Palavra de Deus, então presumimos que a autoridade à qual apelamos é superior às próprias palavras de Deus ou que é mais verdadeiro ou mais confiável. Portanto, a autoridade suprema pela qual a Escritura demonstra ser a Palavra de Deus deve ser a própria Escritura.
5. Objeção: esse é um argumento circular.
Alguém pode objetar que dizer que a própria Escritura demonstra ser as palavras de Deus é um argumento circular: Cremos que a Escritura é a Palavra de Deus porque ela alega isso. E cremos em sua alegação porque a Escritura é a Palavra de Deus. E cremos que ela é a Palavra de Deus porque ela o diz, e assim por diante.Deve-se admitir que esse é uma espécie de argumento circular. Contudo, isso não torna o seu uso inválido, pois todos os argumentos para uma autoridade absoluta devem apelar supremamente para aquela autoridade a fim de que seja provada; de outra forma, a autoridade não seria uma autoridade absoluta ou superior. Esse problema não é exclusivo do cristão que está argumentando pela autoridade da Bíblia. Qualquer pessoa, implícita ou explicitamente, usa alguma espécie de argumento circular quando defende sua autoridade suprema para provar qualquer crença.Alguns poucos exemplos simples ilustrarão os tipos de argumento circular que as pessoas usam para dar apoio às bases de suas crenças:
Minha razão é a autoridade suprema porque isso me parece razoável. A coerência lógica é minha autoridade suprema porque é lógico agir assim. As descobertas das experiências sensoriais dos homens são a autoridade suprema para descobrir o que é real e o que não é, porque nossos sentidos nunca descobriram outra coisa mais: assim, a experiência sensória do homem me diz que o meu princípio é verdadeiro.
Cada um desses argumentos utiliza um raciocínio circular para estabelecer um padrão definitivo para comprovar a verdade.Como então o cristão ou qualquer outra pessoa pode escolher entre as várias reivindicações de autoridade absoluta? De modo definitivo, a veracidade da Bíblia recomenda a si mesma como muito mais persuasiva que outros livros religiosos (como o Livro de Mórmon ou o Alcorão) ou mais que outras construções intelectuais da mente humana (como lógica, razão humana, experiência sensória, metodologia científica etc.). Será que ela é mais persuasiva porque, na real experiência da vida, todas essas outras candidatas a autoridade suprema são vistas como incoerentes ou como tendo defeitos que as desqualificam, ao passo que a Bíblia será vista como estando de pleno acordo com tudo o que sabemos a respeito do mundo ao nosso redor, a respeito de nós mesmos e a respeito de Deus?
A Bíblia recomenda-se a si mesma como persuasiva desse modo, isto é, se estamos pensando corretamente sobre a natureza da realidade, sobre nossa percepção dela e de nós próprios, e sobre nossa percepção de Deus. O problema é que, por causa do pecado, nossa percepção e análise de Deus e da criação são imperfeitas. Portanto, ela requer a obra do Espírito Santo, vencendo os efeitos do pecado, para capacitar-nos a sermos persuadidos de que a Bíblia é, de fato, a Palavra de Deus e que a afirmação que ela faz de si mesma é verdadeira.
Em outro sentido, portanto, o argumento da Bíblia como a Palavra de Deus e nossa autoridade suprema não é um típico argumento circular. Esse processo de persuasão é talvez mais comparável a uma espiral na qual o crescente conhecimento da Escritura e o crescente entendimento correto de Deus e da criação tendem a suplementar um ao outro de modo harmonioso, cada um tendendo a confirmar a precisão do outro. Isso não é o mesmo que dizer que o nosso conhecimento do mundo ao redor serve como autoridade maior que a Escritura, mas, ao contrário, que tal conhecimento, se é o conhecimento correto, continua a dar uma certeza maior e melhor, além de uma convicção mais profunda, de que a Bíblia é a autoridade única e verdadeiramente suprema, e que outras afirmações competidoras de autoridade suprema são falsas.
6. Isso não significa ditado de Deus como o único meio de comunicação.
Neste momento é necessária uma palavra de advertência. O fato de que todas as palavras da Escritura são as palavras de Deus não deve nos levar a pensar que Deus ditou cada palavra da Escritura aos autores humanos.Quando dizemos que todas as palavras da Bíblia são as palavras de Deus, estamos falando a respeito do resultado do processo que trouxe a Escritura à existência. A questão do ditado diz respeito ao processo que conduziu ao resultado ou à maneira pela qual Deus agiu a fim de assegurar o resultado que ele pretendia. Deve ser enfatizado que a Bíblia não fala de um único tipo de processo ou de uma única maneira pela qual Deus comunicou aos autores bíblicos o que ele queria que fosse dito. De fato, há indicação de uma grande variedade de processos que Deus usou para conseguir o resultado desejado.
Uns poucos exemplos esparsos de ditado são mencionados explicitamente na Escritura. Quando ­o apóstolo João viu o Senhor ressuscitado na visão na ilha de Patmos, Jesus lhe falou o seguinte:“Ao anjo da igreja em Éfeso escreva” (Ap 2.1); “Ao anjo da igreja em Esmirna escreva” (Ap 2.8); “Ao anjo da igreja em Pérgamo escreva” (Ap 2.12). Esses são exemplos de puro e simples ditado. O Senhor ressuscitado diz a João o que escrever, e João escreve as palavras que ouve de Jesus.
Porém, em muitas outras seções da Escritura, tal ditado direto de Deus não é certamente a maneira pela qual as palavras da Escritura vieram à existência. O autor de Hebreus diz que Deus falou aos pais pelos profetas “muitas vezes e de várias maneiras” (Hb 1.1). Do outro lado do espectro do ditado temos, por exemplo, a pesquisa histórica ordinária que Lucas empreendeu para escrever seu evangelho. Ele diz: “Muitos já se dedicaram a elaborar um relato dos fatos que se cumpriram entre nós, conforme nos foram transmitidos por aqueles que desde o início foram testemunhas oculares e servos da palavra. Eu mesmo investiguei tudo cuidadosamente, desde o começo, e decidi escrever-te um relato ordenado, ó excelentíssimo Teófilo” (Lc 1.1-3).
Esse claramente não é o processo de ditado. Lucas usou o método comum de conversar com testemunhas oculares e obter dados históricos de forma que pudesse escrever sua narrativa precisa da vida e dos ensinos de Jesus. Fez a pesquisa histórica de maneira completa, ouvindo relatos de muitas testemunhas oculares e avaliando sua evidência cuidadosamente. O evangelho que escreveu enfatiza e reflete seu estilo característico de escrever.
Entre os dois extremos, do ditado por um lado e da pesquisa histórica ordinária por outro, temos muitas indicações de vários modos pelos quais Deus comunicou-se com os autores humanos da Escritura. Em alguns casos, a Escritura fala de sonhos, visões ou de ouvir a voz do Senhor. Em outros casos, ela fala de homens que estiveram com Jesus, observaram sua vida e ouviram seus ensinos, homens cuja lembrança dessas palavras e ações tornou-se completamente precisa pela operação do Espírito Santo, à medida que ele as trazia à memória deles (Jo 14.26). Ao que parece, muitos métodos diferentes foram usados, mas não é importante que descubramos exatamente quais foram eles em cada caso.
Em exemplos em que a personalidade humana e o estilo de escrever do autor estavam proeminentemente envolvidos, como parece ser o caso com a maior parte da Escritura, tudo o que somos capazes de dizer é que a superintendência e a direção providenciais de Deus na vida de cada autor foram de tal ordem que a personalidade e a habilidade deles foram exatamente o que Deus queria que fossem para a tarefa de escrever a Escritura. As origens e o treinamento deles (como a preparação rabínica de Paulo, a de Moisés na casa de Faraó ou o trabalho de Davi como pastor), a capacidade de avaliar eventos no mundo ao redor deles, o acesso que tinham a dados históricos, seu julgamento com relação à exatidão de informações e as circunstâncias individuais quando escreveram foram exatamente o que Deus queria que fossem. Assim, quando eles realmente chegaram a escrever, as palavras eram plenamente as suas próprias palavras, mas também eram plenamente as palavras que Deus queria que eles escrevessem, palavras que Deus também afirmaria serem suas.
Portanto, descrer ou desobedecer a qualquer palavra da Escritura é descrer ou desobedecer a Deus.
A seção anterior argumentou que todas as palavras da Escritura são palavras de Deus. Conseqüentemente, descrer ou desobedecer a qualquer palavra da Escritura é descrer ou desobedecer ao próprio Deus.Assim, Jesus pôde repreender seus discípulos por não crerem nas Escrituras do AT (Lc 24.25: “Como vocês custam a entender e como demoram a crer em tudo o que os profetas falaram!”). Os crentes devem guardar ou obedecer às palavras dos discípulos (Jo 15.20: “... Se obedeceram, à minha palavra, também obedecerão à de vocês”). Os cristãos são encorajados a lembrar-se do “mandamento de nosso Senhor e Salvador que os apóstolos de vocês lhes ensinaram” (2Pe 3.2). Desobedecer aos escritos de Paulo era tornar-se sujeito à disciplina da igreja, como a excomunhão (2Ts 3.14) e a punição espiritual (2Co 13.2,3), incluindo a punição de Deus (esse é o sentido evidente do verbo na voz passiva “será ignorado” em lCo 14.38). Por contraste, Deus se agrada de cada pessoa que “treme” diante da sua palavra (Is 66.2).
Ao longo de toda a história da igreja, os maiores pregadores têm sido os que reconheceram que não possuem autoridade vinda de si mesmos; sua tarefa tem sido a explicação das palavras da Escritura e a sua clara aplicação na vida de seus ouvintes. A pregação deles deriva seu poder não da proclamação de suas experiências cristãs ou das experiências de outros, nem de suas opiniões, idéias criativas ou habilidades retóricas, mas das poderosas palavras de Deus. Essencialmente, eles permaneceram no púlpito, apontaram para o texto bíblico e disseram de fato à sua congregação: “Isso é o que esse versículo quer dizer. Você também vê esse significado aqui? Então, você deve crer nele e obedecer a ele de todo o seu coração, porque o próprio Criador e Senhor está dizendo exatamente isso para você hoje!”. Somente as palavras escritas da Escritura podem dar essa espécie de autoridade à pregação.
Autor: Wayne GrudemFonte: Teologia Sistemática do Autor;

Leia Mais...

A veracidade da Escritura


A veracidade da Escritura
Nota: AT = Antigo Testamento ; NT= Novo Testamento

1. Deus não pode mentir ou falar falsamente.

A essência da autoridade da Escritura é a sua capacidade de compelir-nos a crer nela e a obedecer-lhe, tornando tal crença e obediência equivalentes a crer e a obedecer ao próprio Deus. Porque as coisas são assim, é necessário considerar a veracidade da Escritura, pois, se pensamos que algumas partes da Escritura não são verdadeiras, naturalmente não seremos capazes de crer nelas.Visto que os escritores bíblicos repetidamente afirmam que as palavras da Bíblia, embora humanas, são as próprias palavras de Deus, é apropriado olhar para os textos bíblicos que falam a respeito do caráter das palavras de Deus e aplicá-los ao caráter das palavras da Escritura. Especificamente falando, há certo número de passagens bíblicas que falam a respeito da veracidade da fala de Deus. Tito 1.2 declara que “Deus que não mente”. Porque Deus é um Deus que não pode falar mentiras, suas palavras são sempre confiáveis. Visto que toda a Escritura é falada por Deus, toda a Escritura deve ser verdadeira, como Deus o é. Não pode haver nada que não seja verdadeiro na Escritura. Hebreus 6.18 menciona duas coisas imutáveis (o juramento e a promessa de Deus) “nas quais é impossível que Deus minta”. Aqui o autor não diz meramente que Deus não mente, mas que é impossível para ele mentir. Embora a referência imediata seja somente o juramento e as promessas, se é impossível para Deus mentir nessas declarações, então certamente é impossível para ele mentir.

2. Portanto, todas as palavras da Escritura são completamente verdadeiras e sem erro em qualquer parte.

Visto que as palavras da Bíblia são as palavras de Deus, e visto que Deus não pode mentir ou falar falsamente, é correto concluir que não há nada inverossímil nem nenhum erro em qualquer parte das palavras da Escritura. Encontramos isso afirmado em diversos lugares da Escritura. “As palavras do SENHOR são puras, são como prata purificada num forno, sete vezes refinada” (Sl 12.6).Aqui o salmista usa uma figura vivida para falar da indissolúvel pureza das palavras de Deus; não há nenhuma imperfeição nelas. Também Provérbios 30.5 diz: “Cada palavra de Deus é comprovadamente pura; ele é um escudo para quem nele se refugia”. Isso não se diz apenas de algumas das palavras da Escritura, mas de todas elas. De fato, a Palavra de Deus está firmada no céu por toda a eternidade: “A tua palavra, SFNH0R,para sempre está firmada nos céus” (Sl 119.89). Jesus pode falar da natureza eterna de suas palavras: “Os céus e a terra passarão, mas as minhas palavras jamais passarão” (Mt 24.35). Esses versículos afirmam explicitamente o que estava implícito na exigência de que creiamos em todas as palavras da Escritura, a saber, que não há nada que não seja verdadeiro ou que seja falso afirmado em qualquer das declarações da Bíblia.

3. As palavras de Deus são o padrão supremo de verdade.

Em João 17, Jesus ora ao Pai: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17.17). Esse versículo é interessante porque Jesus não usa um adjetivo, alēthinos ou alēthēs (“verdadeira”), que era o esperado, para dizer que a ”tua palavra é a verdade”. Ao contrário, ele usa um substantivo, alētheia (“verdade”), para dizer que a Palavra de Deus não é simplesmente “verdadeira”, mas é a própria verdade.A diferença é significativa, porque essa afirmação nos encoraja a pensar na Bíblia não simplesmente como “verdadeira” no sentido em que a conformamos ao padrão mais alto de verdade, mas, antes, encoraja-nos a pensar da Bíblia como ela própria o padrão final de verdade. A Bíblia é a Palavra de Deus, e a Palavra de Deus é a definição última do que é verdadeiro e do que não é verdadeiro: a Palavra de Deus, em si mesma, é a verdade. Assim, devemos pensar na Bíblia como o padrão último da verdade, o ponto de referência pelo qual qualquer outra alegação de veracidade possa ser medida.As declarações que se conformam à Escritura são “verdadeiras”, ao passo que as que não se conformam à Escritura não o são.Então, o que é a verdade? A verdade é o que Deus diz, e temos o que Deus diz (exatamente, não exaustivamente) na Bíblia.Essa doutrina da veracidade absoluta da Escritura permanece em contraste claro com a concepção comum na sociedade moderna que muitas vezes é chamada pluralismo. O pluralismo é o pensamento de que cada pessoa tem uma perspectiva sobre a verdade que é tão válida como a perspectiva de outra pessoa qualquer — portanto, não devemos dizer que a religião ou o padrão ético de outra pessoa esteja errado. De acordo com o pluralismo, não podemos conhecer a verdade absoluta; podemos somente ter perspectivas e expectativas próprias. Naturalmente, se o pluralismo é verdadeiro, a Bíblia não pode ser o que ela declara ser: as palavras que o único e verdadeiro Deus, o criador e juiz de todo o mundo, nos tem falado.O pluralismo é um aspecto do pensamento contemporâneo global do mundo chamado pós-modernismo. O pós-modernismo não sustentaria simplesmente que nunca podemos encontrar a verdade absoluta; ele diria que a verdade absoluta não existe. Todas as tentativas de afirmar a verdade em uma ou em outra idéia são justamente o resultado de nossa origem, cultura, tendências, projetos pessoais (especialmente nosso desejo de poder). Tal visão do mundo, é claro, opõe-se diretamente à visão bíblica, que vê a Bíblia como verdade que nos foi dada da parte de Deus.

4. Podem alguns fatos novos contradizer a Bíblia?
Poderá qualquer novo fato científico ou histórico que venha a ser descoberto contradizer a Bíblia? Aqui podemos dizer com confiança que isso nunca acontecerá — é algo impossível. Se qualquer “fato” suposto for descoberto que seja considerado contrário à Escritura, então (se entendemos a Escritura corretamente) tal “fato” deve ser falso, porque Deus, o autor da Escritura, conhece todos os fatos verdadeiros (passados, presentes e futuros). Nenhum acontecimento inesperado aparecerá do qual Deus não tenha tido conhecimento no passado e que não tenha levado em conta quando fez a Escritura ser escrita. Cada fato verdadeiro é algo que Deus já conhecia desde toda a eternidade e, portanto, não poderia contradizer as palavras de Deus na Escritura.Não obstante, deve ser lembrado que o estudo científico ou histórico (assim como outras espécies de estudo da criação) pode fazer-nos reexaminar a Escritura para ver se ela realmente ensina o que pensamos que ela ensinava. Por exemplo, a Bíblia não ensina que o sol gira ao redor da terra só porque ela usa descrições dos fenômenos como os vemos de nossa perspectiva, nem pretende descrever as operações do universo de algum ponto “fixo” arbitrário em algum lugar no espaço. Todavia, até o estudo da astronomia ter avançado o suficiente para demonstrar a rotação da terra sobre o próprio eixo, as pessoas presumiam que a Bíblia ensinava que o sol girava ao redor da terra. Assim, o estudo dos dados científicos levou ao reexame dos textos bíblicos apropriados. Portanto, todas as vezes que confrontados algum “fato” que parece contradizer a Escritura, devemos não somente examinar os dados apresentados para demonstrar o fato em questão; devemos também reexaminar os textos bíblicos apropriados para ver se a Bíblia realmente ensina o que pensamos que ela ensina. Podemos fazer isso com confiança, pois nenhum fato verdadeiro jamais contrariará as palavras do Deus que conhece todos os fatos e que nunca mente.


Autor: Wayne GrudemFonte: Teologia Sistemática do Autor;

Leia Mais...

A clareza, a necessidade e a suficiência da Bíblia.

A clareza, a necessidade e a suficiência da Bíblia.
Nota: AT= Antigo Testamento ; NT = Novo Testamento

Somente os estudiosos da Bíblia podem entendê-la corretamente?Para que propósitos a Bíblia é necessária?Será que a Bíblia é suficiente para conhecermos o que Deus quer que pensemos ou façamos?Depois de estudar no capítulo 2 sobre a autoridade que a Bíblia afirma possuir, voltamo-nos agora para outras três características da Escritura para completar a nossa discussão a respeito do que a Bíblia ensina sobre si mesma.

EXPLICAÇAO E BASE BÍBLICA

Qualquer pessoa que tenha começado a ler a Bíblia com seriedade haverá de perceber que algumas partes dela podem ser entendidas muito facilmente, ao passo que outras partes parecem mais difíceis. Embora devamos admitir que nem todas as partes da Escritura sejam facilmente entendidas, seria um erro pensar que a maior parte da Escritura ou que a Escritura em geral seja difícil de ser entendida. De fato, o AT e o NT muitas vezes afirmam que a Escritura é escrita de tal forma que seus ensinos são inteligíveis para crentes comuns. Portanto, examinaremos primeiro a doutrina da clareza da Escritura.Além da questão de nossa capacidade de entender a Escritura, temos a questão de sua necessidade: Precisamos conhecer o que a Bíblia diz para saber que Deus existe? Ou que somos pecadores necessitados de salvação? Essa é a espécie de perguntas que a investigação da necessidade da Escritura pretende responder.Finalmente, faremos uma breve análise da suficiência da Escritura. Devemos procurar outras palavras de Deus em adição às que já temos na Escritura? Será que a Bíblia é suficiente para que conheçamos o que Deus requer que creiamos ou façamos? A doutrina da suficiência da Escritura focaliza essas perguntas.

A. A clareza da Escritura

1. A Bíblia muitas vezes afirma a própria clareza.

A Bíblia muitas vezes fala de sua clareza e da responsabilidade dos crentes de lê-la e de entendê-la. Em uma passagem muito conhecida, Moisés diz ao povo de Israel: “Que todas estas palavras que hoje lhe ordeno estejam em seu coração. Ensine-as com persistência a seus filhos. Converse sobre elas quando estiver sentado em casa, quando estiver andando pelo caminho, quando se deitar e quando se levantar” (Dt 6.6,7). Esperava-se que todas as pessoas de Israel fossem capazes de entender as palavras da Escritura o suficiente para conseguir ensiná-las a seus filhos. Esse ensino não consistiria meramente em memorização mecânica esvaziada de entendimento, porque o povo de Israel deveria discutir as palavras da Escritura durante suas atividades, quando estivesse assentado em suas casas, ou ao se deitar ou ao se levantar pela manhã. Deus esperava que todos dentre o seu povo conhecessem e fossem capazes de falar a respeito de sua Palavra com a devida aplicação às situações comuns da vida.

É dito que o caráter da Escritura é de tal modo que mesmo “os inexperientes” podem compreendê-la corretamente, tornando-se sábios. “Os testemunhos do SENHOR são dignos de confiança, e tornam sábios os inexperientes” (Sl 19.7). Em outro lugar lemos que “a explicação das tuas palavras ilumina e dá discernimento aos inexperientes” (Sl 119.130). Aqui, a pessoa “inexperiente” não é meramente a que carece de capacidade intelectual, mas a que carece de julgamento sadio, que é propensa a cometer erros e que é facilmente induzida ao erro. A Palavra de Deus é inteligível, tão clara que torna sábia até mesmo essa espécie de pessoa. Isso deve servir de grande encorajamento a todos os crentes. Nenhum crente deve pensar de si mesmo como se fosse incapaz de ler a Escritura e de entendê-la suficientemente para se tornar sábio por meio dela.
Há uma ênfase semelhante no NT. O próprio Jesus, em seus ensinos, suas conversas e discussões, nunca responde a quaisquer perguntas com o intento de acusar as Escrituras do AT de não serem claras. Ao contrário, estivesse ele falando a estudiosos ou a pessoas comuns sem preparo, suas respostas sempre presumem que a acusação de entendimento errôneo de qualquer ensino da Escritura não deve ser colocada sobre a Escritura, mas sobre os que a entendem erroneamente ou que se recusam a aceitar o que está escrito. Repetidamente ele responde a perguntas com afirmações semelhantes a estas: “Vocês não leram...”(Mt 12.3,5; 19.14; 22.31),”Vocês nunca le­ram isto nas Escrituras?” (Mt 2 1.42), ou mesmo: “Vocês estão enganados porque não conhecem as Escrituras nem o poder de Deus!” (Mt 22.29; v. tb. Mt 9.13; 12.7; 15.3; 21.13; Jo 3.10).
Para que não pensemos que o entendimento da Bíblia era de certo modo mais fácil para os cristãos do primeiro século que para nós, é importante percebermos que em muitos exemplos as cartas do NT foram escritas a igrejas que tinham grandes percentuais de cristãos gentílicos. Eles eram cristãos relativamente novos que não tinham nenhum conhecimento prévio de qualquer espécie de sociedade cristã, e que tinham pouco ou nenhum entendimento anterior da história e da cultura de Israel. Os eventos da vida de Abraão (c. 2000 a.C.) estavam no passado tão distante deles como os eventos do NT estão de nós! Não obstante, os autores do NT não mostraram qualquer hesitação, esperando que mesmo esses cristãos gentios fossem capazes de ler uma tradução do AT em sua língua e de entendê-la corretamente (v.Rm 4.1-25; 15.4; lCo 10.1-11; 2Tm 3.16,17 ).

2. As qualidades morais e espirituais necessárias para o entendimento correto.

Os escritores do NT muitas vezes afirmam que a capacidade de entender a Escritura corretamente é mais uma capacidade moral e espiritual que intelectual: “Quem não tem o Espírito não aceita as coisas que vêm do Espírito de Deus, pois lhe são loucura; e não é capaz de entendê-las, porque elas são discernidas espiritualmente” (1 Co 2.14; cf. 1.18—3.4; 2Co 3.14-16; 4.3,4,6; Hb 5.14; Tg 1.5,6; 2Pe 3.5; cf. Mc 4.11,12; Jo 7.17; 8.43). Assim, embora os autores do NT afirmem que a Bíblia em si mesma seja escrita com clareza, eles também afirmam que ela não será entendida corretamente por aqueles que não estão desejosos de receber seus ensinos. A Escritura é capaz de ser entendida por todos os descrentes que vão lê-la sinceramente buscando salvação e pelos crentes que a lerão procurando a ajuda de Deus para entendê-la. Isso acontece porque, em ambos os casos, o Espírito Santo opera vencendo os efeitos do pecado, que de outra forma fariam a verdade parecer tolice (lCo 1.18-25; 2.14; Tg 1.5,6,22-25).

3. Definição de clareza da Escritura.

A fim de resumir esse material bíblico, podemos afirmar ­que a Bíblia foi escrita de tal modo que todas as coisas necessárias para a salvação e para nossa vida cristã e nosso crescimento são muito claramente demonstradas na Escritura. Embora certos teólogos já tenham definido a clareza da Escritura de modo mais estrito (dizendo, por exemplo, que ela é clara somente no ensino do caminho da salvação), os textos citados anteriormente aplicam—se a muitos aspectos diferentes do ensino bíblico e não parecem dar apoio a tal limitação às áreas em que se considera que ela fala claramente. Parece mais fiel aos textos bíblicos citados definir a clareza da Escritura do seguinte modo: A clareza da Escritura significa que a Bíblia foi escrita de tal modo que seus ensinos são passíveis de ser entendidos por todos que a lêem procurando pela ajuda de Deus e que estão desejosos de recebê-la. Uma vez que afirmemos isso, contudo, devemos também reconhecer que muitas pessoas, mesmo as do povo de Deus, ainda compreendem erroneamente a Escritura.

4. Por que as pessoas compreendem erroneamente a Escritura?

Durante o tempo do ministério de Jesus, os próprios discípulos às vezes falharam no entendimento do AT e até de seus ensinos (v. Mt 15.16; Mc 4.10-13; 6.52; 8.14-21; 9.32; Lc 18.34; Jo 8.27; 10.6). Embora isso algumas vezes se deva ao fato de que eles simplesmente precisavam esperar por eventos adicionais na história da redenção, e especialmente na vida do próprio Cristo (v. Jo 12.16; 13.7; cf. Jo 2.22), houve também ocasiões em que isso aconteceu devido à própria falta de fé deles ou à sua dureza de coração (Lc 24.25). Além disso, houve momentos na igreja primitiva quando os cristãos não entenderam ou não concordaram com os ensinos do AT ou a respeito das cartas escritas pelos apóstolos: observe o processo de crescimento em entendimento quanto às implicações da inclusão dos gentios na igreja (culminando em “muita discussão” [At 15.7] no Concílio de Jerusalém em Atos 15), e observe o entendimento errôneo que Pedro teve desse assunto em Gálatas 2.11-15. De fato, no decorrer de toda a história da igreja, as discordâncias doutrinárias têm sido muitas, e o progresso na resolução dessas diferenças doutrinárias foi muitas vezes lento.A fim de ajudar as pessoas a evitar erros na interpretação da Escritura, muitos professores de Bíblia têm desenvolvido “princípios de interpretação”, ou orientações para encorajar o crescimento na habilidade de interpretar a Escritura corretamente.
A palavra hermenêutica (do grego hermeneuõ, “interpretar”) é o termo mais técnico para esse campo de estudo: Hermenêutica é o estudo dos métodos corretos de interpretação (especialmente a interpretação da Escritura).

Outro termo técnico muitas vezes usado nas discussões sobre a interpretação bíblica é exegese, termo que se refere mais à prática real de interpretar a Escritura, não às teorias e princípios a respeito de como isso deveria ser feito: Exegese é o processo de interpretar o texto da Escritura. Conseqüentemente, quando alguém estuda os princípios de interpretação, isso é chamado “hermenêutica”, mas quando a pessoa aplica esses princípios e começa realmente a explicar o texto bíblico, ele está fazendo “exegese”.A existência de muitas discordâncias a respeito do significado da Escritura no decorrer de toda a história nos lembra que a doutrina da clareza da Escritura não implica ou sugere que todos os crentes haverão de concordar em todos os ensinos da Escritura. Não obstante, ela nos diz algo muito importante — que o problema sempre repousa não na Escritura, mas em nós mesmos. Afirmamos que todos os ensinos da Escritura são claros e passíveis de ser entendidos, mas também reconhecemos que as pessoas muitas vezes (por causa de seus defeitos) entendem erroneamente o que está claramente escrito na Escritura.

Portanto, à medida que as pessoas crescem na vida cristã, adquirindo mais conhecimento da Escritura conforme gastam tempo estudando-a, haverão de entendê-la melhor. A doutrina da clareza da Escritura diz que a Escritura é passível de ser entendida, não que todos a entenderão igualmente.

5. Encorajamento prático dessa doutrina.

A doutrina da clareza da Escritura tem uma implicação prática muito importante e extremamente encorajadora. Ela nos diz que onde há áreas de discordância doutrinária ou ética (por exemplo, sobre o batismo, predestinação ou governo da igreja), há somente duas causas possíveis de discordância: 1) De um lado, pode ser que estejamos procurando fazer afirmações onde a Escritura silencia. Em tais casos, devemos estar mais preparados para admitir que Deus não tem dado resposta à nossa investigação e permitir que haja diferentes perspectivas dentro da igreja. (Esse muitas vezes é o caso com respeito a diversas questões práticas, como métodos de evangelização, estilos de ensino bíblico ou tamanho apropriado de igreja). 2) De outro lado, é possível que tenhamos cometido erros em nossa interpretação da Escritura. Isso pode ter acontecido porque os dados que usamos para decidir uma questão de interpretação foram inexatos ou incompletos. Ou isso se deve a algumas insuficiências pessoais de nossa parte, como orgulho pessoal, avidez, falta de fé, egoísmo, ou mesmo falha em dedicar tempo suficiente à leitura e estudo da Escritura acompanhados de oração.

Mas em nenhum caso somos livres para dizer que o ensino da Bíblia sobre qualquer assunto seja confuso ou não seja passível de ser entendido corretamente. Em nenhum caso devemos pensar que as discordâncias persistentes sobre algum assunto no decorrer da história da igreja signifiquem que não sejamos capazes de chegar à conclusão correta sobre a questão. Antes, se a preocupação genuína a respeito de tal assunto surge em nossa vida, devemos sinceramente buscar a ajuda de Deus e, então, ir à Escritura, pesquisando com toda a nossa aptidão, crendo que Deus irá nos capacitar para termos o entendimento correto.

6. O papel dos estudiosos.

Existe algum papel a ser desempenhado pelos estudiosos da Bíblia ou por aqueles com conhecimento especializado em hebraico (para o AT) e em grego (para o NT)? Certamente há uma função para eles em ao menos quatro áreas.

Primeiro, eles podem ensinar a Escritura com muita clareza, comunicando o seu conteúdo a outros, e assim cumprem o ofício de ”mestre”, que é mencionado no NT (lCo 12.28; Ef 4.11).

Segundo, eles podem explorar novas áreas para o entendimento dos ensinos da Escritura. Essa exploração raramente envolverá a negação dos principais ensinos que a igreja tem sustentado através dos séculos; muitas vezes, no entanto, envolverá a aplicação da Escritura a novas áreas da vida, em resposta às questões difíceis que têm sido levantadas tanto por crentes como por não-crentes em cada novo período da história, bem como a contínua atividade de refinar e tornar mais preciso o entendimento da igreja dos pontos detalhados de interpretação de versículos isolados ou de assuntos de doutrina ou de ética.

Terceiro, eles podem defender os ensinos da Bíblia contra os ataques de outros estudiosos ou daqueles com treinamento técnico especializado. O papel de ensino da Palavra de Deus às vezes envolve a correção de falsos ensinos. Uma pessoa deve ser capaz não somente de “encorajar outros pela sã doutrina”, mas também de “refutar os que se opõem a ela” (Tt 1.9; 2Tm 2.25: “Deve corrigir com mansidão os que se lhe opõem...”; e Tt 2.7,8). Algumas vezes, os que atacam os ensinos bíblicos têm treinamento especializado e conhecimento técnico em estudos históricos, lingüísticos ou filosóficos e usam esse preparo para montar ataques sofisticados contra o ensino da Escritura. Em tais casos, os crentes com habilidades especializadas semelhantes podem usar seu preparo para entender e responder a tais ataques.

Em última análise, eles podem suplementar o estudo da Escritura para o benefício da igreja. Estudiosos da Bíblia muitas vezes têm o preparo que os capacitará a relacionar os ensinos da Escritura à rica história da igreja e a tornar a interpretação da Escritura mais precisa, bem como o seu significado mais vívido, relacionado ao conhecimento maior das línguas e culturas nas quais a Bíblia foi escrita.
Essas quatro funções beneficiam a igreja como um todo, e todos os crentes devem ser agradecidos por aqueles que as realizam. Contudo, essas funções não incluem o direito de decidir pela igreja como um todo qual é a verdadeira ou falsa doutrina, ou qual é a conduta adequada para uma situação difícil. Se tal direito de preservação fosse dos estudiosos da Bíblia formalmente treinados, então eles se tornariam a elite governante na igreja, e o funcionamento ordinário do governo da igreja, como descrito no NT, cessaria de existir. O processo de tomar decisões pela igreja deve ser deixado aos oficiais da igrejas, sejam eles estudiosos ou não (e, nas igrejas onde há a forma congregacional de governo, não somente aos oficiais, mas também às pessoas da igreja como um todo).

B. A necessidade da Escritura

A necessidade da Escritura pode ser definida do seguinte modo: A necessidade da Escritura significa que a Bíblia é necessária para o conhecimento do evangelho, para a manutenção da vida espiritual e para certo conhecimento da vontade de Deus, mas não é necessária para saber que Deus existe ou para saber algo a respeito do caráter de Deus e das leis morais.Essa definição pode agora ser explicada em suas várias partes.

1. A Bíblia é necessária para o conhecimento do evangelho.

Em Romanos 10.13,14,17, Paulo diz: “...porque ‘todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo’. Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão, se não houver quem pregue? [...] Conseqüentemente, a fé vem por se ouvir a mensagem, e a mensagem é ouvida mediante a palavra de Cristo”.

Essa afirmação indica a seguinte linha de raciocínio: 1) Ela presume que a pessoa deve invocar o nome do Senhor a fim de ser salva. (No uso paulino em geral, assim como no contexto específico [cf.v.9],”Senhor”refere-se ao Senhor Jesus Cristo.) 2)As pessoas só podem invocar o nome de Cristo se crêem nele (isto é, aquele que é o Salvador digno de ser invocado, que responderá aos que o invocam). 3) As pessoas não podem crer em Cristo a menos que tenham ouvido a respeito dele. 4) Elas não podem ouvir de Cristo a menos que haja alguém que lhes fale a respeito de Cristo (um “pregador”). 5) A conclusão é que a fé salvadora vem pelo ouvir — isto é, por ouvir a mensagem do evangelho — e ouvir a mensagem do evangelho vem por meio da pregação de Cristo. A conclusão parece ser que, sem ouvir a pregação do evangelho de Cristo, ninguém pode ser salvo.

Essa passagem é uma das diversas que mostra que a salvação eterna vem somente por meio da fé em Jesus Cristo, e não de Outro modo. Falando de Cristo, João 3.18 diz: “Quem nele crê não e condenado, mas quem não crê já está condenado, por não crer no nome do Filho Unigênito de Deus”. De modo semelhante, em João 14.6, Jesus diz: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim”.’Mas se as pessoas podem ser salvas somente por meio da fé em Cristo, alguém poderia perguntar como os crentes da antiga aliança podiam ser salvos. A resposta deve ser que os que foram salvos sob a antiga aliança foram salvos por meio da confiança em Cristo, embora sua fé fosse um “olhar adiante” baseado na palavra da promessa de Deus de que o Messias ou o Redentor haveria de vir. Falando dos crentes do AT como Abel, Enoque, Noé, Abraão e Sara, o autor de Hebreus diz: “Todos estes vive ram pela fé, e morreram sem receber o que tinha sido prometido; viram-no de longe...” (Hb 11.13). E Jesus pôde dizer de Abraão: “Abraão, pai de vocês, regozijou-se porque veria o meu dia; ele o viu e alegrou-se” (Jo 8.56). Isso se refere certamente à alegria de Abraão em olhar em direção ao dia do Messias prometido. Assim, mesmo os crentes do AT possuíam fé salvadora em Cristo, para quem eles olharam, não com o conhecimento exato dos detalhes históricos da vida de Cristo, mas com grande fé na absoluta confiabilidade da palavra da promessa de Deus.A Bíblia é necessária para a salvação, portanto, neste sentido: uma pessoa deve ler a mensagem do evangelho da Bíblia por si própria ou ouvi-la de outra pessoa. Mesmo os crentes que alcançaram a salvação na antiga aliança obtiveram-na quando confiaram nas palavras de Deus que prometiam o Salvador que estava para vir.Há outras idéias que diferem deste ensino bíblico. O inclusivismo é o pensamento de que as pessoas podem ser salvas pela obra de Cristo sem conhecer nada a respeito dele e sem confiar nele, mas simplesmente por seguirem sinceramente a religião que conhecem. Os inclusivistas freqüentemente falam a respeito de “muitos caminhos diferentes para Deus” mesmo que enfatizem que eles pessoalmente crêem em Cristo. O universalismo é o pensamento de que todas as pessoas, em última instância, serão salvas. O pensamento sustentado neste capítulo de que as pessoas não podem ser salvas sem conhecer a respeito de Cristo e da confiança nele é por vezes chamado exclusivismo (embora a palavra em si mesma não seja feliz, por sugerir um desejo excluir outros e, desse modo, falhe em transmitir o tema do alcance missionário, tão forte no NT).

2. A Bíblia é necessária para a manutenção da vida espiritual.

Jesus diz em Mateus 4.4 (citando Dt 8.3) que “nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus”. Aqui Jesus indica que nossa vida espiritual é mantida pela nutrição diária com a Palavra de Deus, exatamente como nossa vida física é mantida pela nutrição diária com comida física. Negligenciar a leitura regular da Palavra de Deus é prejudicial para a saúde de nossa alma, como negligenciar a comida física é prejudicial para a saúde de nosso corpo.

3. A Bíblia é necessária para o conhecimento seguro da vontade de Deus.

Será argumentado adiante que todas as pessoas nascidas possuem algum conhecimento da vontade de Deus por meio de sua consciência. Mas esse conhecimento é muitas vezes indistinto e não pode comunicar certeza. De fato, se não houvesse nenhuma Palavra de Deus escrita, não poderíamos nunca adquirir certeza a respeito da vontade de Deus por outros meios, como o conselho de outros, o testemunho interno do Espírito Santo, circunstâncias mudadas e o uso do raciocínio santificado e do senso comum. Esses meios todos poderiam dar uma aproximação da vontade de Deus de modo mais ou menos confiável, mas somente por intermédio deles nenhuma certeza da vontade de Deus poderia ser obtida, ao menos no mundo decaído onde o pecado distorce a nossa percepção do que é certo e do que é errado, conduz ao raciocínio errôneo em nosso processo de pensamento e suprime de vez em quando o testemunho de nossa consciência (cf. Jr 17.9; Rm 2.14,15; lCo 8.10; Hb 5.14; 10.22; v. tb. lTm 4.2; Tt 1.15).

Na Bíblia, contudo, temos afirmações claras e definidas a respeito da vontade de Deus. Deus não nos revelou todas as cosias, mas nos revelou o suficiente para sabermos sua vontade: “As coisas encobertas pertencem ao SENHOR, o nosso Deus, mas as reveladas pertencem a nós e aos nossos filhos para sempre, para que sigamos todas as palavras desta lei” (Dt 29.29). Como foi no tempo de Moisés, assim é conosco hoje: Deus nos revelou suas palavras a fim de que pudéssemos obedecer a suas leis e, desse modo, fazer sua vontade. Ser “irrepreensível” à vista de Deus é viver “conforme a lei do SENHOR” (Sl 119.1). O homem “feliz” é aquele que não segue o conselho dos ímpios (S1 1.1), mas “sua satisfação está na lei do SENHOR” (Sl 1.2). Amar a Deus (e, assim, agir de modo que o agrade) é “obedecer aos seus mandamentos” (1Jo 5.3). Se podemos ter certo conhecimento da vontade de Deus, devemos obtê-lo mediante o estudo da Escritura.De fato, em certo sentido pode ser argumentado que a Bíblia é necessária para se obter algum conhecimento a respeito de qualquer coisa. Um filósofo poderia argumentar da seguinte maneira:O fato de que não conhecemos tudo requer de nós que estejamos incertos a respeito de cada coisa que afirmamos conhecer. Isso é assim porque algo que desconhecemos pode ainda surgir para provar que o que pensamos ser verdadeiro é realmente falso. Contudo, Deus conhece todos os fatos que aconteceram ou acontecerão. E este Deus, que nunca mente, falou-nos na Escritura, na qual ele nos declara muitas coisas a respeito de si mesmo, de nós próprios e do universo que criou. Nenhum fato pode jamais surgir para contradizer a verdade falada por Aquele que é onisciente.Assim, é apropriado para nós estar mais seguros a respeito das verdades que lemos na Escritura do que sobre qualquer outro conhecimento que temos. Se fôssemos falar a respeito de graus de certeza de conhecimento que temos, então o conhecimento que obtemos da Escritura teria o mais alto grau de certeza. Se a palavra certo pode ser aplicada a qualquer espécie de conhecimento humano, ela pode ser aplicada a este conhecimento. Os cristãos que sustentam a Bíblia como Palavra de Deus livram-se do ceticismo filosófico a respeito da possibilidade de obter conhecimento seguro com nossa mente finita. Nesse sentido, então, é correto dizer que, para pessoas que não são oniscientes, a Bíblia é necessária para o conhecimento seguro a respeito de tudo.

4. Mas a Bíblia não é necessária para se saber que Deus existe ou para saber algo a respeito do caráter de Deus e das leis morais.

Que dizer de pessoas que não lêem a Bíblia? Elas podem obter algum conhecimento de Deus? Elas podem conhecer certas coisas a respeito de suas leis? Sim, é possível algum conhecimento de Deus sem a Bíblia, mesmo que não seja um conhecimento seguro.

a. A revelação geral e a revelação especial. As pessoas podem obter o conhecimento de que Deus existe e de alguns de seus atributos simplesmente por observar a si mesmas e ao mundo que as rodeia. Davi diz: “Os céus declaram a glória de Deus; o firmamento proclama a obra das suas mãos” (Sl 19.1). Olhar para o céu significa ver a evidência do infinito poder, sabedoria e mesmo beleza de Deus; significa observar o testemunho majestoso da glória de Deus.Mesmo aqueles que, por sua impiedade, suprimem a verdade, não podem evitar as evidências da existência e da natureza de Deus na ordem da criação:Pois o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais homens são indesculpáveis; porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe renderam graças, mas os seus pensamentos tornaram-se fúteis e o coração insensato deles obscureceu-se Rm 1.19-21).Aqui Paulo não diz somente que a criação dá evidência da existência e do caráter de Deus, mas também que mesmo os ímpios reconhecem essa evidência. O que pode ser conhecido a respeito de Deus “é manifesto entre eles”, e realmente eles conheceram Deus (ao que parece, eles conheceram quem ele era), mas “não o glorificaram como Deus, nem lhe renderam graças”. Essa passagem nos permite dizer que todas as pessoas, mesmo as mais ímpias, possuem algum conhecimento interno ou percepção de que Deus existe e que ele é o Criador poderoso. Esse conhecimento é visto “por meio das coisas criadas”, expressão que se refere a toda a criação, incluindo a raça humana.Paulo continua a mostrar em Romanos 1 que mesmo os descrentes que não possuem nenhum registro escrito das leis de Deus ainda têm em suas consciências algum entendimento das exigências morais de Deus. Falando de uma longa lista de pecados (“inveja, homicídio, rivalidades, engano...”), Paulo diz dos ímpios que os praticam: “Embora conheçam o justo decreto de Deus, de que as pessoas que praticam tais coisas merecem a morte, não somente continuam a praticá-las, mas também aprovam aqueles que as praticam” (Rm 1.32). Os ímpios sabem que seus pecados são errados, ao menos em grande medida.Paulo fala então a respeito da atividade da consciência nos gentios que não possuem a lei escrita: “De fato, quando os gentios, que não têm a Lei, praticam naturalmente o que ela ordena, tornam-se lei para si mesmos, embora não possuam a Lei; pois mostram que as exigências da Lei estão gravadas em seu coração. Disso dão testemunho também a sua consciência e os pensamentos deles, ora acusando-os, ora defendendo-os” (Rm 2.14,15).A consciência dos descrentes testemunha dos padrões morais de Deus, mas às vezes essa evidência da lei de Deus no coração deles é distorcida ou suprimida. Às vezes seus pensamentos os acusam e às vezes seus pensamentos os defendem, diz Paulo. O conhecimento das leis de Deus derivado de tais fontes nunca é perfeito, mas é suficiente para criar a consciência das exigências morais de Deus para toda a raça humana. (E é com base nisso que Paulo argumenta que toda a humanidade é considerada culpada diante de Deus pelo pecado, mesmo os que não possuem as leis escritas de Deus na Escritura).O conhecimento da existência, do caráter e da lei moral de Deus, que vem por meio da criação para toda a humanidade, é muitas vezes chamado “revelação geral” (porque ela vem a todas as pessoas).A revelação geral vem por meio da observação da natureza, por meio da percepção da influência direta de Deus na história e por meio do senso interior da existência de Deus e de suas leis que ele colocou dentro de cada pessoa. A revelação geral é distinta da revelação especial, que se refere às palavras de Deus dirigidas a pessoas específicas, como as palavras que estão na Bíblia, as palavras dos profetas do AT e dos apóstolos do NT, e as palavras de Deus faladas diretamente, como aquelas ditas no monte Sinai e no batismo de Jesus.O fato de que todas as pessoas conhecem alguma coisa das leis morais de Deus é uma grande bênção para a sociedade, pois sem elas não haveria restrição social à prática do mal que as pessoas cometeriam nem refreamento vindo de suas consciências. Porque há algum conhecimento comum do certo e do errado, os cristãos podem muitas vezes estabelecer grande consenso com os não-cristãos em matéria da lei civil, padrões de comunidade, ética básica de negócios e de atividade profissional, além de padrões de conduta aceitáveis na vida cotidiana. O conhecimento da existência e do caráter de Deus também proporciona uma base de informação que capacita o evangelho a fazer sentido para o coração e a mente do não-cristão; os descrentes sabem que Deus existe e que eles quebraram os seus padrões, de modo que as novas de que Cristo morreu para pagar por seus pecados deveriam soar verdadeiramente como boas novas para eles.

b A revelação especial é necessária para a salvação. Contudo, deve ser enfatizado que em nenhum lugar a Escritura indica que as pessoas podem conhecer o evangelho, ou o caminho da salvação, por meio da revelação geral. Elas podem saber que Deus existe, que ele as criou, que elas lhe devem obediência e que elas pecaram contra ele. Mas como a santidade e a justiça de Deus podem ser conciliadas com o seu desejo de perdoar pecados é um mistério que nunca foi resolvido por religião alguma à parte da Bíblia. Nem a Bíblia nos dá qualquer esperança de que tal mistério possa ser desvendado independentemente da revelação específica de Deus. É uma grande maravilha de nossa redenção que o próprio Deus tenha providenciado o caminho de salvação por enviar o próprio Filho, que é tanto Deus como homem, para ser o nosso representante e suportar a penalidade de nossos pecados, combinando dessa forma a justiça e o amor de Deus de modo infinitamente sábio e por meio de um ato maravilhosamente gracioso. Esse fato, que parece lugar-comum aos ouvidos do cristão, não deveria perder o seu encanto para nós: ele nunca poderia ter sido concebido somente pelo homem independentemente da revelação verbal e especial de Deus.

C. A suficiência da Escritura

Podemos definir a suficiência da Escritura da seguinte maneira: A suficiência da Escritura significa que a Escritura continha todas as palavras de Deus que ele pretendeu que seu povo tivesse em cada estágio da história redentora, e que agora ela contém tudo o que precisamos que Deus nos diga para nossa salvação, para confiarmos nele perfeitamente e para que lhe obedeçamos perfeitamente.Essa definição enfatiza o fato de que é na somente Escritura que devemos procurar as palavras de Deus para nós. Ela também nos lembra que Deus considera o que nos tem dito na Bíblia como suficiente para nós e que devemos nos regozijar na grande revelação que ele nos deu, ficando contentes com ela.A explicação e o apoio bíblico significativos para essa doutrina são encontrados nas palavras de Paulo a Timóteo: “Porque desde criança você conhece as Sagradas Letras, que são capazes de torná-lo sábio para a salvação mediante a fé em Cristo Jesus” (2Tm 3.15).O contexto mostra que “as Sagradas Letras” aqui significam as palavras escritas na Escritura (2Tm 3.16). Isso é a indicação de que as palavras de Deus que temos na Escritura são todas as palavras de Deus de que precisamos a fim de que sejamos salvos; essas palavras são capazes de nos tornar sábios “para a salvação”.Outras passagens indicam que a Bíblia é suficiente para equipar-nos para viver a vida cristã. Em Salmos 119.1 afirma-se: “Como são felizes os que andam em caminhos irrepreensíveis, que vivem conforme a lei do SENHOR!”. Esse versículo mostra a equivalência entre ser irrepreensível e “viver conforme a lei do SENHoR”; os irrepreensíveis são os que andam na lei do Senhor. Aqui temos a indicação de que tudo o que Deus requer de nós está registrado na Palavra escrita. Simplesmente fazer tudo o que a Bíblia ordena é ser irrepreensível à vista de Deus. Mais tarde lemos que um jovem pode “manter pura a sua conduta”. Como? “Vivendo de acordo com a tua palavra” (Sl 119.9). Paulo diz que Deus deu a Escritura a fim de que o homem de Deus fosse “plenamente preparado para toda boa obra” (2Tm 3.17).

1. Encontramos tudo o que Deus disse sobre tópicos específicos e podemos encontrar respostas às nossas perguntas.

Naturalmente, percebemos que nunca obedeceremos perfeitamente a toda a Escritura nesta vida (v. Tg 3.2; lJo 1.8-10). Assim, à primeira vista pode não parecer muito importante dizer que tudo o que temos de fazer é o que Deus nos ordena na Bíblia, visto que nunca seremos capazes de obedecer a ela em todas as coisas, de qualquer forma. Mas a verdade da suficiência da Escritura é de grande importância para nossa vida cristã, porque ela nos capacita a concentrar nossa busca das palavras de Deus para nós somente na Bíblia e nos livra da tarefa infindável de pesquisar em todas os escritos dos cristãos por meio de toda a história, ou nos ensinos da igreja, ou em todas as sensações e impressões subjetivas que vêm à nossa mente dia após dia, a fim de saber o que Deus requer de nós. De modo muito prático, isso significa que somos capazes de chegar a conclusões claras sobre muitos ensinos da Escritura.Essa doutrina significa, além disso, que é possível coletar todas as passagens que dizem respeito diretamente a questões doutrinárias como a expiação, ou a pessoa de Cristo, ou a obra do Espírito Santo na vida dos crentes hoje. Nessas e em centenas de outras questões morais ou doutrinárias, o ensino bíblico a respeito da suficiência da Escritura dá-nos confiança de que nós seremos capazes de saber o que Deus requer que pensemos ou façamos nessas áreas. Em muitas dessas áreas podemos obter certeza de que nós, juntamente com a grande maioria da igreja no decorrer da história, encontramos de maneira corretamente formulada tudo o que Deus quer que pensemos ou façamos. Afirmada de modo simples, a doutrina da suficiência da Escritura nos diz que é possível estudar teologia sistemática e ética e encontrar nelas respostas às nossas perguntas.

2. A quantidade de Escritura dada foi suficiente em cada estágio da história redentora.

A doutrina da suficiência da Escritura não implica simplesmente que Deus não pode mais acrescentar palavras às que ele já falou ao seu povo. Ao contrário, a doutrina implica que os seres humanos não podem acrescentar, por iniciativa própria, quaisquer palavras às que Deus já falou. Além disso, ela sugere que de fato Deus não falou à raça humana outras palavras mais, em relação às quais ele requeira crença ou obediência, além das que temos na Bíblia.Esse ponto é importante, porque nos ajuda a entender como Deus poderia dizer a seu povo que suas palavras lhes eram suficientes em muitos pontos diferentes na história da redenção e como ele poderia, não obstante, acrescer outras palavras posteriormente. Por exemplo, em Deuteronómio 29.29 Moisés diz que “as coisas encobertas pertencem ao SENHOR, o nosso Deus, mas as reveladas pertencem a nós e aos nossos filhos para sempre, para que sigamos todas as palavras desta lei”.Esse versículo nos lembra que Deus sempre tomou a iniciativa de revelar coisas a nós. Ele decidiu o que revelar e o que não revelar. Em cada estágio da história da redenção, as coisas que Deus revelou foram para o seu povo para aquela época, e eles deviam estudá-las, crer nelas e obedece-las. Com o progresso posterior da história da redenção, mais palavras de Deus foram acrescentadas, registrando e interpretando aquela história.

3. Aplicações práticas da suficiência da Escritura.

A doutrina da suficiência da Escritura tem diversas aplicações práticas para nossa vida cristã. A lista seguinte tem a intenção de ser útil, mas não é completa.

a. Encorajamento para buscar respostas na Bíblia. A suficiência da Escritura deveria nos encorajar a tentar descobrir o que Deus queria que pensássemos (a respeito de uma questão doutrinária específica) e que fizéssemos (em certa situação específica). Devemos ser encorajados a encontrar na Escritura tudo o que Deus quer nos dizer a respeito de determinado assunto. Isso não quer dizer que a Bíblia tem resposta para todas as perguntas que possamos imaginar, porque “as coisas encobertas pertencem ao SENHOR, o nosso Deus” (Dt 29.29). Mas significa que, quando enfrentamos um problema de importância genuína para a vida cristã, podemos abordar a Escritura com a certeza de que nela Deus proverá orientação para esse nosso problema.Haverá ocasiões, naturalmente, em que a resposta que procuramos para nossas perguntas não estará mencionada diretamente na Escritura. (Seria o caso, por exemplo, de tentar encontrar na Escritura que tipo de adoração devemos usar nos cultos dominicais, ou se é melhor ajoelhar ou permanecer em pé quando oramos, ou em que horário devemos tomar nossas refeições durante o dia, e assim por diante.) Nesses casos, podemos concluir que Deus não exigiu que pensássemos ou agíssemos de determinado modo com respeito a essas questões (exceto, talvez, em termos de princípios gerais com respeito a nossas atitudes e metas). Mas, em muitos outros casos, encontraremos orientação direta e clara do Senhor para equipar-nos para “toda boa obra” (2Tm 3.17).

b. Advertência para não acrescentar nada à Escritura.A suficiência da Escritura lembra-nos que não devemos acrescentar nada à Escritura e que não devemos considerar nenhum outro livro que seja de igual valor ao da Escritura. Esse princípio tem sido violado pela maioria de todas as seitas. Os mórmons, por exemplo, dizem crer na Bíblia, mas também dizem crer na autoridade divina do Livro de Mórmon. Semelhantemente a Ciência Cristã afirma crer na Bíblia, mas na prática considera que o livro Ciência e saúde com a chave das Escrituras, escrito por Mary Baker Eddy, é de igual valor ao da Bíblia ou maior até em matéria de autoridade. Visto que essas pretensões violam os mandamentos de Deus de não acrescentar nada às suas palavras, não devemos pensar que quaisquer palavras adicionais de Deus a nós podem ser encontradas nesses livros. Mesmo nas igrejas cristãs erros semelhantes são cometidos quando as pessoas vão além do que a Escritura ensina e asseveram com grande confiança novas idéias a respeito de Deus ou do céu, baseando seus ensinos não na Escritura, mas em sua especulação, ou mesmo em pretensas experiências de terem morrido e voltado à vida.

c. Advertência para não contar com qualquer outra direção de Deus como igual à Escritura.A suficiência da Escritura nos mostra que nenhuma das revelações modernas ditas como vindas de Deus deve ser colocada no nível igual à autoridade da Escritura. Várias vezes no decorrer da história da igreja, e particularmente no movimento carismático moderno, pessoas têm asseverado que Deus deu revelações por meio delas para o benefício da igreja. Mesmo pessoas de igrejas não-carismáticas muitas vezes dizem que Deus as “conduziu” ou “guiou” de certo modo. Contudo, ao avaliarmos tais alegações, devemos ser cuidadosos em nunca permitir (na teoria ou na prática) que tais revelações sejam colocadas no nível igual ao da Escritura. Devemos insistir no fato de que Deus não requer de nós que creiamos em nada a respeito de si mesmo ou de sua obra no mundo que esteja contido nessas revelações, mas que não esteja na Escritura. Devemos insistir em que Deus não requer de nós que obedeçamos a qualquer orientação moral que nos venha mediante tais meios, mas que não seja confirmada pela Escritura.A Bíblia contém todas as palavras de Deus em que precisamos confiar e às quais devemos obedecer perfeitamente.

d. Advertência para não acrescentar mais pecados ou exigências aos que já são mencionados na Escritura.Com respeito à vida cristã, a suficiência da Escritura nos lembra que nada é pecado que não seja proibido pela Escritura explícita ou implicitamente. Andar na lei do Senhor é ser irrepreensível (Sl 119.1). Portanto, não devemos acrescentar proibições às que já estão afirmadas na Escritura. De vez em quando pode haver situações nas quais seria errado para o cristão, por exemplo, beber café ou Coca-Cola, ou ir ao cinema, ou comer carne oferecida a ídolos (v. lCo 8.10), mas a menos que se possa mostrar algum ensino específico ou princípio geral da Escritura proibindo tais atividades (ou semelhantes) para todos os crentes de todas as épocas, devemos insistir em que essas atividades não são em si mesmas pecaminosas e que não são em todas as situações proibidas por Deus para o seu povo.A descoberta desta grande verdade poderia trazer tremenda alegria e paz para a vida de milhares de cristãos que, gastando horas sem conta procurando a vontade de Deus fora da Escritura, muitas vezes continuam sem saber se a encontraram. Em vez disso, os cristãos que estão convencidos da suficiência da Escritura devem ansiosamente começar a procurar e encontrar a vontade de Deus na Escritura. Eles devem crescer em obediência a Deus, de modo entusiástico e regular, experimentando grande liberdade e paz na vida cristã. Então, serão capazes de dizer, como o salmista:
Obedecerei constantemente à tua lei, para todo o sempre.Andarei em verdadeira liberdade, pois tenho buscado os teus preceitos. [...].Os que amam a tua lei desfrutam paz, e nada há que os faça tropeçar. (Sl 119.44,45,165)


e. Encorajamento para satisfazer-nos com a Escritura.
A suficiência da Escritura lembra-nos de que em nosso ensino ético e doutrinário devemos enfatizar o que a Escritura enfatiza e satisfazer-nos com o que Deus nos tem dito na Escritura. Há alguns assuntos a respeito dos quais Deus nos disse muito pouco ou nada na Bíblia. Devemos lembrar que “as coisas encobertas pertencem ao SENHOR” (Dt 29.29) e que Deus revelou-nos na Escritura exatamente o que considera o suficiente para nós. Devemos aceitar isso, e não pensar que a Escritura é algo menos que deveria ser ou começar a desejar que Deus nos tivesse dado muito mais informações a respeito desses assuntos sobre os quais há pouca menção na Escritura.Os assuntos doutrinários que têm dividido as denominações protestantes evangélicas são quase sempre assuntos nos quais a Bíblia coloca relativamente pouca ênfase e outros sobre os quais são tiradas conclusões muito mais em razão de inferências habilidosas que de afirmações bíblicas diretas. Por exemplo, diferenças denominacionais constantes têm ocorrido ou sido mantidas por causa da forma “apropriada” de governo da igreja, da natureza precisa da presença de Cristo na Ceia do Senhor e da seqüência exata dos eventos que circundam a volta de Cristo.Não devemos dizer que todas essas questões sejam sem importância, nem devemos dizer que a Escritura não dê solução alguma para qualquer delas (de fato, com respeito a muitas delas, a solução específica será defendida nos capítulos subseqüentes deste livro). Contudo, visto que todos esses tópicos recebem relativamente pouca ênfase direta na Escritura, é irônico e trágico que líderes denominacionais com freqüência gastem muito de sua vida defendendo precisamente os pontos doutrinários de menor importância que fazem com que suas denominações difiram das outras. Tal esforço é realmente motivado pelo desejo de trazer unidade de entendimento para a igreja? Ou origina-se no orgulho humano, no desejo de exercer poder sobre outros? Ou será ainda a tentativa de autojustificação, que é desagradável a Deus e, de modo definitivo, não traz edificação para a igreja?
“Não há implicação, de minha parte, da adoção de ponto de vista cessacionista sobre os dons espirituais (que é o entendimento de que certos dons, tais como a profecia e o falar em línguas tenham cessado com a morte dos apóstolos). Eu simplesmente quero destacar que há um perigo em dar a esses dons, explícito ou implicitamente, um status, que na prática, desafia a autoridade ou a suficiência da Escritura na vida cristã”.


Autor: Wayne Grudem Fonte: Teologia Sistemática do Autor,

Leia Mais...

A inerrância da Escritura


A inerrância da Escritura

Nota: AT = Antigo Testamento ; NT = Novo Testamento

1. O significado de inerrância.

A seção anterior tratou a respeito da veracidade da Escritura. Um componente importante desse tópico é a inerrância da Escritura. Essa questão é de grande importância no mundo evangélico hoje porque em muitos círculos a veracidade da Escritura tem sido questionada ou mesmo abandonada.
Com a evidência dada acima a respeito da veracidade da Escritura, estamos agora na posição de definir a inerrância bíblica: A inerrância da Escritura significa que a Escritura, nos seus manuscritos originais, não afirma nada que seja contrário ao fato.Essa definição enfoca a questão da veracidade e da falsidade na linguagem da Escritura. A definição em termos simples significa apenas que a Bíblia sempre diz a verdade e que ela sempre diz a verdade a respeito de cada coisa a que se refere. Essa definição não significa que a Bíblia nos diz cada fato que há para conhecer a respeito de um assunto, mas afirma que o que ela diz a respeito de um assunto é verdadeiro.É importante perceber no começo desta discussão que o foco desta controvérsia é sobre a questão da veracidade na linguagem. Deve-se reconhecer que a veracidade absoluta na linguagem está de acordo com alguns outros tipos de afirmações, como as que se seguem:

a. A Bíblia pode ser inerrânte e ainda falar a linguagem habitual da conversação diária.

Isso é especialmente verdadeiro nas descrições de fatos ou eventos de caráter “científico” ou “histórico”. A Bíblia pode falar do sol que se levanta e da chuva que cai por causa perspectiva do narrador, que é exatamente o que acontece. Da perspectiva do narrador, o sol realmente se levanta e a chuva realmente cai, e essas são descrições perfeitamente verdadeiras dos fenômenos naturais que o narrador observa.
Uma consideração similar aplica-se aos números quando usados para contar ou para medir. Um repórter pode dizer que 8000 homens foram mortos em determinada batalha sem, desse modo, sugerir que ele contou cada um e que não havia 7 999 ou 8001 soldados mortos. Isso é verdade também a respeito das medidas. Se eu digo: “Não moro longe da biblioteca”, ou “Moro a pouco mais de um quilômetro da biblioteca”, ou “Moro a um pouquinho menos de um quilômetro da biblioteca” ,ou “Moro a um quilômetro e meio da biblioteca”, todas essas afirmações possuem certo grau de proximidade e de exatidão. Em ambos os exemplos, e em muitos outros que poderiam ser retirados da vida diária, os limites da veracidade dependeriam do grau de precisão sugerido pelo narrador e esperado por seus ouvintes originais. Não haveria problema para nós, então, em afirmar que, ao mesmo tempo em que a Bíblia é absolutamente verdadeira em tudo o que diz, ela usa a linguagem comum para descrever os fenômenos naturais e dar aproximações ou números redondos quando eles são apropriados no contexto.

b. A Bíblia pode ser inerrânte e, todavia, incluir citações livres ou soltas.

O método pelo qual uma pessoa cita as palavras de outra é um procedimento que em grande parte varia de cultura para cultura. Enquanto na cultura contemporânea americana e inglesa costumamos mencionar as palavras exatas de uma pessoa fazendo citações entre aspas, o grego escrito no tempo do NT não possuía aspas ou qualquer espécie de sinalização equivalente, e a citação exata de outra pessoa precisava incluir somente a apresentação correta do conteúdo do que a pessoa havia dito (mais ou menos como o nosso uso de citações indiretas); não era esperado que cada palavra fosse citada com exatidão. Assim, a inerrância é coerente com citações livres ou soltas do AT ou das palavras de Jesus, por exemplo, contanto que o conteúdo não seja falso em relação ao que originariamente foi afirmado. O escritor original não sugeriu de forma geral que estivesse usando as palavras exatas de um narrador e somente aquelas, nem os ouvintes originais esperavam a citação textual em tal narração.

c. As construções gramaticais incomuns ou excepcionais na Bíblia não contradizem a inerrância.

Alguma coisa da linguagem na Escritura é elegante e estilisticamente excelente. Outras passagens da Escritura contêm linguagem mais própria das pessoas comuns. As vezes isso inclui a falha em seguir as regras de expressão usualmente aceitáveis (como o uso de um verbo no plural, quando as regras gramaticais exigem um verbo no singular). Essas afirmações gramaticais estilisticamente incorretas (muitas delas são encontradas no livro de Apocalipse) não devem ser problema para nós, pois elas não afetam a veracidade das afirmações em pauta; a afirmação pode não ser gramaticalmente correta e, todavia, ser totalmente verdadeira. Por exemplo, o lenhador da área rural que não possua educação formal pode ser o homem mais confiável da região, mesmo que a sua gramática seja pobre, porque ele ganhou a reputação de nunca mentir. De modo semelhante, há algumas afirmações na Escritura (nas línguas originais) que não são corretas gramaticalmente (de acordo com os padrões vigentes da boa gramática naquele tempo), mas são ainda inerrântes porque são completamente verdadeiras. Deus usou pessoas comuns que usaram o seu vocabulário comum. A questão não é a elegância de estilo, mas a veracidade no falar.

2. Alguns desafios comuns a inerrância.

Nesta seção vamos examinar algumas das objeções mais importantes que são regularmente levantadas contra o conceito de inerrância.A Bíblia é a única regra repleta de autoridade para a “fé e prática”.Uma das objeções mais freqüentes à inerrância é levantada por aqueles que dizem que o propósito da Escritura é ensinar-nos em áreas que dizem respeito à “fé e prática” somente, isto é, nas áreas que dizem respeito diretamente à nossa fé religiosa ou nossa conduta ética. Essa posição permite a possibilidade de afirmações falsas na Escritura, como, por exemplo, em outras áreas como a de detalhes históricos sem maior importância ou em fatos científicos — essas áreas, é dito, não dizem respeito ao propósito da Bíblia, que é o de nos instruir sobre em que devemos crer e como devemos viver. Os defensores dessa posição muitas vezes preferem dizer que a Bíblia é infalível, mas hesitam em usar a palavra inerrânte.A resposta a essa objeção pode ser afirmada do seguinte modo: A Bíblia repetidamente afirma que toda a Escritura é útil para nós e que tudo é “inspirado por Deus” (2Tm 3.16). Assim, ela é completamente pura (Sl 12.6), perfeita (Sl 119.96) e verdadeira (Sl 119. 160).A Bíblia não faz ela própria qualquer restrição aos assuntos sobre os quais fala com toda a verdade.

O NT contém afirmações adicionais sobre a confiabilidade de todas as partes da Escritura. Em Atos 24.14, Paulo diz que ele adora a Deus, acreditando “em tudo o que concorda com a Lei e no que está escrito nos Profetas”. Em Lucas 24.25 (RA), Jesus diz que os discípulos são “néscios” porque eram “tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram”. Em Romanos 15.4, Paulo diz que “tudo o que foi escrito no passado” no AT “foi escrito para nos ensinar”. Esses textos não dão indicação alguma de que haja qualquer parte da Escritura que não seja digna de confiança ou na qual não se possa confiar completamente.O rápido exame do detalhes históricos do AT que são citados no NT indica que os escritores do NT estavam desejosos de confiar na veracidade de qualquer parte das narrativas históricas do AT. Nenhum detalhe é tão insignificante que não possa ser usado para a instrução dos cristãos do NT (v.,por ex., Mt 12.3,4,41; Lc 4.25,26; Jo 4.5; Co 10.11; Hb 11; Hb 12.16,17; Tg 2.25; 2Pe 2.16 etc.). Não há indicação alguma de que eles pensassem que uma categoria de afirmações da Escritura não fosse confiável (por exemplo, afirmações “históricas e científicas” como opostas às passagens de caráter doutrinário ou moral). Parece claro que a Bíblia em si mesma não dá suporte a qualquer restrição com respeito a assuntos dos quais ela fala com autoridade e verdade absoluta; de fato, muitas passagens na Escritura realmente excluem a validade desta espécie de restrição.
A segunda resposta aos que limitam a veracidade necessária da Escritura a matérias de “fé e prática” é que o pensamento deles confunde o propósito principal da Escritura com o propósito total dela. Dizer que o propósito principal da Escritura é ensinar-nos em matéria de “fé e prática” é fazer um sumário útil e correto do propósito de Deus em nos dar a Bíblia. Mas, como sumário, ele inclui somente o propósito mais proeminente de Deus ao nos dar a Escritura. Não é, contudo, legítimo usar esse sumário para negar que é parte do propósito da Escritura discorrer a respeito de detalhes históricos menos importantes ou a respeito de alguns aspectos de astronomia ou geografia, e assim por diante. Um sumário não pode ser devidamente usado para negar uma das coisas que ele está sintetizando! É melhor dizer que o propósito total da Escritura é dizer tudo o que ela diz, qualquer que seja o assunto. Cada uma das palavras de Deus na Escritura foi considerada por ele como importante para nós. Assim, Deus emite severas advertências a qualquer um que retire mesmo uma só palavra do que ele nos disse (Dt 4.2; 12.32; Ap 22.18,19). Não podemos acrescentar nada às palavras de Deus ou retirar algo delas, porque todas são parte do propósito mais amplo que ele nos quis comunicar. Cada coisa afirmada na Escritura está ali porque Deus quis que estivesse. Deus não diz nada sem propósito!

O termo inerrância é um termo pobre.

As pessoas que fazem essa segunda objeção dizem que o termo inerrância é preciso demais e que no uso comum denota uma espécie de precisão científica absoluta que não queremos reivindicar para a Escritura. Além disso, os que levantam essa objeção observam que o termo inerrância não é usado na própria Bíblia. Portanto, eles dizem, provavelmente não é o termo apropriado sobre o qual devamos insistir.A resposta a essa objeção pode ser feita do seguinte modo: Primeiro, a palavra tem sido usada por estudiosos há mais de cem anos, e eles sempre têm atentado para “limitações” que fazem parte de uma narrativa na linguagem comum. Ademais, deve ser observado que muitas vezes usamos termos não bíblicos para resumir um ensino bíblico. A palavra Trindade não ocorre na Escritura, nem a palavra encarnação. Todavia, ambos os termos são muito úteis porque nos permitem sintetizar em uma palavra um conceito bíblico verdadeiro e são, portanto, úteis para capacitar-nos a discutir um ensino bíblico mais facilmente. Finalmente, hoje na igreja parece que somos incapazes de levar a discussão adiante nessa matéria sem o uso do termo. As pessoas podem objetar a termos, se quiserem, mas, gostando ou não, esse é o termo em torno do qual a discussão tem-se desenvolvido e quase certamente continuará a sê-lo nas próximas décadas. Portanto, parece apropriado manter seu uso na discussão a respeito da veracidade completa da Escritura.

Não possuímos nenhum manuscrito inerrânte.

Portanto, falar a respeito de inerrância é um engano. Os que fazem essa objeção apontam para o fato de que a inerrância sempre tem sido reivindicada para o documento original ou para as cópias originais dos documentos bíblicos. Todavia, nenhuma delas sobrevive; temos somente cópias de cópias do que Moisés, Paulo ou Pedro escreveram. Qual é, então, a razão de se atribuir tanta importância à doutrina que se aplica somente aos manuscritos que ninguém possui?
Em resposta a essa objeção, podemos primeiro pensar em uma analogia da história americana. A cópia original da Constituição dos Estados Unidos está guardada no edifício chamado National Archives, em Washington, DC. Se por causa de um terrível evento o edifício for destruído e a cópia original da Constituição se perder, poderíamos saber o que a Constituição dizia? Claro que sim! Nós compararíamos suas centenas de cópias e, onde todas concordassem, teríamos razão para crer que temos as palavras exatas do documento original.Processo semelhante ocorreu na determinação das palavras originais da Bíblia. Pois, em cerca de 99% das palavras da Bíblia, nós sabemos o que o manuscrito original dizia. Mesmo que em muitos versículos haja variantes textuais (isto é, palavras diferentes em diferentes cópias antigas do mesmo versículo), a decisão correta é com freqüência bastante clara (pode haver um óbvio erro de copista, por exemplo), e há realmente pouquíssimos lugares onde a variante textual seja ao mesmo tempo difícil de avaliar e relevante para a determinação do sentido do texto. Em porcentagem pequena de casos em que há incerteza significativa a respeito do que o texto original dizia, o sentido geral da frase em geral é suficientemente claro por causa do contexto.Isso não significa que o estudo das variantes textuais não seja importante, mas significa que o estudo das variantes textuais não nos deixa confusos a respeito do que os manuscritos originais disseram. Ao contrário, esse estudo nos aproxima do conteúdo dos manuscritos originais. Porque, para a maior parte dos propósitos práticos, os textos especializados presentemente publicados do hebraico do AT e do grego do NT são como se fossem os manuscritos originais. Portanto, a doutrina da inerrância afeta como pensamos não somente a respeito dos manuscritos originais, mas também a respeito dos manuscritos atuais.

Os autores bíblicos “acomodaram” suas mensagens nos detalhes menos importantes às falsas idéias correntes em seu tempo e afirmaram ou ensinaram essas idéias de modo incidental. Os que sustentam essa posição argumentam que teria sido muito difícil para os escritores bíblicos comunicar-se com o povo de seu tempo se tivessem tentado corrigir toda a falsa informação histórica e científica aceita por seus contemporâneos (como o universo de três andares ou que nosso planeta é uma espécie de prato plano, e assim por diante).
Portanto, dizem, quando os autores da Escritura estavam tentando propor um argumento mais amplo, algumas vezes incidentalmente fizeram certas afirmações falsas aceitas pelas pessoas de sua época.A essa objeção à inerrância podemos responder que Deus é o Senhor da linguagem que pode usar a linguagem humana para comunicar-se perfeitamente sem ter de afirmar quaisquer idéias falsas que possam ter sido sustentadas pelas pessoas contemporâneas aos autores da Escritura. Além disso, tal “acomodação” de Deus ao nosso entendimento errôneo implicaria que Deus agiu contrariamente ao seu caráter de um Deus que não pode mentir (Nm 23.19; Tt 1.2; Hb 6.18). Embora Deus se rebaixe a falar a língua dos seres humanos, nenhuma passagem da Escritura ensina que ele seja ‘‘condescendente’’ a ponto de agir de modo contrário ao seu caráter moral. Essa objeção, assim, em sua raiz, interpreta mal a pureza e a unidade de Deus na medida em que elas afetam todas as suas palavras e os seus atos.

Há alguns erros claros na Bíblia.

Para muitos que negam a inerrância, a convicção de que há alguns erros evidentes na Escritura é o fator de maior importância que os persuade a desafiar a doutrina da inerrância. Em cada caso, contudo, a primeira resposta que deveria ser dada a essa objeção é perguntar onde os erros estão, ou em qual versículo específico ou versículos esses “erros” ocorrem. É surpreendente ver quantas vezes essa objeção é levantada por pessoas que têm pouca ou nenhuma idéia sobre onde os erros específicos estão. Todavia crêem que há erros porque outros disseram que há.Em outros casos, contudo, alguns mencionam uma ou mais passagens específicas onde, segundo alegam, há uma afirmação falsa na Escritura. Em muitos exemplos, o exame cuidadoso do texto bíblico em si trará à luz uma ou mais soluções possíveis para a dificuldade alegada. Em poucas passagens, nenhuma solução para a dificuldade pode ficar imediatamente evidente da leitura do texto em nossa língua. A essa altura é útil consultar alguns comentários sobre o texto. Há uns poucos textos em que certo conhecimento do hebraico ou grego talvez seja necessário a fim de se encontrar a solução, e quem que não possui acesso de primeira mão a essas línguas terá de encontrar respostas em um comentário mais técnico ou servir-se de alguém que possua treinamento para isso.Naturalmente, o nosso entendimento da Escritura nunca é perfeito, e isso significa que pode haver casos em que não seremos capazes de encontrar solução para uma passagem difícil no presente momento. Isso é assim porque a evidência lingüística, histórica ou contextual de que precisamos para entender a passagem corretamente ainda é desconhecida para nós. Essa dificuldade em pequeno número de passagens não deve incomodar-nos, desde que o padrão total de nossa investigação dessas passagens mostre que não há, de fato, nenhum dos erros alegados.

Finalmente, a perspectiva histórica sobre essa questão é útil. Não há realmente quaisquer problemas “novos” na Escritura. A Bíblia em sua totalidade tem mais de dezenove séculos, e os pretensos “textos-problema” estavam ali o tempo todo. Todavia, no decorrer de toda a história da igreja há a firme crença na inerrância das Escrituras no sentido em que ela foi definida neste capítulo. Além disso, há centenas de anos estudiosos muito competentes da Bíblia lêem e estudam esses textos-problema e ainda não encontraram dificuldade em sustentar a inerrância. Isso deveria deixar-nos confiantes em que as soluções para esses problemas estão disponíveis e em que a crença na inerrância está totalmente de acordo com a duradoura atenção dedicada ao texto da Escritura.

3. Problemas com a negação da inerrância.

Os problemas que aparecem com a negação da inerrância bíblica são muito significativos e, quando entendemos a magnitude desses problemas, isso nos dá o encorajamento adicional não somente para afirmar a inerrância, mas também para garantir sua importância para a igreja. Alguns dos problemas mais sérios são os listados a seguir:

a. Se negarmos a inerrância, deparamos com um sério problema moral: Podemos imitar Deus e intencionalmente mentir nas pequenas coisas também? Efésios 5.1 nos diz que sejamos imitadores de Deus. Mas a negação de inerrância que ainda alega que as palavras da Escritura são palavras sopradas por Deus necessariamente leva à conclusão de que Deus intencionalmente falou falsamente para nós em algumas das afirmações menos centrais da Escritura. Mas, se para Deus é correto agir assim, como pode ser errado para nós? Tal linha de raciocínio, se crêssemos nela, exerceria grande pressão sobre nós para que começássemos a falar inverdades em situações onde poderiam parecer de ajuda em nossa comunicação, e assim por diante. Essa posição seria uma ladeira escorregadia com resultados negativos sempre crescentes em nossa vida.

b. Segundo, se a inerrância é negada, começamos a pensar se realmente podemos confiar em Deus em qualquer coisa que ele venha a dizer.

Uma vez que nos convençamos de que Deus nos falou de maneira falsa em alguns assuntos de menor importância na Escritura, percebemos que Deus é capaz de nos falar falsamente. Isso ocasionará um efeito prejudicial sério sobre a nossa capacidade de levar Deus a sério em sua palavra e confiar nele completamente ou obedecer a ele plenamente no restante da Escritura. Podemos começar a desobedecer inicialmente nas seções da Escritura que menos desejaríamos obedecer, e desconfiar inicialmente das seções nas quais estaríamos menos inclinados a confiar. Mas tal procedimento finalmente se expandirá, para grande prejuízo de nossa vida espiritual.

c. Terceiro, se negarmos a inerrância, essencialmente faremos da mente o padrão de verdade mais alto que a própria Palavra de Deus.

Usamos nossa mente para estabelecer juízo sobre algumas partes da Palavra de Deus e as pronunciamos como contendo erros. Mas isso é, de fato, dizer que conhecemos a verdade com mais certeza e mais exatidão que a própria Palavra de Deus (ou que Deus), ao menos nessas áreas. Tal procedimento, que torna nossa mente o padrão mais alto de verdade que a Palavra de Deus, é a raiz de todo o pecado intelectual.

d. Quarto, se negarmos a inerrância, devemos também dizer que a Bíblia esta errada não somente nos detalhes menos importantes, mas igualmente em algumas de suas doutrinas.
A negação da inerrância significa dizermos que o ensino da Bíblia a respeito da natureza da Escritura e a respeito da veracidade e confiabilidade das palavras de Deus também é falso. Esses não são pequenos detalhes, e sim preocupações doutrinárias muito importantes na Escritura.

e. A Palavra de Deus escrita é a nossa autoridade final. É importante perceber que a forma final na qual a Escritura é cheia de autoridade é a forma escrita. Foram as palavras de Deus escritas em tábuas de pedra que Moisés depositou na arca da aliança. Mais tarde, Deus ordenou a Moisés e subseqüentemente aos profetas para escreverem suas palavras em um livro. Foi a Palavra de Deus escrita que Paulo disse ser ”inspirada” (gr. graphē em 2Tm 3.16). Isso é importante porque as pessoas às vezes (de forma intencional ou não) tentam substituir as palavras escritas da Escritura por algum outro padrão final. Por exemplo, elas se referem ao “que Jesus realmente disse” e afirmam que, quando traduzimos as palavras gregas dos evangelhos para a língua aramaica que Jesus falou, podemos obter entendimento melhor das palavras de Jesus do que foi dado pelos escritores dos evangelhos. Em outros casos, há quem alegue conhecer ”o que Paulo realmente pensava” mesmo quando esse conhecimento é diferente do significado das palavras que ele escreveu. Ou falam do “que Paulo teria dito se ele tivesse sido coerente com o restante de sua teologia”. De modo semelhante, outras pessoas falam da “situação da igreja à qual Mateus está escrevendo” e tentam dar força normativa tanto para essa situação como para a solução que pensam que Mateus estava tentando produzir nessa situação.

Em todos esses exemplos, devemos admitir que perguntar a respeito das palavras ou situações que estão por trás do texto da Escritura pode, às vezes, ser útil para nós no entendimento do que o texto significa. Não obstante, nossas reconstruções hipotéticas dessas palavras ou situações podem nunca substituir ou competir com a própria Escritura como a autoridade final, nem devemos permitir que contradigam ou levantem dúvidas sobre a exatidão de qualquer das palavras da Escritura. Devemos continuamente relembrar que temos na Bíblia as verdadeiras palavras de Deus, e não podemos tentar “melhorá-las” de algum modo, pois isso não pode ser feito. Ao contrário, devemos procurar entendê-las e, então, confiar nelas e obedecer a elas de todo o nosso coração.

Embora as posições indesejáveis listadas acima estejam logicamente relacionadas à negação da inerrância, uma Palavra de advertência se faz necessária: nem todos que negam a inerrância adotarão também as conclusões indesejáveis mencionadas. Algumas pessoas (provavelmente de modo incoerente) negarão a inerrância, mas não caminharão para esses passos lógicos. Em debates sobre a inerrância, como em outras discussões teológicas, é importante que critiquemos as pessoas com base nas idéias que elas realmente sustentam e que distingamos claramente essas idéias das posições que pensamos que elas sustentam, para ver se estas estão de acordo com as próprias idéias afirmadas.

Autor: Wayne Grudem. Fonte: Teologia Sistemática do autor

Leia Mais...

A Interpretação da Bíblia

A Interpretação da Bíblia
At 15.15,16; Ef 4.11-16; 2 Pe 1.16-21; 2 Pe 3.14-18

Qualquer documento escrito, para poder ser compreendido, precisa ser interpretado. Nosso país possui indivíduos altamente capacitados, cuja tarefa diária é interpretar a Constituição. Eles forma o Supremo Tribunal Federal. Interpretar a Bíblia é uma tarefa muito mais solene do que interpretar a Constituição de um país. Requer grande cuidado e diligência.

A Bíblia é o seu próprio Supremo Tribunal. A regra principal de interpretação bíblica é: "A Bíblia é sua própria intérprete". Esse princípio significa que a Bíblia deve ser interpretada pela própria Bíblia. O que é obscuro em uma parte da Bíblia pode ser esclarecido em outra parte. Interpretar a Bíblia pela Bíblia significa que não devemos colocar uma passagem contra outra. Cada texto deve ser entendido não somente à luz do seu contexto imediato, mas também à luz do contexto da Bíblia como um todo.

Além disso, entendido adequadamente, o único método legítimo e válido de interpretação da Bíblia é o da interpretação literal. Existe, contudo, muita confusão a respeito dessa idéia de interpretação. Interpretação literal, estritamente falando, significa que devemos interpretar a Bíblica assim como está escrito. Um substantivo é interpretado como substantivo e um verbo, como um verbo. Quer dizer que todas as formas usadas na redação da Bíblia devem ser interpretadas de acordo com as regras normais que regem tais formas. Poesia deve ser tratada como poesia. Relatos históricos devem ser tratados com História. Parábolas como parábolas, hipérboles como hipérboles, e assim por diante,.

Nesse aspecto, a Bíblia deve ser interpretada de acordo com as regras que governam a interpretação de qualquer outro livro. Em algumas de suas características, a Bíblia é diferente de qualquer outro livro que já foi escrito. Em termos de interpretação, entretanto, deve ser tratada como qualquer outro livro.

A Bíblia não deve ser interpretada de acordo com nossos próprios desejos e preconceitos. Devemos buscar entender o que ele de fato diz e nos guardarmos de forçar nossos próprios pontos de vista sobre ela. Este é o passatempo dos hereges: buscar base bíblica para doutrinas falsas que não têm base no texto. O próprio Satanás citou as Escrituras de maneira ilegítima, num esforço para seduzir Jesus Cristo a pecar (Mt 4.1-11).

A mensagem da Bíblia é simples e clara o suficiente para que até uma criança possa entender. Mesmo assim, p "alimento sólido" da Bíblia requer estudos e atenção cuidadosos para ser entendido adequadamente. Algumas questões tratadas na Bíblia são tão complexas e profundas que mantêm os maiores eruditos constantemente envolvidos nos esforço de resolvê-las.

Existem alguns princípios de interpretação que são básicos para todo estudo saudável da Bíblia.
Incluem o seguinte:

(1) As narrativas devem ser interpretadas à luz das passagens de "ensino". Por exemplo, a história de Abraão oferecendo Isaque no Monte Moriá pode sugerir que Deus não sabia que Abraão tinha uma fé genuína. As passagens didáticas da Bíblia, porém, deixam claro que Deus é onisciente;

(2) aquilo que é implícito sempre deve ser interpretado à Luz do que é explícito; nunca deve ser o contrário. Isto é, se um texto específico parece ter uma idéia ou lição implícita, não devemos aceitar a implicação como correta se for contrária a algo que é declarado explicitamente em outro lugar da Bíblia;

(3) as leis da lógica governam a interpretação da Bíblia. Por exemplo, se sabemos que todos os gatos têm cauda, não podemos deduzir que alguns gatos não têm. Se é verdadeiro que alguns gatos não têm cauda, então não pode ser verdade que todos os gatos têm. Isso não é apenas uma questão de leis técnicas de inferência; é uma questão de senso comum.

Mesmo assim, a grande maioria das interpretações equivocas da Bíblia é causada por deduções ilegítimas extraídas da Bíblia.

Sumário

1. A Bíblia é sua própria intérprete.

2. Devemos interpretar a Bíblia literalmente - assim com está escrito.

3. A Bíblia deve ser interpretada como qualquer outro livro.

4. Partes obscuras da Bíblia devem ser interpretadas pelas partes mais claras.

5. O implícito deve ser interpretado à luz do explícito.

6. As leis da lógica governa aquilo que pode ser racionalmente deduzido da Bíblia.

Autor: R. C. Sproul Fonte: 1º Caderno Verdades Essenciais da Fé Cristã – R.C.Sproul.

Leia Mais...

A interpretação pessoal


A interpretação pessoal
Ne 8.8; 2 Tm 2.15; 2 Tm 3.14-17; Hb1.1-4; 2 Pe 1.20,21

Dois dos grandes legados que recebemos da Reforma foram o princípio da interpretação pessoal da Bíblia e a sua tradução a língua do povo. O próprio Lutero colocou em foco essas questões. Quando se apresentou diante da Dieta de Worms (um concílio no qual foi acusado de heresia por causa de seus ensinamentos), ele declarou:

"A menos que eu seja convencido pela Escritura, minha consciência continuará cativa da Palavra de Deus - não aceito a autoridade de papas e concílios, porque se têm contraditado. Não posso nem quero retratar-me, porque ir contra a consciência não é certo nem seguro. Que Deus me ajude. Amém."

A declaração de Lutero, e sua subseqüente tradução da Bíblia para sua língua vernácula (do próprio País), tiveram dois efeitos. Primeiro, tirou da Igreja Católica Romana o direito exclusivo de interpretação. O povo não mais ficaria à mercê das doutrinas da igreja, tendo de aceitar as tradições ou ensinos eclesiásticos como tendo autoridade igual à da Palavra de deus. Segundo, colocou a interpretação nas mãos do povo. Essa mudança foi mais problemática. Levou aos mesmos excessos sobre os quais a Igreja Romana estava envolvida - interpretações *subjetivas do texto que levam ao afastamento da fé cristã histórica.

O *subjetivismo tem sido o grande perigo da interpretação pessoal. O princípio da interpretação pessoal não significa que o povo de Deus tenha o direito de interpretar a Bíblia da maneira que bem entender. Juntamente com o "direito" de interpretar as Escrituras vem também a responsabilidade de interpretá-la corretamente. Os crentes têm liberdade de descobrir as verdades da Escrituras, mas não são livres para fabricar suas próprias verdades. São chamados para entender os sólidos princípios de interpretação e evitar os perigos do subjetivismo.

Portanto, buscar um entendimento objetivo das Escrituras de maneira nenhuma reduz a Bíblia a algo frio, abstrato e sem vida. O que estamos fazendo é buscar entender o que a Palavra diz em sus contexto antes de prosseguirmos para a tarefa igualmente necessária de aplicá-la à nossa vida. Uma declaração em particular pode ter numerosas aplicações pessoais possíveis, mas só pode ter um único significado correto. O direito de interpretar a Bíblia leva junto consigo a obrigação de interpretá-la com exatidão. A Bíblia não é um "nariz de cera" que pode ser moldado e assumir a forma desejada pelo intérprete.

Sumário

1. A Reforma deu à Igreja uma tradução da Bíblia na língua comum e a cada crente o direito e a responsabilidade de interpretar a Bíblia pessoalmente.

2. A tradição da igreja, embora seja instrutiva como um guia, não tem autoridade igual à da Bíblia.

3. A interpretação pessoal não equivale a uma licença para o subjetivismo.

4. O princípio da interpretação pessoal leva consigo a obrigação de buscar a interpretação correta da Bíblia.

5. Embora cada texto bíblico tenha múltiplas aplicações, ele tem um único significado correto.
* Interpretação subjetiva é há interpretação individual, pessoal, particular. Não se baseia unicamente nos textos das Escrituras Sagradas, mas na própria mente do indivíduo.

Autor: R. C. Sproul Fonte: 1º Caderno Verdades Essenciais da Fé Cristã – R.C.Sproul.

Leia Mais...

O Cânon das Escrituras

O Cânon das Escrituras
Lc 24.44,45; 1 Co 15.3-8; 2 Tm 3.16,17; 2 Pe 1.19-21; 2 Pe 3.14-16

Geralmente pensamos na Bíblia como um livro grande.Na verdade, trata-se de uma pequena biblioteca composta de 66 livros individuais. Juntos, tais livros compõem o que chamamos cânon da Escritura Sagrada. O termo cânon deriva-se de uma palavra grega que significa "vara de medir", "padrão", ou "norma". Historicamente, a Bíblia tem sido a regra autoritativa de fé e prática na Igreja.

Com referência aos livros que compões o Novo Testamento, existe completo acordo entre católicos e protestantes. Existe, entretanto, forte divergência entre os dois grupos sobre o que deveria ser incluído no Antigo Testamento. Os católicos romanos consideram os livros chamados apócrifos como sendo canônicos, enquanto o protestantismo histórico não os considera. (Os livros apócrifos foram escritos depois que o Antigo Testamento já estava completo e antes que começasse o Novo Testamento.) O debate concernente aos apócrifos concentra-se na questão mais ampla do que era considerado canônico pela comunidade judaica. Existem fortes evidências de que era considerado canônico pela comunidade judaica. Existem fortes evidências de que os apócrifos não eram incluídos no cânon palestino dos judeus. Por outro lado, tudo indica que os judeus que viviam no Egito teriam incluído tais livros (traduzidos para o grego) no cânon alexandrino. Evidências recentes, entretanto, laçam dúvidas sobre isso.

Alguns críticos da Bíblia argumentam que a Igreja não tinha a Bíblia como tal até quase o início do quinto sáculo. Isso, porém, é uma distorção de todo o processo do desenvolvimento canônico. A igreja reuniu-se em concílio em várias ocasiões nos primeiros séculos para decidir as disputas sobre quais livros pertenciam propriamente ao cânon. O primeiro cânon formal do Novo Testamento foi criado pelo herege Marcião, o qual produziu sua própria versão expurgada da Bíblia. Para combatê-lo, a Igreja descobriu que era preciso declarar qual o conteúdo exato do Novo Testamento.

Embora a grande maioria dos livros que atualmente se acham incluídos no Novo Testamento claramente funcionava com autoridade canônica desde que foram escritos, houve alguns poucos livros cuja inclusão no cânon do Novo Testamento foi muito debatida. Esses livros incluíam Hebreus, Tiago, 2 Pedro, 2 e 3 João, Judas e Apocalipse.

Houve também vários livros que disputavam a condição de canônicos, mas que não foram incluídos. A maioria esmagadora desses livros compunha-se de obras espúrias escritas por hereges gnósticos do século II. Tais livros nunca receberam uma consideração séria. (Esse ponto é menosprezado pelos críticos que alegam que mais do dois mil volumes resultaram numa lista de 27. Daí eles perguntam: "Quais são as probabilidades de que os 27 selecionados sejam os corretos?" De fato, apenas dois ou três livros que não foram incluídos no cânon foram levados em consideração. Foram estes: 1 Clemente, O Pastor de Hermas e O Didaquê. Estes livros não foram incluídos no cânon das Escrituras porque não foram escritos por apóstolos e os próprios autores reconheceram que a autoridade deles estava subordinada aos apóstolos.

Alguns cristãos ficam preocupados com o fato de que houve um processo de seleção histórica. Ficam perturbados com a dúvida: "Como podemos saber que o cânon do Novo Testamento inclui os livros certos?" A teologia tradicional católica romana responde a essa pergunta apelando para a infabilidade da igreja. A igreja então é vista com "criadora" do cânon, tendo, portanto, a mesma autoridade que a própria Bíblia. O protestantismo clássico nega que a igreja seja infalível e também que ela "tenha criado" o cânon. A diferença entre o catolicismo romano e o protestantismo pode ser resumida da seguinte maneira:

Visão do Catolicismo Romano:O Cânon é uma coleção infalível de livros infalíveis.

Visão do Protestantismo Clássico:O Cânon é uma coleção falível de livros infalíveis.

Visão dos Críticos Liberais:O Cânon é uma coleção falível de livros falíveis.

Embora os protestantes creiam que Deus teve um cuidado especial e providencial para assegurar que os livros certos fossem incluídos, nem por isso consideram que ele tenha tornado a igreja infalível. Os protestantes também lembram aos católicos romanos que a igreja não "criou" o cânon. A igreja identificou, reconheceu, recebeu e se submeteu ao cânon das Escrituras. O termo usado pela igreja em Concílio foi "recipimus", que significamos “nós recebemos".

Qual foi o critério de avaliação dos livros? As assim chamadas marcas de canonicidade incluíam o seguinte:
1. Tinham de ter autoria ou endosso apostólico;

2. Tinham de ser recebidos como autoritativos pela igreja primitiva;

3. Tinham de estar em harmonia com os livros a respeito dos quais não havia dúvida.

Embora numa época de sua vida Martinho Lutero tenha questionado a canocidade de Thiago, posteriormente mudou de opinião. Não existe nenhuma razão séria para se ter um mínimo de dúvida de que os livros atualmente incluídos no cânon do Novo Testamento não sejam os verdadeiros.

Sumário

1. O termo cânon deriva-se do grego e significa "norma" ou "padrão". O cânon é usado para descrever a lista autoritativa de livros que a igreja reconheceu como Escrituras Sagradas, e portanto sua "regra" de fé e prática.

2. Além dos 66 livros da Bíblia aceitos pelos protestantes, os católicos romanos também aceitam os Livros Apócrifos como Escrituras autoritativa.

3. Para combater as heresias, a Igreja descobriu que era preciso declarar quais livros tinham sido reconhecidos como sendo autoritativos.

4. Existem alguns livros no cânon que foram assuntos de debate (Hebreus, Tiago, 2 Pedro, 2 e 3 João, Judas e Apocalipse) e alguns livros cuja inclusão foi considerada, mas que não foram admitidos no cânon, incluindo 1 Clemente, O Pastor de Hermas e O Didaquê.

5. A Igreja não criou o Cânon, mas apenas reconheceu os livros que tinham as marcas de canonicidade e que portanto tinham autoridade na Igreja.

6. As marcas de canonicidade incluíam: (a) autoridade ou endosso apostólico; (2) autoridade reconhecida na Igreja primitiva e (3) estar em harmonia com os livros que já faziam parte inquestionável do cânon.

Autor: R. C. Sproul Fonte: 1º Caderno Verdades Essenciais da Fé Cristã – R.C.Sproul.

Leia Mais...

A Palavra sob Ataque

A Palavra sob Ataque

Satanás foi historicamente o primeiro a lançar dúvidas quanto à Palavra de Deus. A partir daí, ainda que sem admitir, na prática todos somos conduzidos, de uma forma ou de outra, a duvidar do que Deus disse. Como? Quando, por exemplo, não consideramos os seus ensinamentos em nossa conduta e decisões. Chamo isso de negação existencial da Palavra ou ateísmo prática. Vejamos como Satanás agiu e ainda age no que se refere à Palavra de Deus:

A. Deturpando a Palavra

Há muitas pessoas que sabem citar de memória, com grande facilidade, trechos das Escrituras. Algumas dessas pessoas fazem isso fora de contexto. Foi precisamente assim que Satanás fez com Eva e agiu do mesmo modo com Cristo, no deserto.No livro de Gênesis, encontramos o registro da ordem de Deus dada a Adão: “De toda árvore comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.16,17). Quando Satanás se depara com uma ocasião propícia para os seus intentos, diz a Eva: “É assim que Deus disse: Não comerás de toda árvore do jardim?... É certo que não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele [fruto] comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal” (Gn 3.1,4,5). Com Jesus, Satanás tenta fazer a mesma coisa (Mt 4.1-11), citando o Salmo 91.11,12, para que ele, cedendo à tentação, disse algo como: “Eu sou o filho de Deus e vou provar isso”.

Ao longo da História, esta tem sido uma das estratégias preferidas de Satanás: deturpar a Palavra de Deus. Quantas heresias surgiram e continuam surgindo, supostamente baseadas em textos bíblicos? O homem moderno, falando da possibilidade de “uma leitura deferente das Escrituras”, tem ensinado aberrações antibíblica.

A maior parte das heresias tem em sua esfera trechos isolados das Escrituras que parecem ensinar algo de novo e arrebatador, ainda não percebido antes. No entanto, quando vamos analisar o fundamento dessas “interpretações” percebemos o quão deferente é da verdade bíblica. Há pessoas que negam a divindade de Cristo pela Bíblia; outros que fundamentam o adultério, a poligamia, o espiritismo, a adoração de anjos, homossexualismo, etc. para todos esses erros a Bíblia é usada como fundamento.Precisamos estar vigilantes para que não sejamos seduzidos pela astúcia do inimigo que sabe agir com sutileza.

B. Insinuando

Satanás não diz diretamente algo a nós, mas dá a entender, induz, sugere uma idéia. Ele nos faz pensar de uma forma equivocada, dando-nos a impressão de que agora, de fato, descobrimos a verdade.A Eva, ele diz: “É assim que Deus disse: não comereis de toda árvore do jardim?” (Gn 3.1). Ora, Deus não tinha dito isso; ao contrário; de toda a árvore o homem poderia comer exceto uma: a árvore do conhecimento do bem e do mal. No entanto, usando palavras semelhantes, ele diz coisas bem diferentes. Em sua insinuação havia a tentativa de dizer que deus era mentiroso e, portanto, não deveria ser obedecido. Eva cedeu; duvidou da Palavra de Deus.

A Jesus, com fome no deserto, ele usa da mesma estratégia, dizendo: “Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pão” (Mt 4.3). O seu desejo é fazer com que Jesus duvide da sua filiação divina, ou que tente prová-la, sucumbindo à tentação. Aliás, este foi um desafio comum a Jesus Cristo: usar do seu poder eterno para fazer o que desejava. Mas ele permaneceu fiel em tudo (Mt 26.29; Jo 8.28, 29, 42; 17.1-6).

Não satisfeito com a resposta de Jesus, Satanás continua: “Se és Filho de Deus, atira-te abaixo, porque está escrito: Aos seus anjos ordenará a teu respeito; que te guardem; e: Eles te susterão nas suas mãos, para não tropeçares nalguma pedra” (Mt 4.6).Mais tarde, na sua crucificação , o mesmo tipo de tentação é feito ao Senhor Jesus (Mt 27.38-43; 15.30-32).

Na insinuação diabólica há sempre uma tentativa de mostrar que o nosso caminho, a nossa opção é a melhor; a sua proposta sempre parecerá ser mais lógica e atraente. A desobediência a Deus é, com freqüência, o caminho que nos parece mais objetivo e prático, além de encontrarmos uma inclinação natural para ele. No entanto, a vontade de Deus para nós é que resistamos a estas tentações e continuemos crendo em Deus e na sua Palavra, seguindo a rota proposta; o caminho de vida por ele traçando por nós.

C. Lançando dúvidas

Antes de prosseguirmos nesse estudo, é necessário dizer que a dúvida não é necessariamente má; é preciso que cultivemos uma boa dose de dúvida, ou critérios, para que não sejamos conduzidos a qualquer crendice.
Satanás procura tirar a certeza que temos da Palavra de deus, para vacilar-nos em nossa fé, abrindo uma brecha para a sua ação mais efetiva.

A recomendação bíblica é resistir ao maligno, porque o resto Satanás deixa por nossa c0nta, deixa que a nossa imaginação pecaminosa fermente a sua insinuação, adicionando outros elementos no decorrer do tempo. O diabo conhece as fraquezas e os deslizes de cada um. Ele sabe onde afetar e onde sustentar desejos pecaminosos. Mas a grande verdade é que quando alguém cai, o pecado cometido não é cobrado de Satanás, mas da pessoa que se deixou seduzir, bem como Adão e Eva tiveram a merecida punição de sua desobediência.Outra dúvida que ele lançou foi a Pedro. Jesus, quando declarou que sofreria muitas coisas, até que fosse morto e ressuscitasse, Pedro, que acabara de confessar ser Jesus Cristo, é usado por Satanás para lançar dúvidas na dolorosa, porem verdadeira certeza que Cristo tinha (Mt 16.22,23).

Percebam a astúcia de Satanás, como ele age: Jesus começou naquele momento a falar aos seus discípulos dos seus sofrimentos futuros, morte e ressurreição e Satanás, em ato contínuo, usa justamente a Pedro, aquele que confessara o seu senhorio, para tentá-lo.

A palavra de Pedro pareciam encorajadoras e consoladores, mas Jesus detectou o mal que estava por trás delas e afastou de si a tentação de não seguir em frente com a missão salvadora, porém externamente dolorosa e devastadora.

A ousadia de Satanás nesse episódio é tremendamente eloqüente. Cristo o repreendeu, não se deixando conduzir por esta ação maligna.

"Desde então começou Jesus Cristo a mostrar aos seus discípulos que era necessário que ele fosse a Jerusalém, que padecesse muitas coisas dos anciãos, dos principais sacerdotes, e dos escribas, que fosse morto, e que ao terceiro dia ressuscitasse.E Pedro, tomando-o à parte, começou a repreendê-lo, dizendo: Tenha Deus compaixão de ti, Senhor; isso de modo nenhum te acontecerá. Ele, porém, voltando-se, disse a Pedro: Para trás de mim, Satanás, que me serves de escândalo; porque não estás pensando nas coisas que são de Deus, mas sim nas que são dos homens." (Mt 16.21-23)

Autor: Herminsten Maia Pereira da Costa Fonte: Revista Expressão, Século 21 – Atualidades, A igreja em seu contexto, Lição 6, pg. 26-28, Ed. Cep.

Leia Mais...

Livre exame e livre interpretação

Livre exame e livre interpretação
Tradição, Confissão e a Supremacia das Escrituras
O erudito evangélico Grescham Machen (1881-1937), asseverou em 1921: “A Reforma do século 16 foi baseada na autoridade da Bíblia e ... colocou o mundo em chamas” [1]. Ele estava certo. A Reforma não somente retomou o estudo e o ensino das Escrituras, como também recuperou a antiga e esquecida forma de lê-la, abrindo o seu estudo para todos. Com isso, iniciando com uma reforma espiritual, ela gerou uma revolução em todas as áreas do saber. Vejamos alguns aspectos disso.

I. Tradição e Escrituras.

A. A redescoberta